Cultura

24/12/2020 | domtotal.com

Foguetes na noite

Talvez tenha resolvido comemorar, mais uma vez, a eleição do seu cunhado para prefeito de Santa Rita do Cabriolé

Afonso Barroso
Afonso Barroso (Freepik)

Afonso Barroso*

Sou acordado ali pelas três da madrugada com o barulho de um foguetório. Maldigo o autor dos disparos tão fora de hora e fico a pensar o que leva um indivíduo a soltar foguetes a estas altas horas, sem o menor respeito ao sono do próximo. E olha que não sou tão próximo, fico a uns bons duzentos metros de onde saíram os estampidos.

Imagino que o homem, naquela noite em que perdeu o sono, talvez tenha zapeado a internet no celular e soube de uma notícia alvissareira: a morte de um credor, um agiota que lhe emprestou dinheiro e o ameaçava até de morte se não pagasse no dia marcado. Achando que o desaparecimento do usurário merecesse alguns foguetes, saiu da cama e soltou-os pela janela com votos de que o credor já estivesse ardendo nas profundas dos infernos.

Mas pode haver motivo menos fúnebre. Quem sabe leu a relação dos aprovados no Enem e viu ali o nome do seu filho. Finalmente, o preguiçoso conseguiu. Graças a Deus. Para agradecer ao Criador, vou quebrar o silêncio da noite com alguns foguetes e mostrar ao mundo minha alegria neste momento vitorioso.

Talvez tenha resolvido comemorar, mais uma vez, a eleição do seu cunhado para prefeito de Santa Rita de não sei o quê, cidadezinha do interior de não sei onde. Sobraram algumas bombas e é preciso detoná-las, assim como o cunhado detonou uma oligarquia no pequeno município dos confins desta nação continental.

Pode ser também que tenha ouvido latidos da sua cadelinha vira-lata, mistura de pequenez com fox-paulista, e quando foi ver ela tinha parido três filhotes do seu relacionamento com o basset charmoso, de latido erótico, que um amigo levara um dia ao seu apartamento e esquecera por instantes em companhia da cachorrinha no cio. O nascimento dos rebentos caninos merecia fogos, e nosso amigo não teve dúvida: soltou-os, desvirginando a madrugada.

Mas eu depois fiquei sabendo o real motivo do foguetório daquele eufórico e mal-educado senhor. É que ele, depois de inúmeras tentativas durante quatro longos meses, conseguiu finalmente chegar a bom termo no seu colóquio sexual com a esposa, mulher vistosa e apetitosa. Ele sofria horrores com a impotência, e por mais que tentasse não conseguia levar a cabo a ventura do sexo. Naquela madrugada, depois de esforço hercúleo e corajosamente ajudado pela mulher, finalmente conseguiu. Ainda ofegante, pulou da cama, pegou os foguetes que guardava debaixo da cama, não sei se para aquela finalidade mesmo, abriu a janela e... fogo. Os quatro estampidos saíram felizes como ele, acordando o quarteirão inteiro e espalhando-se por todo o bairro.

Parece que não teremos outro incômodo semelhante pelos próximos quatro meses, até que ele consiga a façanha de um novo coito concluído satisfatoriamente. É o que estrepitosamente esperamos, eu e todos os demais moradores aqui nas proximidades.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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