Religião

25/12/2020 | domtotal.com

Maria, a mãe de Jesus e nossa mãe

A maternidade de Maria ensina o sentido do amor que supera o egoísmo e se faz dom ao próximo

A devoção popular encontrou em Maria uma mãe universal que acolhe, cuida e reza por todos os seus filhos e filhas
A devoção popular encontrou em Maria uma mãe universal que acolhe, cuida e reza por todos os seus filhos e filhas (Free Bible Images/Lumo Project)

Francisco Thallys Rodrigues*

A presença de Maria na fé e espiritualidade cristãs atravessa tempos, espaços e experiências diversas desde os dados bíblicos, passando pelas experiências de culto e devoção, até as formulações doutrinais. Em todas as situações, ela aparece referida a Jesus como seta que aponta para o seguimento. Nela se identificam mulheres e homens, seja por sua abertura e docilidade ao Espírito Santo, seja por seu testemunho de mãe amorosa e fiel.

Partindo dos dados do Novo Testamento, sobretudo dos evangelhos, constata-se que a presença de Maria aparece associada à missão de seu filho. Os quatro evangelhos afirmam ser Jesus o filho de Maria. Entretanto, o modo como se explicita sofre variações a depender das intenções narrativas de cada evangelista. Marcos, o primeiro evangelho a ser escrito, descreve Maria como mãe de Jesus presente na vida pública de Jesus, ela o acompanha quando é acolhido ou rejeitado entre seus conterrâneos (Mc 3,31-55; 6,1-6). Mateus, por sua vez, dedica maior espaço aos eventos que envolvem a concepção e o nascimento de Jesus, por isso a figura de Maria aparece associada a descrição de José como o justo (Mt 1-2).

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O evangelho de Lucas é o que dedica maior espaço a mãe de Jesus. Ela é descrita como modelo de discipulado. Neste evangelho, encontram-se afirmações e indagações presentes em nossas orações e formulações doutrinais: a saudação de Isabel a Maria qualificando-a como mãe do salvador, a afirmação que a bendiz porque acolheu a Palavra em seu coração e frutificou e o canto do Magnificat no qual se louva a Deus por cumprir suas promessas de libertação. Por fim, o evangelho de João, o último a ser escrito, descreve a presença de Maria em dois momentos importantes da vida de Jesus, formando um arco que atravessa toda a sua vida: ela está presente no início do ministério do Mestre (Jo 2,1-12), no seu primeiro sinal, e também no seu último momento terreno, na cruz (Jo 19,25-27).

A devoção popular desde cedo acentuou e enalteceu a beleza do chamado de Maria. Encontrou nela uma mãe universal que acolhe, cuida e reza por todos os seus filhos e filhas. Nela se inspiraram homens e mulheres de todos os tempos e culturas, seja na vida eclesial ou no âmbito das relações familiares. Para além, destas experiências próprias da devoção popular mariana e das formulações doutrinais, é importante destacar alguns elementos da maternidade de Maria.

Maria é mulher aberta à graça de Deus, dócil ao Espirito Santo, capaz de acolher na sua vida a proposta de salvação. Ela aceita o chamado, procura vivê-lo com fidelidade e prontidão. Nela se torna evidente a sabedoria dos pequenos capaz de reconhecer a ação salvadora de Deus que sempre vem ao encontro da humanidade. Desde o início, Maria e José enfrentam adversidades de todo tipo, como a fuga da perseguição de Herodes que procura tirar a vida de seu filho.  Junto à família de Nazaré, estão milhares de sertanejos que tantas vezes se obrigam ao deslocamento em tempos de seca. Muitos fogem para outros países em razão da fome, mas também da guerra, violência e sofrimento.   

Maria se une aos múltiplos sofrimentos de seu filho, desde sua rejeição pelos seus conterrâneos até sua morte virulenta numa cruz. Junto com Maria se unem tantas mães que sofrem precocemente a perda de seus filhos em mortes violentas, suicídio, drogas, álcool e numa vida de destruição. Como Mãe das dores, ela se faz solidária a todas estas mulheres que tanto padecem ao ver seu filho sem vida.

Além disso, há um elemento que comumente passa despercebido aos nossos olhos. Todos nós nascemos como seres humanos, mas ninguém nasce propriamente humano, isto é, a humanidade mesmo, aquilo que nos identifica e diferencia como humanos, aprende-se por meio das relações. Por conseguinte, aquilo que somos e fazemos, o modo como tratamos o próximo e enfrentamos os problemas da vida, advém de nossas primeiras experiências familiares e comunitárias. Portanto, aprendemos com o nosso próximo, especialmente aqueles que nos educaram.  

A maternidade de Maria ensina o sentido do amor que supera o egoísmo e se faz dom ao próximo. Nela se manifesta a capacidade humana de fazer da vida um serviço a Deus nos irmãos e irmãs. Em tempos de indiferença e violência estrutural, Maria nos convida a acolher o próximo como dom de Deus, viver uma maternidade universal na qual, homens e mulheres, sentem-se responsáveis uns pelos outros.

A partir disso, pode-se dizer que Jesus aprendeu a ser humano com Maria e José, compreendeu o que significa compaixão, solidariedade e misericórdia. Aprendeu a ter fala simples e profunda, capaz de esconder os mistérios do Reino de Deus na narração de histórias e parábolas, compreensíveis apenas àqueles que se abriram à vontade de Deus.  Desde a Galileia, sentiu na pele o que é injustiça e rejeição, mas aprendeu de Maria a fidelidade de Deus às suas promessas.

Celebrar o natal é fazer memória da encarnação de Deus, recordar que Ele caminha conosco em meio as nossas alegrias e sofrimentos. Em Jesus se revela plenamente quem é Deus e qual seu sonho para a humanidade. Na acolhida de Maria ao convite de Deus e no modo como viveu fielmente como mãe de Jesus, revelam-se a possibilidade de cada ser humano acolher o dom de Deus e deixar que Ele seja o absoluto em nossa vida.

*Presbítero da Diocese de Crateús. Especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR). Trabalha na Paróquia Nossa Senhora do Rosário em Tauá–CE e no Colégio Antônio Araripe como professor de história no Ensino Médio.



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