Religião

25/12/2020 | domtotal.com

Família de Nazaré: entre o ideal cristão e a realidade familiar brasileira

A família brasileira, querendo seguir o testemunho da família sagrada, tem a tarefa de se colocar num processo permanente de escuta da vontade de Deus

Se o cristão quiser assemelhar-se à família de Jesus, Maria e José, o reconhecimento da pluralidade de formas familiares se torna um imperativo. Na foto, famílias no DF recebem refeição de projeto social em abril
Se o cristão quiser assemelhar-se à família de Jesus, Maria e José, o reconhecimento da pluralidade de formas familiares se torna um imperativo. Na foto, famílias no DF recebem refeição de projeto social em abril (Paulo H. Carvalho/Agência Brasília)

César Thiago do Carmo Alves*

Pobres, migrantes e fora da normatividade familiar de seu tempo, assim era a realidade da família de Nazaré. Totalmente às avessas do que se poderia conceber como um modelo de família ideal para os seus contemporâneos. Foi justamente nesse modelo que Deus quis revelar a sua glória e manifestar sua predileção. Os cristãos enxergam nessa família o protótipo da cristã. No entanto, observa-se uma romantização da família sagrada. Não é desconhecida a jaculatória: "Jesus, Maria e José, minha família vossa é", mas, afinal, será que os cristãos se dão conta realmente de quão paradoxal é ela?

O "modelo perfeito" e padronizado da família brasileira é o núcleo formado por pai (homem cisgênero), mãe (mulher cisgênera) e filhos (todos cisgêneros e heterossexuais); ou formado por um dos pais e seus descendentes. Tudo o que sai fora desse padrão não pode ser considerado família. Desconhece outros núcleos familiares. Isso se pode constatar no famigerado projeto de lei 6583/16, apresentado pelo deputado federal Anderson Ferreira. O art. 2º do referido projeto, assim diz: "define-se entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes". Para dar destaque, as palavras homem e mulher estão em negrito no texto do projeto. Isso tem impacto no campo do direito civil, pois uma vez reconhecida essa proposição, corre-se o risco de minar paulatinamente direitos adquiridos por outras composições familiares. Na lógica da padronização, a seu tempo, a família de Nazaré não poderia ser reconhecida como tal. Dessa forma, o primeiro ponto a ser ressaltado aos cristãos é que se quiser assemelhar-se à família de Jesus, Maria e José, o reconhecimento da pluralidade de formas familiares se torna um imperativo. Fora isso, tudo se torna falácia em nome dos "bons costumes" da chamada família tradicional (que de tradicional não se tem nada!) brasileira.

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Cada vez mais nos vemos na necessidade de repensar a nossa masculinidade tóxica. Por isso ao refletir no ideal cristão da família de Nazaré se impõe olhar para a figura de José e pensar na paternidade responsável. É claro que teologicamente se sabe que a preocupação do evangelista Mateus, no chamado evangelho da infância, é de assegurar que Jesus é Filho de Deus, sendo de José por adoção. Mas a metáfora ainda assim é muito boa para refletir no que significa assumir um filho, uma filha. Estamos num país que se declara majoritariamente cristão. É curioso notar também que nesse mesmo país que contempla a família de Nazaré como exemplo da família cristã temos inúmeras mulheres que assumem por si só o cuidado e a educação dos filhos. O pai simplesmente some ou tampouco assume. Quando se recorre ao poder judiciário para requerer pensão por alimento, tantas vezes esses homens acreditam que a mulher estará se enriquecendo com o pouco dinheiro arbitrado pelo magistrado. São esses que, depois, tantas vezes estão com o nome de Deus na boca e gritando pela moralidade da família brasileira. Uma verdadeira hipocrisia. Assim sendo, o segundo ponto a ser destacado é que os homens cristãos precisam repensar a sua forma de viver as masculinidades e de como compreendem e assumem a paternidade. Cabe aqui também pensar sobre a paternidade socioafetiva, que consiste numa responsabilidade de igual importância ou até mesmo mais do que a biológica, entendimento esse afirmado por vários juristas especialistas em direito das famílias.

A família de Nazaré é marcada pela escuta atenta ao querer de Deus em sua vida. Os textos dos evangelhos deixam isso claro (Mt 1,18-28; Mc 14,36; Lc 1,26-38). Essa escuta foi capaz de mudar o rumo da vida dela. É uma escuta que se coloca em diálogo com Deus que quer manifestar o seu projeto. Nesse sentido, a família brasileira querendo seguir o testemunho da família sagrada, tem a tarefa de se colocar num processo permanente de escuta da vontade de Deus. No entanto, isso só é possível se no seio familiar, cada membro for capaz efetivamente escutar o outro sem querer impor seus pontos de vistas, arrogando para si a verdade absoluta. Assistimos diuturnamente famílias se desmoronarem por não terem a paciência de ouvir o que o outro quer comunicar. Vale dizer que essa comunicação, tantas vezes pode ser não verbal. A atenção delicada ajuda em muito a captar o que o outro está querendo transmitir. Não se pode dizer que uma família escuta a Deus simplesmente porque vive na normatividade, quando na verdade a arte da "escutatória" não se faz presente naquele núcleo familiar. Enfim, escutar uns aos outros para escutar a Deus é, indubitavelmente, um terceiro e desafiante ponto a ser ressaltado no que diz respeito ao testemunho deixado pela família de Nazaré para a família cristã brasileira. Só assim poder-se-á afirmar: "quanto a mim e à minha casa, serviremos a YHWH" (Js 24,15).

Como ideal cristão, a família de Nazaré mais desestabiliza os conceitos formados na atual conjuntura brasileira do que ratifica um modo de pensar. Mais questiona do que romantiza. Mais coloca na direção do Deus revelado por Jesus do que da imposição cultural arrastada por séculos da padronização familiar sob a pretensa tutela de Deus. Ainda tem-se muito que caminhar para poder se aproximar do modus vivendi da família sagrada.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.



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