Religião

28/12/2020 | domtotal.com

Em memória dos santos inocentes, num país que assassina crianças

Naturalização da morte de crianças desumaniza a todos

Ato organizado pela ONG Rio de Paz, em 2017, no qual placas forma colocadas na praia de Copacabana com nomes de menores que morreram vítimas de balas perdidas nos 10 anos anteriores na capital fluminense
Ato organizado pela ONG Rio de Paz, em 2017, no qual placas forma colocadas na praia de Copacabana com nomes de menores que morreram vítimas de balas perdidas nos 10 anos anteriores na capital fluminense (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Felipe Magalhães Francisco*

Narra o Evangelho de Mateus a fuga da Família de Nazaré para o Egito, por ocasião da perseguição do rei Herodes ao prometido Rei dos Judeus. Depois que os magos do Oriente foram ao palácio - lugar até então óbvio onde deveria estar um futuro rei - Herodes, vendo seu poder sob risco, coloca-se a perseguir e matar todos os recém-nascidos e os menores de dois anos: tentou arrancar aquilo que era sua ameaça pela raiz (cf. Mt 216). Essa narrativa é o que chamamos de história exemplar: um recurso literário, muito comum na literatura judaica, que visa, por meio de um causo, retomar tradições antigas importantes, ressignificando-as.

O recém-nascido Jesus, sob os cuidados de Maria e José, foi exilado de sua própria terra, para não ser morto. Há duas histórias do Antigo Testamento que podemos perceber, inscritas por trás dessa narrativa: a de José do Egito, que havia sido deixado por seus irmãos para morrer, e que acabou sendo levado para ser escravo, depois tornando-se motivo de salvação para os hebreus; e a história de Moisés que, para não ser morto também num genocídio, havia sido deixado numa cesta por sua mãe, no rio, a fim de que fosse salvo. Moisés foi o braço de Deus, para a libertação dos hebreus da escravidão do Egito, além de ter sido o responsável por muito contribuir para o nascimento da identidade daquele povo. O recém-nascido Jesus, aos olhos do evangelista Mateus, é o novo José e, mais simbólico ainda, o novo Moisés: "Do Egito chamei meu filho" (Os 11,1).

A família de Jesus pôde fugir (literariamente, fundamental para a continuidade da história) da perseguição. Segundo a narrativa, um sem número de outras famílias não puderam. O dia 28 de dezembro, no calendário litúrgico católico, é dedicado à memória destes santos inocentes, assassinados pelo apego ao poder dos poderosos, que se ameaçam até pela fragilidade das crianças. São contados como mártires: inocentes, não tiveram suas vidas poupadas; acabaram por contribuir para o cumprimento da história da salvação, ao expor a crueldade do poder.

No Brasil, todos os anos a história exemplar narrada por Mateus toma forma tragicamente. A fracassada guerra ao tráfico condena à morte crianças, muitas vezes atingidas enquanto brincavam. As chamadas "balas-perdidas", infelizmente, sempre têm destino: pobres e pretos, jovens e crianças. É a força do Estado a serviço da morte: um Estado que é sempre mínimo para os pobres e favelados; muitas vezes, bem menor que o mínimo. Uma bala de fuzil capaz de assinar, de uma vez só vez, duas crianças que faziam aquilo que deviam, brincar, num país onde o governo atua para facilitar a importação de armas e munição, mas que odeia a educação e a cultura.

São inocentes que têm a vida roubada. E, por vida, compreendemos não apenas a capacidade de respirar. São, também, todas as potencialidades; são histórias abruptamente interrompidas. Ninguém merece ter sua vida tirada, independentemente de quantos crimes possa ter cometido. Assassinar crianças e naturalizar isso é uma crueldade que nos desumaniza a todos e todas. Um país que tem por prática corriqueira assassinar suas crianças, e privar tantas outras de uma vida digna, não tem futuro possível. É preciso destronar os Herodes; é preciso seguir a estrela que aponta para a vida. Que a memória dos santos inocentes brasileiros nos inspire a cantar, como Maria, a salvação: "[...] derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes [...]" (Lc 1,52).

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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