Ciência e Tecnologia

27/12/2020 | domtotal.com

Ameaça terrorista para o FBI, QAnon chega aos grupos antivacina no Facebook

As teorias conspiratórias do movimento surgido nos EUA aparecem em conteúdos brasileiros da plataforma, segundo análise da União Pró-Vacina

QAnon, grupo ligado a teoria da conspiração, está cada vez mais presente no Facebook, inclusive no Brasil
QAnon, grupo ligado a teoria da conspiração, está cada vez mais presente no Facebook, inclusive no Brasil (Pixabay)

Thais Cardoso

Conteúdos com teorias da conspiração QAnon que já haviam se espalhado em grupos com teor antivacina nos Estados Unidos estão ganhando espaço também no Brasil. Uma análise conduzida pela União Pró-Vacina com base em postagens ao longo de 2020 nos dois principais grupos antivacina brasileiros na plataforma confirmou essa disseminação.

O que é o QAnon?

O QAnon é um movimento que surgiu em fóruns de extrema direita na deep web após a eleição de 2016, nos Estados Unidos. Ele se baseia em uma série de teorias da conspiração ligando políticos e personalidades a pedofilia e satanismo, mas também assume o perfil de um movimento social militarizado, incitando, inclusive, a violência em seus conteúdos. O FBI, departamento federal de investigação norte-americano, chegou até mesmo a classificá-lo como ameaça terrorista doméstica.

As teorias do QAnon se espalharam pela internet e desde 2017 também invadiram as redes sociais. Somente em agosto de 2020, o Facebook anunciou que havia excluído páginas, grupos e contas diretamente ligados a ele, alegando que esse conteúdo viola suas políticas. No Brasil, a plataforma também realizou uma ação semelhante em setembro, derrubando grupos e páginas que totalizavam pelo menos 570 mil seguidores.

Com a demora em uma providência mais enérgica, o movimento foi capaz de se organizar e se espalhar por outros grupos com histórico em teorias da conspiração, como os de radicalismo político e comunidades antivacina. O Facebook agiu novamente e anunciou, em outubro, que removeria quaisquer páginas, grupos e contas do Instagram com algum tipo de ligação com o QAnon, mesmo que não fosse um conteúdo violento. Um dos resultados foi o recente banimento do maior grupo antivacina dos Estados Unidos nessa rede social, o Stop Mandatory Vaccination.

Apesar de a situação ser a mesma nos grupos antivacina do Brasil, nenhuma medida foi tomada ainda. A União Pró-Vacina alerta que a demora do Facebook em adotar uma atitude assertiva pode produzir consequências desastrosas, principalmente pela associação dessas teorias da conspiração ao movimento antivacina no momento em que o País enfrenta novo crescimento na contaminação pela Covid-19 e está às vésperas de uma vacinação que pode salvar milhões de vidas.

A pesquisa

A União Pró-Vacina vem monitorando as postagens dos dois grupos mais conhecidos com temática antivacina no Brasil desde o início de 2020. Os assuntos referentes ao QAnon começaram a aparecer em fevereiro e alcançaram picos em abril e julho. Ao todo, a análise encontrou 144 conteúdos, entre comentários e postagens incluindo vídeos, links, imagens e textos, que exibiam algum tipo de termo ligado ao movimento ou direcionavam os usuários para grupos ou sites específicos. Foram mapeados 16 termos tradicionalmente usados pelo QAnon nessas publicações.

No caso dos comentários – que representam 65% do conteúdo –, os responsáveis incitam os usuários a pesquisarem sobre essas teorias conspiracionistas e fazem menções explícitas ao QAnon. Mesmo assim, não há qualquer tipo de moderação. Alguns perfis responsáveis por esses comentários também exibem imagens e conteúdos com clara ligação ao movimento e seguem ativos na rede. Apenas uma das publicações analisadas estava marcada pela plataforma como informação falsa.

Assim como em outras análises realizadas anteriormente pela União Pró-Vacina, um padrão se repete: um número pequeno de usuários é responsável por um volume muito grande de postagens. Nesse caso, apenas 8 dos 73 autores das postagens geraram 55 publicações, mais de 38% do total.

O modus operandi do movimento pode produzir danos ainda maiores, pois, além de incitar os demais integrantes do grupo a pesquisarem termos relacionados ao QAnon na internet – o que acaba por direcioná-los a sites ligados a essas teorias da conspiração -, eles também agem de forma a sequestrar hashtags importantes e que fazem menção a assuntos reais. Em uma das postagens, por exemplo, são usadas as hashtags #fiqueemcasa, #usemascara, #vacinaréproteger, vinculadas a hashtags do movimento #QANONBRASIL e outras que incitam comportamentos de risco, como #filmeseuhospital.

Os pesquisadores da União Pró-Vacina destacam que esse tipo de ação direciona pessoas que buscam por esses termos e hashtags, procurando um conteúdo de confiança, para páginas e postagens conspiracionistas e recheadas de informações falsas. 

Um exemplo semelhante aconteceu nos Estados Unidos, quando o QAnon sequestrou a hashtag #SavetheChildren. Em vez de se referir à organização não governamental centenária que atua em prol dos direitos das crianças, o termo direcionava a uma das principais teorias da conspiração defendidas pelo QAnon, envolvendo o suposto sequestro e abuso de crianças por membros do Partido Democrata e celebridades de Hollywood.

 


Jornal Usp



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