Religião

08/01/2021 | domtotal.com

Os santos reis e a pedagogia da gratuidade

A visita dos magos ao recém-nascido que vinha de Deus simboliza a gratuidade da Salvação

Biblicamente, o episódio narrado por Mateus sinaliza a universalidade da salvação
Biblicamente, o episódio narrado por Mateus sinaliza a universalidade da salvação (Unsplash/Jonathan Meyer)

Felipe Magalhães Francisco*

Narra o Evangelho de Mateus que, após o nascimento de Jesus, magos do Oriente foram até Jerusalém, perguntando onde estava o rei dos judeus que tinha acabado de nascer. Jerusalém era o lugar óbvio para se encontrar o rei, lugar dos palácios e da sede administrativa. Mas não era lá onde encontrariam o menino-Deus: deviam se dirigir a Belém, tal como a profecia apontava. Lá chegando, encontraram o menino, que estava com Maria. Adoraram-no e o presentearam com ouro, incenso e mirra (cf. Mt 2,112).

Ao longo dos séculos, muitos elementos narrativos, de caráter popular, foram sendo acrescidos a essa narrativa de Mateus. Os magos ganharam nomes; o número de três (ou quatro, a depender da narrativa) acabou por se firmar; creditou-se a eles o título de reis... Com tudo isso, passaram a fazer parte do imaginário religioso popular católico: desde a presença nos presépios, passando por simpatias no dia 6 de janeiro, até mesmo as famosas folias de reis.

Biblicamente, o episódio narrado por Mateus sinaliza a universalidade da salvação, proposta com a chegada de Jesus, o Cristo de Deus. Os magos vieram do Oriente: do estrangeiro, mostrando que a salvação ofertada por Deus não se restringe ao povo de Israel, mas a todos aqueles e aquelas que têm boa-vontade de recebê-la. Provinham de uma tribo sacerdotal da Pérsia e eram chamados magos (= sábios), pois eram dados à astrologia. A universalidade da salvação não diz respeito apenas à inexistência de fronteiras territoriais, mas também religiosas e culturais. O dom, por ser universal, é para todos e todas e o critério é a aceitação.

À gratuidade da salvação, simbolizada na visita dos magos ao recém-nascido que vinha de Deus, temos o generoso aceite: os sábios trouxeram presentes, reconhecendo a dignidade daquele que veio ao mundo. A graça se desdobra em graça. E isso vemos refletindo para além da perspectiva da narração bíblica: também a cultura religiosa popular assim bem expressa, em seus costumes ligados à devoção aos santos reis. Há uma pedagogia bonita que tem muito a nos comunicar, sobre a maneira como recebemos Cristo que está sempre a vir para junto de nós.

No Dom Especial desta semana, ainda envoltos com a temática do que a festa do Natal simboliza para os cristãos e cristãs, lançamos o olhar sobre a tradição religiosa que gira no entorno dos santos reis, também com um olhar teológico do que isso significa no quadro da história da salvação. No primeiro artigo, Epifania: o resplendor da salvação, Daniel Reis reflete sobre as bases litúrgico-teológicas de nosso tema. Em seguida, Mariana Gino resgata a tradição popular dos santos reis, com o artigo A Folia de Reis: um legado da religiosidade popular. Por fim, Lorena Alves Silveira propõe o artigo O ato de presentear como uma prática cristã, no qual reflete sobre a doação de nós próprios, na gratuidade das relações.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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