Religião

08/01/2021 | domtotal.com

Epifania: o resplendor da salvação

Iluminados pelo nosso Batismo, somos chamados a fazer do nosso testemunho cristão uma estrela-guia

Se no Natal temos o 'acendimento' do Menino Luz, na Epifania encontramos sua manifestação esplendorosa ao mundo
Se no Natal temos o 'acendimento' do Menino Luz, na Epifania encontramos sua manifestação esplendorosa ao mundo (Pixabay)

Daniel Reis*

Celebrada no domingo entre 2 e 8 de janeiro e inserida no Tempo do Natal, a Solenidade da Epifania do Senhor guarda um belíssimo significado teológico-litúrgico enquanto manifestação ao mundo da Luz que se fez carne em Jesus de Nazaré. Para mergulharmos no rico sentido da Epifania, o campo semântico da "luz" será de grande ajuda para "iluminar" a nossa reflexão, bem como o método seguro da lex orandi, lex credendi, onde a partir da celebração litúrgica chega-se ao conteúdo teológico, de fé.

Enquanto no Natal celebramos o Mistério da Encarnação, do Deus que se fez um de nós para nos salvar como que por dentro, gestado no ventre materno de Maria, aquela que deu à luz a Luz da Humanidade, na Epifania destacamos a manifestação dessa Luz a todas as gentes, povos e nações do mundo, para quem resplandece a salvação de Deus.

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Ainda na esteira do Natal, que se dá em um contexto de escondimento, na intimidade de uma família, a Sagrada Família (aspecto celebrado especialmente em uma festa litúrgica própria, no domingo dentro da Oitava do Natal), na Epifania, por outro lado, temos simbolizado nos magos do Oriente um certo caráter de reconhecimento público e universal do Menino Jesus, como "A" revelação da salvação a todos os homens e mulheres de boa vontade que queiram se deixar guiar pela estrela do Evangelho. Assim, se no Natal temos o "acendimento" do Menino Luz, na Epifania encontramos sua manifestação esplendorosa ao mundo.

A perícope evangélica (Mt 2,1-12) proclamada nesta solenidade apresenta o reconhecimento da realeza, da divindade e da própria humanidade de Jesus, traduzidas na adoração (v. 11b) e nos dons a Ele oferecidos pelos magos: ouro, incenso e mirra (v. 11c). A identificação da condição desses visitantes como "magos" (v. 1a) abre a perspectiva da universalidade da salvação, reforçada por Paulo na 2ª Leitura deste dia (Ef 3,2-3a.5-6): "os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho" (v. 6). A estrela, mencionada 4 vezes em Mateus (2, 2b.7.9b.10), é o Evangelho, que guia os povos e nações de ontem e de hoje ao encontro da verdadeira Luz (cf. oração do dia e depois da comunhão da Solenidade da Epifania).

A 1ª Leitura (Is 60, 1-6) reforça poeticamente o campo semântico da luz: Jerusalém que deve "acender as luzes" para a chegada da luz gloriosa do Senhor (cf. v.1); os povos da "terra envolvida em trevas e nuvens escuras" (v. 2a), que com a manifestação da glória de Deus (cf. v. 2b), passam a caminhar sob a Sua luz e ao clarão de Sua aurora (cf. v.3); a imagem escatológica da Jerusalém que ficará "radiante" (v. 5) quando contemplar seus filhos e filhas chegando e reunindo-se diante dela (cf. v. 4).

Esse fulgor salvífico e vislumbre do brilho eterno apontados na 1ª Leitura estão presentes no prefácio da oração eucarística previsto para esta solenidade, intitulado Cristo, luz dos povos, onde encontramos: "Revelastes, hoje, o mistério de vosso Filho como luz para iluminar todos os povos no caminho da salvação. Quando Cristo se manifestou em nossa carne mortal, vós nos recriastes na luz eterna de sua divindade".

Esse "hoje" apontado no prefácio é importantíssimo e não pode passar despercebido. Nos faz reconhecer que cada celebração litúrgica é o "hoje da salvação", que se realiza na atualidade da comunidade celebrante. Ainda, especialmente na liturgia da Epifania, este "hoje" é evidenciado por Paulo aos efésios na 2ª Leitura: "Este mistério, Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito [...]" (Ef 3, 5).

Iluminados pelo nosso Batismo, somos chamados a ser e a irradiar o brilho da salvação (cf. Mt 5, 14-16), a fazer do nosso testemunho cristão uma estrela-guia para aclarar e conduzir o caminho da humanidade rumo ao clarão da glória salvífica manifestada em Jesus, a verdadeira Luz! Como Igreja, tal como reza a oração sobre as oferendas desta liturgia, não mais apresentamos "ouro, incenso e mirra, mas o próprio Jesus Cristo" ao mundo, para que este alcance a justiça, a paz e a libertação cantadas no Salmo Responsorial.

*Daniel Reis é leigo, bacharel em Direito e graduando em Teologia pela PUC Minas. Cursou Especialização em Liturgia pelo Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard e Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL). Assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Membro do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia (SAL). Membro do Regional Leste II para a Liturgia, da CNBB. Membro da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).



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