Religião

08/01/2021 | domtotal.com

A Folia de Reis: um legado da religiosidade popular

Tradição popular entrelaça múltiplas referências culturais que juntas forjaram as nossas identidades religiosas

Em Minas Gerais, folia de Reis é patrimônio imaterial do estado
Em Minas Gerais, folia de Reis é patrimônio imaterial do estado (Verônica Manevy/ Imprensa MG)

Mariana Gino*

Hoje é o dia de Santo Reis
Anda meio esquecido
Mas é o dia da festa
De Santo Reis
Hoje é o dia de Santo Reis
Anda meio esquisito
Mas é o dia da festa
De Santo Reis

Interpretada pelo nosso saudoso Tim Maia e composta por Marcio Leonardo, a música citada acima fala sobre uma das maiores festas e legado do catolicismo e religiosidade popular brasileira. Quem nunca escutou a música A festa do Santo Reis e viu ser delineado uma memória interiorana repleta de um imaginário cristão católico em torno dos "Reis Magos"? As rezas, as fitas coloridas, as visitas de porta em porta, que dura do final de dezembro até o Dia de Reis, comemorado em 6 de janeiro, que é feita por grupos organizados, motivados por propósitos sociais e filantrópicos, misturado por músicos tocando instrumentos, em sua maioria de confecção caseira e artesanal como tambores, reco-reco, flauta e rabeca, a tradicional viola caipira e do acordeão, que juntos dão o tom da festa pública mais popular que já se ouviu e se viu até aqui.

Além dos músicos instrumentistas e cantores, o grupo se compõe de dançarinos, palhaços e outras figuras folclóricas devidamente caracterizadas, segundo as lendas e tradições locais de cada região. Organizados pela liderança do mestre da folia seguem com reverência os passos da bandeira, cumprindo rituais tradicionais de inquestionável beleza e riqueza cultural popular brasileira.

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Como bem nos conta a História, as comemorações da Festa de Reis remontam a devoção aos Reis Magos, figuras lendárias e imaginárias, ocorria em toda a Europa durante a Idade Média. No Brasil, por herança colonial, a festa chega com a presença portuguesa e ainda no período colonial rapidamente ganha feições e traços legitimamente brasileiros do catolicismo e da religiosidade popular, que aqui se fazia muito presente devido ao processo de "aculturação". Para uma brevíssima contextualização sobre o simbolismo e representatividade da Festa de Reis, precisamos ter em mente uma visão global do quadro em que se desenvolveu a religiosidade brasileira no período colonial. Assim, surge a necessidade de primeiro traçarmos as definições sobre catolicismo tradicional e o popular.

Utilizando as mesmas prerrogativas que Riolando Azzi, nota-se que o catolicismo "tradicional é caracterizado pelo aspecto luso-brasileiro, atuação leiga com resquícios medievalistas, sobre a questão social e familiar." (AZZI, 1978, p. 50). Já o "catolicismo popular estava bastante próximo dos cultos africanos e ameríndios" (AZZI, 1978, p. 52), gerando não poucas vezes expressões religiosas que podem ser consideradas como verdadeiros sincretismos religiosos.A prática do catolicismo popular não é uma a criação puramente brasileira, mas sim uma prática que já existia em Portugal desde a Idade Média.

Na medida em que se promulgava o modelo de cristandade no Brasil, cresceu também um tipo específico de catolicismo vinculado aos grandes centros devocionais, aos santos, à ação leiga e ao surgimento das irmandades e das ordens terceiras. De suas características mais marcantes destaca-se a vinculação à tradição, à família e uma grande facilidade de expressão social. E é essa especificidade que faz da Festa de Reis, que também é conhecida como Folia de Reis, Companhia de Reis, Reisado, no Brasil um entrelaçamento das múltiplas referências culturais que juntas forjaram as nossas identidades religiosas.

Doutoranda em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestre em História Comprada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pós- Graduada em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2012), bacharel em Teologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora/ PUC-MINAS (2011), bacharel em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2013). Coordenadora da Coordenadoria de Experiências Religiosas Tradicionais Africanas, Afro-brasileiras, Racismo e Intolerância Religiosa (ERARIR/LHER/UFRJ). Atua nos seguintes grupos de pesquisa Modernidade, Religião e Ecologia vinculada a (PUC-MINAS) e "Grupo de estudos Áfrikas" (UFJF) e no Laboratório de História das Experiências Religiosas (LHER/UFRJ). É pesquisadora Associada na Associação Brasileiras de Pesquisadores Negros (ABPN). Possui trabalhos apresentados e publicados nas diferentes áreas de formação humana e metodologia do trabalho cientifico. Atualmente é Professora do Curso de Direito na Universidade Cândido Mendes(RJ) e Coordenadora de projeto no Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP).



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