Religião

08/01/2021 | domtotal.com

O ato de presentear como uma prática cristã

Para os cristãos, ofertar presentes é sinal de partilha, de gratidão a Deus, que nos presenteou por primeiro com a vida e todos os bens que dela ganhamos

Podemos dar pão a quem tem fome, vestir os que estão nus e matar a sede de quem precisa
Podemos dar pão a quem tem fome, vestir os que estão nus e matar a sede de quem precisa (Unsplash/Kira auf der Heide)

Lorena Alves Silveira*

"Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Caíram de joelhos diante dele e o adoraram. Depois abriram seus tesouros e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra " (Mt 2,11).

Esta cena narrada por Mateus é uma das mais queridas pelo povo cristão. Presença assegurada nos presépios, a figura dos magos do Oriente traz beleza ao imaginário coletivo e desperta a alegria e inspiração em muitos de nós. Além da Solenidade da Epifania do Senhor, na qual celebramos a manifestação de Jesus aos povos, representados pelos magos, em muitas regiões do Brasil, especialmente no interior, a narrativa de Mateus ganha vida nas Folias de Reis.

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Quem é do interior de Minas provavelmente já se entusiasmou pela visita das chamadas  "companhias " em suas casas. Motivado pela visita dos magos a Jesus, o Reisado vai de casa em casa cantando seus versos encantadores acompanhados de sanfonas, violas, triângulos, pandeiros, violões... É uma alegria só! Segundo a tradição, os que recebem a visita devem oferecer algo de comer aos visitantes, que, agradecidos, seguem para o próximo destino.

O evangelista nos diz que  "ao verem a estrela, os magos alegraram-se com imensa alegria " (Mt 2,10), afinal, estavam sendo conduzidos ao maior presente que a humanidade poderia receber: a visita de Deus, que se fez um de nós. Movidos por essa presença, os magos abrem seus tesouros e ofertam o que provavelmente há de melhor em sua cultura: ouro, incenso e mirra.

A Tradição tratou de interpretar o simbolismo de cada uma destas ofertas. Para além disso, é certo que essa troca de presentes faz parte do nosso jeito de viver e querer bem. Deus nos presenteia com sua presença, seu amor. Os magos, por sua vez, manifestam sua gratidão com itens preciosos em sua cultura. O Reisado oferta sua visita e seu cantar, levando generosamente a alegria. As casas visitadas desejam retribuir com deliciosos  "mimos " em forma de refeição.

Muitas datas comemorativas são marcadas por essa oferta de presentes, tal é o gosto que temos nisso. Natal, dia das mães e dos pais, aniversário, ou mesmo uma simples visita a um ente querido que há tempo não vemos: sempre existe um motivo para presentear e uma oportunidade para ser agraciado. Para os cristãos e cristãs de todos os tempos, essa troca é sinal de generosidade, gratidão, carinho e gratuidade, além de ser fonte de alegria, cuidado, valorização da vida, das relações.

Há muitos sentimentos e afetos que escolhemos expressar por meio de presentes. Alguns, inclusive, porque são mais fortemente comunicados por essa ação. E aqui temos um ponto importante: presentear é uma ação, uma atitude que escolhemos para manifestar algo ao outro. Em nossos tempos, somos constantemente confundidos pelo apelo do mercado, que embute a lógica do preço, sobrepondo-a a do valor. Mais do que o gesto, o importante é o preço do que é ofertado. Mais do que a gratuidade na oferta, há quase uma imposição de datas para presentear. Ai de quem chegar em nossa casa sem um presente para tal ocasião! Ai de quem ofertar no  "amigo oculto" algo de preço inferior ao que receber!

Essa lógica vigente no mercado ofusca o que há de mais belo nessa prática. Presentear é ser presença de amor, de generosidade. Para os cristãos, sobretudo, ofertar presentes é sinal de partilha, de gratidão a Deus, que nos presenteou por primeiro com a vida e todos os bens que dela ganhamos. Presentear é valorizar o outro, enaltecer um acontecimento, realçar uma relação ou situação importante. Presentear é justamente demonstrar que algo ou alguém são mais valiosos do que qualquer outro bem ou riqueza.

Oferecer presentes a quem conhecemos e a quem nem sabemos o nome é um gesto grandioso. Gesto que nos convida a ser presença, ser cuidado, atenção. Como é bom ser surpreendido por alguém que nos conhece tão bem a ponto de saber exatamente o que nos alegra. Igualmente bom é receber algo que em nada tem a ver conosco, mas é lembrança contínua de que nenhuma diferença entre nós é impedimento para que o amor prevaleça. Aqueles que fazem experiência constante e íntima com Cristo, são inflamados pela sua lógica, nada comercial, de que há mais alegria em dar do que em receber. Dar o que temos, dar o que somos.

Cada momento da vida nos convida a participar da lógica de Jesus. Neste tempo atual, por exemplo, tão esquisito para todos nós, em que muitos perderam seus empregos, outros perderam suas vidas, somos desafiados a refletir, a sair de nós mesmos e descobrir como ser presente de amor e cuidado para o outro. Somos os únicos capazes de dizer a nós mesmos como manifestar a alegria, a gratidão, ou a solidariedade a nossos irmãos e irmãs.

Podemos presentear alguém com uma ligação, uma palavra de esperança, um gesto de encorajamento. Podemos dar pão a quem tem fome, vestir os que estão nus e matar a sede de quem precisa. Neste momento de pandemia, podemos zelar pela vida e pela saúde uns dos outros, renunciando às nossas vontades para dar lugar ao cuidado com quem amamos. Como os magos que visitaram Jesus, abramos o nosso tesouro e tiremos dele a partilha, a generosidade, a esperança, o amor.

*Lorena Alves Silveira, membro do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia de Belo Horizonte.



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