Cultura TV

29/12/2020 | domtotal.com

Retrospectiva: a TV em 2020

Notas e reflexões sobre programas e bastidores

Cena da Praça de São Pedro vazia com Francisco na bênção Urbi et Orbi foi a imagem do ano
Cena da Praça de São Pedro vazia com Francisco na bênção Urbi et Orbi foi a imagem do ano (AFP)

Alexis Parrot*

Entre quatro paredes: BBB e A fazenda 

Neste ano, os realities que emulam a situação do confinamento registraram uma alta de audiência em grandeza oposta ao mirrado aumento do salário mínimo para 2021. Pela primeira vez o Big brother Brasil misturou digital influencers e desconhecidos entre os participantes a título de um autoproclamado ineditismo – apesar de até na extinta Casa dos artistas, do SBT, o expediente já ter sido usado.

Enquanto isso, em A fazenda, os barracos foram a tônica da edição que consagrou Jojo Todynho campeã e confirmou a destreza de Marcos Mion, com uma performance remetendo aos bons tempos em que fazia a diferença na MTV. O bombado apresentador driblou com bom humor e savoir-faire os inúmeros erros da produção do programa, os ataques do público nas redes sociais e o ego inflado dos concorrentes.    

Se Mion finalmente se reencontrou, com Thiago Leifert aconteceu o extremo oposto. Dono do desânimo contagiante habitual, falou demais, deu dicas desnecessárias aos competidores e mais confundiu do que guiou. O saldo positivo do programa foi a justa vitória da médica Thelma, o desmascaramento do grupo das fadas (que de sensatas tinham muito pouco, afinal) e a revelação do gigante Babu para o grande público.  

Roda e avisa

O Roda Viva, outrora o mais importante programa de entrevistas da TV brasileira, segue icônico, porém, por motivos desabonadores. Em 2019 a atração já havia dado inúmeras mostras de parcialidade ideológica, como na edição com o jornalista Glenn Greenwald (ex-The Intercept). Naquela altura, no olho do furacão por publicar as conversas hackeadas de Sergio Moro, Dalton Dallagnol et caterva, Greenwald foi tratado como bandido pelo painel de entrevistadores, ainda sob o comando de Daniela Lima.

Em 2020, o problema apenas se agravou. A escolha da nova apresentadora (a jornalista Vera Magalhães; direitista, mas de uns tempos para cá no time oposto ao de Bolsonaro) e a seleção dos entrevistados demarcam clara campanha contra o presidente – inimigo confesso de João Dória. Como jornalismo, a prática é indefensável e piora a situação da TV Cultura – emissora pública que se comporta como estatal, ao defender com ênfase os interesses políticos do governador de São Paulo, mirando a eleição presidencial de 2022.

Insistindo neste caminho, em 2021 o programa deveria mudar de nome: de Roda Viva para Roda Dória.       

O canal da triste figura

Após o desmanche iniciado pela gestão Temer (responsável pela extinção de seu conselho curador), a TV Brasil vive seu momento mais vergonhoso. Enquanto a TV Cultura merece a justa crítica por servir de acessório político para João Dória, o canal público federal ultrapassa o título de emissora chapa branca para se tornar descarada assessoria de imprensa do Planalto.   

O jornalismo é rasteiro, sem visão crítica ou análise. Afoga o telespectador em números e porcentagens para se esquivar de informar ou discutir, com matérias raramente indo além da manchete. Transforma em notícia qualquer efeméride militar, ignora o debate político e enche o governo federal de afagos congratulatórios. Seu telejornal, o Repórter Brasil, mais parece aquela elegia do puxa-saquismo levada ao ar por anos a fio pelo SBT, a Semana do presidente.    

Dá a impressão de não existir Congresso ou Judiciário no país; tudo só acontece por obra e graça de Bolsonaro. Sem utilidade pública ou sequer informação, o jornalismo do canal merece a baixa audiência alcançada. Se São Paulo é mesmo o túmulo do samba, o Brasil se tornou a catacumba da TV pública.

Em algum lugar do passado

A absurda intimação de Willian Bonner e Renata Vasconcellos para depor na Polícia Civil sobre o caso Queiroz foi apenas o arremate de uma lambança iniciada nas barras da justiça. Instada a proteger a imagem do senador Flavio Bolsonaro, a juíza Cristina Feijó havia proibido a divulgação pelo Jornal Nacional de informações e documentos sobre o imbroglio das rachadinhas.

Com a medida, a meritíssima do Tribunal de Justiça do Rio parece querer relançar uma antiga moda, muito em voga durante a ditadura militar: a censura prévia.     

Vaidade, teu nome é Fux

Em entrevista concedida à TV Justiça na semana passada, o presidente do STF, ministro Luiz Fux apoiou o pedido encaminhado à Fiocruz pelo STJ e pelo próprio Supremo pleiteando que os órgãos furassem a fila da vacina contra a Covid.

Provavelmente amedrontado pela repercussão negativa que chacoalhou a internet, o dono da cabeleira mais empoada do Supremo voltou atrás e exonerou um funcionário do tribunal, execrando a iniciativa e se desdizendo. A decisão espelha mais uma vez o que parece ser o modus operandi do ministro: julgar mais de olho nas redes sociais do que na Constituição.

Curiosamente, nem a medida tomada foi uma bola dentro. Fux mandou embora não o diretor que assinou o tal pedido, mas um subordinado deste. Além disso, o fato de mudar de opinião como uma biruta de aeroporto diante da opinião pública não parece incomodar o magistrado.   

Se não estivesse tão disponível para sair dando depoimentos a três por quatro por aí, sobre tudo e qualquer coisa, a confusão poderia ter sido evitada. Quando a vontade de aparecer é maior que o bom senso, convém lembrar do velho ditado: o peixe morre pela boca.   

Rede TV!: o mico está no ar

É de morrer de rir o processo movido contra Tatá Werneck pela Rede TV! Durante a apresentação do Prêmio Multishow, a humorista depreciou o vestido que usava dizendo que custou "o orçamento de uma grade da Rede TV!"

Na ação, afirma-se que Tatá teria maculado "a honra objetiva" da emissora com a piada e uma indenização por danos morais de 50 mil reais é solicitada. (Como se 50 mil reais fossem resolver a penúria financeira da Rede TV! Ontem a justiça bloqueou bens dos donos do canal devido a uma dívida de mais de 130 milhões).

Em termos de ridículo, a Rede TV! dessa vez se superou.

Quando um humorista perde a graça

Além da revelação das acusações de assédio moral e sexual de Marcius Melhem, a matéria da edição de dezembro da revista Piauí é fundamental porque expõe a conduta institucional da Rede Globo ao lidar com a questão: não lidando.

Live que te quero live

O novo formato, filho dileto das redes sociais, parecia ser o futuro do mercado musical no momento de seu boom, em meados do ano – mas foi perdendo força com o tempo, talvez pelo excesso.

Por isso mesmo, a live de Natal de Caetano Veloso foi uma grata surpresa. Imbuído de verdadeiro espírito natalino, o artista conseguiu aprumar até as árvores de Natal, tocando a todos e levantando o ânimo do período de festas menos festivo que já vivemos.

Entre uma música e outra do repertório lírico e caprichadíssimo, nos brindava com suas caetanices, embaralhando Hannah Arendt e Assis Valente com o recôncavo baiano, presépios e folhas de pitanga. Fez lembrar com doçura da dor que é para o artista a distância do público e sobretudo encantou com o amor profundo que dedica aos filhos e netos sem flertar nem uma única vez com o piegas. 

No final, emocionada e caetanamente, nos desejou um feliz 2001.

Vale também o registro de outro ponto alto recente no território das lives: a participação do padre DJ Zeton na live solidária do canal católico Rede Vida. A discotecagem do carismático religioso, uma balada santa, viralizou e ganhou memes mostrando um lado alegre da religião que nem sempre é lembrado.

A imagem do ano

Este ano a escolha não recai sobre cena de telefilme ou série, mas de uma imagem jornalística.

Enquanto cavalgaduras da ordem de um Trump ou Bolsonaro passaram 2020 se recusando a usar máscaras e incitando aglomerações, um verdadeiro líder já havia dado o exemplo mais digno e correto lá no iniciozinho da pandemia.

Em 27 de março, o papa Francisco  promoveu uma edição extraordinária da bênção urbi et orbi (geralmente concedida apenas na Páscoa e no Natal), transmitida ao vivo pelas plataformas digitais do Vaticano. Sozinho, sobre um palco armado no meio da Praça de São Pedro deserta, o pontífice assim se referiu ao coronavírus: ..."fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda, demo-nos conta de estarmos no mesmo barco... ninguém se salvará sozinho".

Me despeço de 2020 com esta imagem de esperança. Inspirado por ela, desejo força e coragem a todos nós, para que atravessemos unidos – ainda que isolados – as intempéries do ano que chega.

Tchau 2020. Feliz 2001. 2021 há de ser melhor.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!