Religião

01/01/2021 | domtotal.com

Metanóia: razão e prática de uma nova vida

Conversão é mudança de pensamento que ocasiona uma alteração de atitude

A conversão altera drasticamente o caminho seguido, mas ao mesmo tempo recoloca a humanidade no 'eixo'
A conversão altera drasticamente o caminho seguido, mas ao mesmo tempo recoloca a humanidade no 'eixo' (Unsplash/Jad Limcaco)

Daniel Couto*

A tradição religiosa tem, como um dos seus estandartes, o apelo à conversão. Não é novidade escutarmos os clérigos, ministros, evangelizadores, fiéis e descrentes falando sobre uma conversão que, durante séculos, perdeu o seu caráter fundamental e se tornou uma "tentativa de arrebanhar fiéis". Converta-se e encontrará a salvação na minha igreja. Converta-se e os seus problemas serão solucionados pela divindade. Entregue-se ao caminho e converta-se ao nosso modo de ver o mundo. A conversão tornou-se uma "condição" para ser aceito em um grupo religioso e perdeu a sua dimensão transformadora. Converter-se não é "entrar para uma denominação religiosa". Converte-se é um processo de transformação pessoal e comunitário que só é possível no esvaziamento e na colegialidade.

Tudo isso pode parecer confuso, uma vez que a conversão é uma palavra já enraizada no nosso cotidiano. Tentaremos apresentar um outro ponto de vista, buscando o testemunho das primeiras comunidades cristãs (apesar da conversão não ser um atributo exclusivo dos cristãos) e da sua maneira de entender a fé. Em primeiro lugar, a conversão significa uma mudança fundamental de direção. Se pensarmos na linguagem ordinária, convergir é mudar, seguir uma direção diferente da que se está seguindo. Pode ser uma conversão de trânsito, uma conversão nos paradigmas de uma pesquisa científica, uma conversão no sentido da lógica – que significa tomar um sentido semelhante ao anterior a partir da troca dos termos – ou uma conversão no âmbito linguístico, quando uma palavra muda de categoria mantendo a sua forma. Em uma perspectiva metafísica, uma conversão pode ser a alteração da forma/qualidade sem a mudança da substância. Um "ser" se converteria em outro na medida em que mantém a sua substância mas passa a ter uma qualidade/forma diferente da que possuía anteriormente.

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Alguns elementos dessas definições serão importantes para entendermos a "conversão" que estamos tentando resgatar. O primeiro desses elementos é a existência de um caminho inicial, uma direção que já está em curso pelo indivíduo ou pelo grupo. Não se espera uma conversão "ex nihilo", isto é, uma conversão "do nada". Para que a conversão aconteça é preciso uma "situação anterior", um caminho/direção que está "em curso" e a possibilidade de mudança. Não é factível realizar uma conversão para a qual não existe possibilidade. Toda conversão é uma conversão possível. Junto desse primeiro elemento, encontramos a segunda característica que é importante: a mudança. Se existe um caminho anterior e a possibilidade de conversão, essa se caracteriza pela mudança. Pode ser uma mudança radical (como pressupõe o conceito de conversão) para o lado oposto do caminho anterior, ou uma mudança nas características, nas propriedades, na forma. Vendo os conceitos anteriores, podemos ver que essa mudança pode ser a partir da ação irrefletida – como uma conversão literal de trânsito – ou uma mudança de mentalidade – que poderia ser caracterizada no âmbito intelectual, religioso e psicológico.

Sendo assim, vamos deixar a primeira compreensão de conversão de lado, apesar de muitas denominações religiosas tratarem a conversão como uma "mudança literal de espaço". Por entendemos que a conversão pregada nas primeiras comunidades cristãs não se trata de sair da comunidade X para participar da comunidade Y, abordaremos o segundo significado: conversão como mudança de mentalidade.

Ao retornar à expressão grega presente no novo testamento, a μετάνοια (metánoia), percebemos que a exortação por conversão se encontra no aspecto do arrependimento, da mudança de pensamento que ocasiona uma alteração de atitude. Radicalmente é uma mudança (metá/μετά) do intelecto (nous/νοῦς), uma atitude que exige o exercício da razão e uma nova configuração do ser a partir dessa alteração. Nos episódios narrados nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, essa transformação está relacionada ao encontro com um "outro". No encontro entre os discípulos/fiéis e o Cristo acontece o movimento. Confrontando a sua realidade com o "projeto" do Reino de Deus, cada um precisa "examinar" sua existência e, aderindo ao novo modo de experimentar a sua humanidade, converter-se ao "projeto" de Jesus. Deste modo o velho "ser humano" se torna uma "nova humanidade".

A conversão proposta por Jesus, porém, não pode ser apenas "intelectual". É preciso que a pessoa que escolhe o novo caminho, renascendo segundo a boa notícia trazida pelo Messias, dê frutos que condizem com a sua nova realidade. Em Mt 3,8 João Batista adverte que não basta apenas dizer, mas é preciso "produzir frutos que mostrem a vossa conversão", trecho semelhante ao relato de Lc 3, 8, mostrando que converter e gerar frutos estão intimamente conectados. Uma conversão estéril é, na perspectiva cristã, uma falsa conversão. Isso não quer dizer que um "convertido" precisa levar outras pessoas para o mesmo caminho, mas nos mostra que a conversão é intelectual, espiritual e prática. Converter sem dar frutos é como dizer "palavras ao vento"; a metánoia exige uma mudança integral da dimensão humana: corpo, mente e espírito.

Em outro momento do evangelho encontramos Jesus respondendo aos fariseus e escribas: "Não são as pessoas com saúde que precisam de médico, mas as doentes. Não é aos justos que vim chamar à conversão, mas a pecadores" (cf. Lc 5, 31-32). Percebe-se que a conversão se destina aos que precisam reexaminar a sua vida, não em virtude de uma culpa moral, mas porque a maneira como vivem não condiz com a proposta do Reino de Deus. Os pecadores, assim como os doentes, não estão em uma condição permanente, mas podem ser levados à saúde a partir dos cuidados prescritos. A arte médica, desde a antiguidade, compreende que os seres humanos são um organismo equilibrado e a doença é uma perturbação dessa harmonia. O pecado, ao ser comparado com a situação dos enfermos, pode ser entendido como uma condição temporária de desequilíbrio com a nova humanidade. O evangelho de Jesus é um caminho para essa mudança. A conversão altera drasticamente o caminho seguido, mas ao mesmo tempo recoloca a humanidade no "eixo". Cosmologicamente, converter-se é retomar a harmonia com o todo.

Neste sentido, para o cristianismo a conversão é uma postura primordial para a crença. Não basta somente dizer "Senhor, Senhor" se, na concretude da vida, as ações destoam da exigência do evangelho. É por isso que a Igreja, na sabedoria circular o tempo celebrativo, propõe um caminho de constante conversão. O movimento de adesão do "intelecto" e da encarnação do verbo em cada pessoa, que expressará o evangelho pelas ações, é contínuo e ininterrupto. A conversão, portanto, não é um acontecimento pontual, para dizermos: eu me converti. A conversão acontece durante a nossa existência, encontro após encontro, cada pessoa se entregando ao projeto do reino mediando as suas relações a partir da pessoa de Jesus. Da dimensão particular a conversão se alarga para a comunidade que experimenta o encontro com Deus em seu meio. Partilhando a existência, o caminho e as fragilidades, os "irmãos de fé" podem suportar-se na transformação necessária. Só assim, em cada pessoa na sua individualidade em comunhão com cada comunidade na sua realidade sócio histórica Cristo se faz presente em nosso meio.

O caminho da conversão se mostra cíclico, nos ensinando que não há uma realidade última que nos determine de maneira absoluta. Como processo, a conversão nos ajuda a fazer um exame de consciência e reiniciar a caminhada. Não existe tempo perdido, pois a temporalidade só existe na medida em que somos capazes de contabilizá-la. A conversão acontece um passo de cada vez, ciclo após ciclo, mudança após mudança. A natureza, e a Igreja na sua sensibilidade, nos presenteia com a beleza da circularidade do universo. A periodicidade das estações, dos ciclos biológicos, do movimento dos astros e a passagem dos anos, tudo isso nos ajuda a compreender que existe um "tempo oportuno" para a mudança e que esse tempo se constitui no agora. A conversão é um mistério que nos coloca na temporalidade divina, onde o ontem e o amanhã se aglutinam no hoje. Converter-se é renovar o ciclo, colocar-se diante de uma nova vida, estar aberto para a mudança e viver, de modo concreto, essa realidade dando frutos.

Na mudança do ano, tempo propício para novos propósitos, percebemos como o apelo à conversão está presente em nossa natureza. Queremos mudar. Buscamos novos caminhos. Atribuímos novos sentidos para projetos passados. O hoje é a oportunidade para a mudança. Não é possível deixar a conversão para amanhã, pois o amanhã não existe. Só existe o agora, o tempo presente. Esse é o tempo oportuno para nos reencontrarmos com a nossa humanidade. É hoje que nasce para nós o salvador. É "nesta noite" que o Cristo ressuscita. Não deixemos o encontro com o amor para depois, pois a oportunidade de ser diferente está constantemente diante dos nossos olhos. Converter-se não é mudar de "comunidade". Converter-se não é "mudar de fé". Converter-se é encontrar-se com uma nova humanidade que instiga a ter fé, esperança e caridade. O resto não é conversão, é apenas palavrório.

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia pela UFMG e bolsista Capes



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