Religião

31/12/2020 | domtotal.com

Jesus, Maria e José foram refugiados? Sim, com certeza

Sagrada Família estava fugindo por causa de um 'temor fundado de perseguição' por causa de sua 'pertença a um determinado grupo social'

Campo de refugiados sírios nos arredores de Atenas
Campo de refugiados sírios nos arredores de Atenas (Unsplash/Julie Ricard)

James Martin, SJ*
America

Com tantos refugiados e migrantes nas notícias, alguns comentaristas procuraram traçar paralelos entre a situação atual de milhões de pessoas ao redor do mundo e a Sagrada Família - Jesus, Maria e José. Quão precisas são essas comparações? Foram Jesus, Maria e José o que consideraríamos hoje "refugiados"?

Sim! Com certeza.

No segundo capítulo do Evangelho de Mateus, lemos a história da "Fuga para o Egito" na qual, após o nascimento de Jesus e a visita dos Reis Magos, um "anjo do Senhor" vem em sonho a José e avisa-o para deixar Belém e fugir para o Egito (Mt 2, 12-15). Por quê? Porque o rei Herodes estava planejando "procurar a criança para matá-la". Maria e José vão embora, junto com Jesus, e, de acordo com Mateus, vão para o Egito. Depois disso, o rei Herodes massacrou todas as crianças do sexo masculino em Belém com menos de dois anos de idade. Este dramático episódio faz parte da leitura do Evangelho no contexto da "Festa dos Santos Inocentes", celebrada no dia 28 de dezembro.

Então, de acordo com o Evangelho de Mateus, o que está acontecendo? Uma família é forçada a fugir de sua terra natal por medo de perseguição. Esta é a definição clássica moderna de refugiado. Na verdade, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados define esse grupo de pessoas da seguinte forma:

Um refugiado é uma pessoa que foi forçada a fugir de seu país por causa de perseguição, guerra ou violência. Um refugiado tem um medo fundado de perseguição por razões de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou filiação a um determinado grupo social.

A Sagrada Família, como Mateus conta a história, estava fugindo por causa de um "temor fundado de perseguição" por causa de sua "pertença a um determinado grupo social", neste caso pessoas com crianças pequenas que moravam em Belém. Não tenho certeza de como você poderia estar mais claro do que isso.

José e Maria se candidataram ao status de refugiado oficial? Claro que não. Esses tipos de regulamentos provavelmente não estavam em vigor. Pode não ter havido nenhuma fronteira na época. Mas, como Daniel J. Harrington, S.J., um estudioso do Novo Testamento, nos lembra em seu comentário sobre Mateus na série sobre a Sagrada Família:

O Egito, que ficou sob controle romano em 30 a.C., estava fora da jurisdição de Herodes. O país tinha sido o tradicional lugar de refúgio para os judeus tanto nos tempos bíblicos (ver 1 Rs 11,40; Jr 26,21) e na era dos macabeus, quando o sumo sacerdote Onias IV fugiu para lá.

Assim, vemos uma família fugindo para um país estrangeiro com medo de perseguição.

Até a linguagem usada em Mateus ilumina a situação da Sagrada Família. Como em todas as coisas com o Novo Testamento, é útil recorrer ao grego original. Mateus, escrevendo para um público judeu-cristão por volta de 85 DC, apresenta a ordem do anjo da seguinte forma:

Ἐγερθεὶς παράλαβε τὸ παιδίον καὶ τὴν μητωνα αὐτοῦ καὶ φεῦγε εἰς Αἴγυπτoν....

Transliterado, temos: Egertheis paralabe para paidion kai tēn mētera autou kai pheuge eis Aigypton....

Ou, em português: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito..." (Mt 2,13).

A palavra a ser destacada é pheuge, "fugir", da qual deriva a palavra "refugiado", aquele que foge. Até o anjo de Mateus identifica a Sagrada Família como refugiada.

Mas mesmo que a Sagrada Família não se encaixesse na definição contemporânea de refugiados (e eles se encaixam) e mesmo que o Evangelho de Mateus não usasse a palavra grega pheuge (e, de fato, é usada), ainda devemos ter compaixão e estar prontos para cuidarmos de refugiados e migrantes na atualidade.

Por quê? Porque Jesus nos pede. Mais tarde, no Evangelho de Mateus, Jesus nos lembra que sempre que "acolhemos o estrangeiro", acolhemos o próprio Jesus (Mt 25). Os refugiados e migrantes são nossos irmãos e irmãs que precisam desesperadamente de nossa ajuda. A ordem de Jesus de cuidar do estrangeiro também é, para o cristão, uma lei que substitui quaisquer leis que possam impedir, evitar ou proibir tal cuidado e compaixão. Sempre fico surpreso ao ver que alguns cristãos que apelam para leis superiores em outras questões da vida as colocam de lado quando se trata de refugiados e migrantes.

De 1992 a 1994, trabalhei com o Serviço Jesuíta para Refugiados em Nairóbi, Quênia, onde conheci centenas de refugiados que haviam fugido do Sudão, da Uganda, da Somália, da Etiópia, da Eritreia, da Ruanda, do Burundi, da Costa do Marfim e muitos outros países por um "temor bem fundamentado de perseguição". Alguns, como a Sagrada Família temia, viram seus filhos serem assassinados na frente deles. Outros viram seus pais serem massacrados na frente deles. Apesar do sofrimento intenso e quase inimaginável, eles estavam entre as pessoas mais fiéis que já conheci – sagradas famílias à sua maneira.

Certamente essas famílias merecem nossa proteção tanto quanto a Sagrada Família.

Publicado originalmente por America

*O padre James Martin, S.J., é jesuíta, autor e editor geral na América. @jamesmartinsj



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!