Cultura

07/01/2021 | domtotal.com

Faz-se feio quem faz o mal

Garota de rara beleza começa a envelhecer de forma inexplicável antes dos 18 anos

A cada ação má que a personagem comete aparece uma ruga, menos ou mais acentuada, dependendo do teor da maldade
A cada ação má que a personagem comete aparece uma ruga, menos ou mais acentuada, dependendo do teor da maldade (Unsplash/engin akyurt)

Afonso Barroso*

Numa hora em que meu pensamento perambulava à procura de alguma ideia para uma crônica, um conto ou algo parecido, veio-me à lembrança o soneto Mal secreto, do poeta parnasiano Raimundo Correia, e imaginei então uma história que me pareceu interessante. Inspirei-me nos versos iniciais que dizem: "Se a cólera que espuma, a dor que mora/ N'alma e destrói cada ilusão que nasce/ Tudo que punge, tudo que devora/ O coração no rosto se estampasse..."

O soneto, que sempre recito por considerá-lo uma das obras primas da poesia brasileira, repentinamente me abriu a perspectiva de transformá-lo em prosa. Imaginei então uma garota de rara beleza que antes de completar os 18 anos começa a envelhecer de forma inexplicável.

Inexplicável? Não para mim. A causa desse envelhecimento precoce, como revelo usando minha prerrogativa de autor da trama e a inspiração que acaba de emanar daqueles versos, é a maldade que mora na alma da personagem. É tão malvada quanto bela, e a moléstia espiritual começa a se refletir na sua aparência física.

Minha real intenção, em verdade, era levar à reflexão de que não se deve cultivar a maldade até mesmo por amor próprio, por vaidade, ou seja, para preservar a beleza exterior. O soneto apenas supõe, mas estou convencido de que o mal que se esconde no interior de uma pessoa acaba se estampando fatalmente na aparência.

A cada ação má que a personagem comete aparece uma ruga, menos ou mais acentuada, dependendo do teor da maldade. Coisa rara, raríssima, quem sabe até inédita nesta vida de mistérios. Mas o meu conto também é raro, raríssimo, quem sabe até inédito.

Penso em um sem-número de maldades que uma garota pode cometer. Ela espalha fake news na internet, acusando colegas de atos reprováveis ou até criminosos que não cometerem. Nesse caso, aparece um pezinho de galinha no olho direito da moça.

Espalha, anonimamente, que o colégio onde estuda é um antro de corrupção e desmandos. Acusa, com BO e tudo, um ex-namorado de tê-la estuprado. Mentiras criminosas que resultam em outros pezinhos de galinha e rugas diversas.

Denuncia o professor de Física de assédio sexual. Todos sabem que esse professor, o mais simpático da escola, é um gentleman no sentido mais amplo do termo, e jamais teria esse tipo de comportamento. E então o rosto da moça apresenta mais um punhado de pés de galinha.

Essas e outras ações malévolas causam problemas sérios a diversas pessoas, professores, amigos, colegas de classe. A menina é mesmo um exemplar da maldade, uma bruxa que viveu até à adolescência com carinha de anjo e precocemente envelheceu, vítima de uma doença incurável chamada maldade.

E eis que de repente sobrevém o xis da questão: como terminar a história? Que fazer com a minha misteriosa personagem, que aos 40 anos já tem rugas e porte de 90? O que deve ser dela, que viveu da própria maldade e por ela foi irremediavelmente vencida?

Procuro a resposta em todos os recantos e desvãos da mente. É preciso encontrar um final, mesmo que seja infeliz, mas não acho solução razoavelmente adequada. Receio acabar matando o raio da moça e, com ela, o conto que não consegui terminar.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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