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05/01/2021 | domtotal.com

Novo parlamento de maioria chavista toma posse na Venezuela; Guaidó promete resistir

Maduro recuperou o controle do congresso nas eleições de 6 de dezembro, consideradas uma 'fraude' pela oposição, liderada por Guaidó

Nicolás Maduro obteve maioria no Parlamento após eleições questionadas
Nicolás Maduro obteve maioria no Parlamento após eleições questionadas (Yuri Cortez/AFP)

Atualizada às 17h

Levantando retratos de Hugo Chávez e do herói Simón Bolívar, o chavismo assumiu o controle do novo Parlamento venezuelano nesta terça-feira (5), enquanto o líder da oposição, Juan Guaidó, tenta manter um Congresso paralelo com apoio internacional.

Com 256 dos 277 assentos, o governante Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e seus aliados vão controlar a Assembleia Nacional unicameral no período 2021-26, o único poder público que até agora não era controlado pelo presidente Nicolás Maduro.

"Se acabou esta Assembleia Nacional fracassada. Começa um novo ciclo na história da Venezuela, começa uma nova etapa", disse o presidente Nicolás Maduro na segunda-feira (4), durante uma reunião com parlamentares ligados ao governo.

Maduro recuperou o controle do Congresso nas eleições de 6 de dezembro, consideradas uma "fraude" pela oposição, liderada por Guaidó, que como chefe do Parlamento reivindicou em janeiro de 2019 a presidência da Venezuela e foi reconhecido por 50 países.

"Fomos obrigados ao exorcismo" após cinco anos de oposição no Parlamento, lançou o ex-ministro da Comunicação Jorge Rodríguez, eleito por aclamação para presidir a Câmara no primeiro ano de sessões. "Borrifamos água benta em todos os cantos das paredes", acrescentou ele com ironia.

Rodríguez garantiu que "não pode haver perdão com esquecimento" ou "reconciliação com amnésia" em relação à legislatura anterior da Assembleia, no qual Guaidó foi proclamado presidente interino, em 2019, e promoveu uma avalanche de sanções para tentar forçar a saída de Maduro.

"Coloquem sanções onde quiserem", disse ele. "Sanções que são inúteis porque o povo da Venezuela mostrou que nem mesmo as piores sanções serão capazes de dobrar seu ímpeto libertário". Durante a campanha, Maduro e os candidatos do PSUV propuseram uma legislação para punir "traidores" como Guaidó.

As legislativas de dezembro, com índice de abstenção de quase 70% em meio a pedidos de boicote de Guaidó e seus aliados, não foram reconhecidas por Washington e pela União Europeia, que consideraram que não apresentaram garantias suficientes para a participação da oposição.

Ruas bloqueadas

As ruas próximas ao Palácio Legislativo, no centro de Caracas, foram bloqueadas por policiais e militares. Apenas um pequeno grupo de apoiadores do chavismo conseguiu acesso, em meio a um confinamento decretado por Maduro esta semana devido à pandemia de Covid-19.

Os deputados usaram máscaras como medida preventiva ao vírus. Antes de entrar no Legislativo, os parlamentares chavistas se reuniram na Praça Bolívar, onde fizeram uma coroa de flores e depois marcharam, com música folclórica ao fundo e sem distanciamento social, carregando retratos de Chávez em uniforme militar e também de Simón Bolívar.

Um ato semelhante foi apresentado em 2017, antes da instalação da Assembleia Nacional Constituinte (ANC) 100% chavista para neutralizar o trabalho do Parlamento, então controlado pela oposição. Agora que o chavismo recuperou a câmara, a ANC suspendeu funções.

A diretoria do novo Parlamento é composta por Iris Varela como primeira vice-presidente e Didalco Bolívar como segundo, ambos altas personalidades do chavismo.

"Estamos de pé"

As eleições parlamentares em 6 de dezembro foram rotuladas como "fraudulentas" pela maioria da oposição, liderada por Guaidó, que não participou e não reconhece as novas autoridades.

E com o apoio de 50 países, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia, o líder da oposição aprovou com a maioria legislativa cessante a "continuidade" do seu Parlamento até que sejam realizadas eleições presidenciais e legislativas "livres, justas e verificáveis".

O líder da oposição proclamou-se presidente interino depois que o Parlamento declarou Maduro um "usurpador", acusando-o de ter sido reeleito de maneira fraudulenta em 2018.

"Apesar do show que estão fazendo no Palácio Legislativo Federal sequestrado por uma ditadura que ninguém reconhece (...) Estamos aqui, de pé", disse Guaidó nesta terça-feira em sessão virtual na qual foi ratificado como presidente por mais um ano. O ato foi realizado em local não revelado por "segurança".

Guaidó anunciou que era o presidente interino da Venezuela depois que a maioria opositora do Parlamento declarou Maduro como "usurpador", acusando o presidente de ter sido reeleito com fraude em 2018.

Agora, alegando que as legislativas de 2020 foram inválidas, os parlamentares que o apoiam aprovaram em 26 de dezembro a "continuidade" da Assembleia Nacional de maioria opositora até a realização de eleições presidenciais e legislativas "livres, justas e verificáveis". Quatro dias depois, o TSJ anulou a medida. "A continuidade constitucional do Parlamento não é um capricho, é um dever porque não aconteceu uma eleição", justificou Guaidó.

Para o analista Luis Vicente León, diretor do instituto Datanálisis, a tese "não tem aceitação universal" por não estar expressa na Constituição. "O relevante é se serve ou não para manter a articulação interna e o suporte internacional a Guaidó", resume.

"Fim da era Trump"

O fim do Parlamento de oposição na Venezuela coincide com a saída da Presidência dos Estados Unidos de Donald Trump, o principal aliado de Guaidó.

Sob sua administração, a Casa Branca impôs sanções financeiras à Venezuela e sua estatal de petróleo PDVSA para tentar tirar Maduro do poder, a quem o magnata republicano chama de "ditador". 

Maduro já fez vários apelos ao diálogo dirigidos ao sucessor de Trump, o democrata Joe Biden, que chega à Casa Branca em 20 de janeiro. "A era Trump acabou e vamos ver como essa parte da oposição reage", disse o presidente em uma entrevista recente transmitida pela rede de televisão Telesur.

Por enquanto, entre ameaças de prisão contra Guaidó e os deputados que promovem a ideia da "continuidade" do Parlamento, Maduro prometeu mão forte: "Meu pulso não vai tremer".


AFP/Dom Total



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