Ciência e Tecnologia

05/01/2021 | domtotal.com

Fóssil de jacaré revela nova espécie que viveu na Amazônia há 10 milhões de anos

'Melanosuchus latrubessei' viveu às margens do Rio Purus, antes do soerguimento dos Andes

Paleoarte do recém-descoberto 'Melanosuchus latrubessei' durante o dia
Paleoarte do recém-descoberto 'Melanosuchus latrubessei' durante o dia (Deverson Pepi/((o))eco)

Duda Menegassi
((o))eco

Pesquisadores descobriram uma nova espécie de jacaré, já extinta, que habitava a Amazônia brasileira há cerca de 10 milhões de anos. A existência do Melanosuchus latrubessei, como foi nomeado, foi revelada através de um fragmento de fóssil do focinho do animal – apesar de incompleto, o achado foi suficiente para confirmar que se tratava de uma espécie ainda desconhecida pela ciência. O jacaré pré-histórico habitava as margens do Rio Purus e seu fóssil foi encontrado numa região conhecida como sítio Talismã, entre o Acre e o Amazonas.

A descoberta foi descrita em um artigo publicado no último mês na revista científica Zootaxa assinado por pesquisadores de seis instituições brasileiras: Universidade Federal do Acre (Ufac), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Museu da Amazônia (Musa).

Através da técnica de datação com isótopo, os cientistas estimaram a idade do fóssil em aproximadamente 10 milhões de anos, o que corresponde à época do Mioceno, entre 5 e 12 milhões de anos atrás. "Nessa época os Andes ainda não haviam se erguido totalmente em sua porção norte (Equador, Colômbia, Venezuela) permitindo que na região do Acre e sul do Amazonas se formassem grandes acúmulos de águas e planícies de inundações. Esse cenário mudou com a finalização do soerguimento dos Andes (condição similar à que vivemos hoje) que resultou num esvaziamento do acúmulo de água nessa região junto a mudanças climáticas que provavelmente tiveram relação direta na extinção de boa parte da fauna e flora que habitava a região", explica o pesquisador Jonas de Souza-Filho, da Universidade Federal do Acre, e um dos autores do estudo.

O jacaré pré-histórico possuía um tamanho e hábitos alimentares parecidos com o do contemporâneo e também amazônico jacaré-açu (Melanosuchus niger), o maior jacaré vivente do mundo, com uma dieta generalista baseada em peixes, répteis e mamíferos de pequeno a médio porte. O fóssil também revelou a morfologia dos dentes do Melanosuchus latrubessei, que possuía dentes posteriores mais baixos e arredondados que permitiam que se alimentassem de animais mais duros como tartarugas e crustáceos.

"É permitido reconhecer que essa espécie possui inúmeras similaridades morfológicas com o maior jacaré vivente do mundo, o jacaré-açu. Similaridades essas que tornaram possível explicar, por meio da proposição do compartilhamento de um ancestral comum entre essas espécies, onde tais características surgiram, se fixaram e foram herdadas tanto pela espécie fóssil quanto a vivente", detalha Lucy Souza, do Museu da Amazônia. O jacaré-açu pode chegar a 6 metros de tamanho e ocorre exclusivamente na Bacia Amazônica, onde tem ampla distribuição e pode ser encontrado em sete países, entre eles o Brasil.

A paleontóloga explica que o Melanosuchus latrubessei coexistiu com outros crocodilianos como os do gênero Gryposuchus, animais aparentados ao gavial indiano, e do Mourasuchus, crocodiliano com focinho longo e largo que lembra o formato do bico de um pato. "E com o maior crocodiliano conhecido até então, o Purussaurus brasiliensis", completa Lucy, que também já escreveu artigos sobre o purussauro – jacaré que chegaria a 13 metros de comprimento.

"Estudos envolvendo a vida passada são importantes para expandirmos nosso conhecimento sobre a biodiversidade de organismos que já habitaram nosso planeta, mas também para entender como se dá a evolução dos animais e o impacto das mudanças climáticas e ambientais na vida dos organismos. A compreensão do passado nos ajuda a compreender e explicar o presente bem como projetar o futuro avaliando assim os danos e impactos de nossas ações na natureza e quais as possíveis consequências que isso gerou e irão gerar", conclui Jonas.

Matéria originalmente publicada em ((o))eco


((o))eco



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