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07/01/2021 | domtotal.com

Após tumulto no Capitólio, Congresso americano garante certificação de vitória de Biden

Horas antes, Trump fez comício e conclamou seus apoiadores: 'Nunca vamos desistir. Nunca vamos conceder' a vitória

O vice-presidente Mike Pence formaliza a nomeação de Biden como presidente eleito
O vice-presidente Mike Pence formaliza a nomeação de Biden como presidente eleito (Saul Loeb/AFP)

Atualizado às 8h

Após a invasão do Capitólio por apoiadores do presidente Donald Trump, o Congresso americano, em sessão conjunta comandada pelo vice-presidente e presidente do Senado, Mike Pence, certificou na madrugada desta quinta-feira (7), pelo horário de Washington, a vitória de Joe Biden e Kamala Harris como presidente e vice-presidente dos Estados Unidos.

A decisão valida os 306 votos dados ao democrata e os 232 concedidos ao republicano no Colégio Eleitoral e sacramenta o processo de escolha do líder. Com a confirmação do resultado, não há mais nenhum obstáculo formal no caminho de Biden até a Casa Branca. A data da posse do novo presidente e de sua vice foi confirmada para o dia 20 de janeiro.

A sessão que confirmou o resultado das eleições, contudo, passou longe de ser o ato simbólico que costuma ser. Na noite de quarta-feira, os trabalhos foram suspensos após extremistas pró-Trump invadirem o Capitólio para impedir a validação do resultado eleitoral. Quatro pessoas morreram e 52 foram presas em meio ao caos promovido pelos vândalos. Sem apresentar provas, apoiadores de Trump afirmam que as eleições presidenciais foram fraudadas. O fato foi lamentado por autoridades de diferentes campos ideológicos, que viram no episódio um ataque à democracia.

Cerca de duas horas depois de as autoridades terem conseguido limpar o Capitólio e seus arredores, o presidente da sessão conjunta, o vice-presidente Mike Pence, autorizou a retomada dos trabalhos pelas duas Casas do Congresso, para a continuidade do processo de ratificação do resultado das eleições.

O trabalho legislativo, contudo, também não foi simples, com a nova sessão durando mais de sete horas devido ao debate em ambas as Casas sobre duas objeções ao resultado das eleições na Pensilvânia e no Arizona, ambas apresentadas por aliados de Trump.

Com a rejeição das objeções nas duas Casas, a sessão conjunta foi novamente retomada, já na manhã desta quinta, pelo horário do Brasil. Sem nenhuma nova objeção, os parlamentares validaram o resultado apresentado por mais de dez Estados em um curto espaço de tempo, confirmando a vitória da chapa democrata.

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Tumulto

Após um apelo de última hora do presidente Donald Trump para reverter sua derrota eleitoral, apoiadores invadiram o Congresso dos Estados Unidos nessa quarta-feira durante a sessão de certificação da vitória de Joe Biden, causando caos e acusações de uma tentativa de golpe.

A invasão em massa de partidários de Trump ocorreu após um comício extraordinário do republicano em frente à Casa Branca, no qual ele clamou a seus seguidores para impedir a ratificação de Biden. "Nunca vamos desistir. Nunca vamos conceder" a vitória, garantiu.

Policiais tensos sacaram suas armas enquanto legisladores colocavam máscaras de gás e os manifestantes quebravam janelas. No grande edifício abobadado do Capitólio dos Estados Unidos, inicialmente fora da vista das câmeras, ocorreram cenas que pareciam com um golpe.

Apoiadores de Trump, agitando suas bandeiras azuis e chapéus vermelhos da campanha, invadiram o prédio e avançaram direto para a câmara de debates. Uma foto que viralizou no Twitter mostrava agentes à paisana apontando armas através de uma janela quebrada para evitar que mais pessoas entrassem. "Estamos assumindo o controle da Câmara", disse um manifestante anônimo. "Este é o nosso Congresso".

Os legisladores receberam máscaras para se protegerem do gás lacrimogêneo enquanto fugiam para sua segurança. Para os que fugiam, era uma corrida contra o tempo: os manifestantes entravam tão rapidamente quanto os membros do Congresso saíam.

Alguns deles ocuparam o gabinete da presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, e tiraram fotos ocupando sua mesa. "Não via nada parecido desde que fui enviado ao Iraque", disse Mike Gallagher, um legislador republicano e veterano de guerra, ao canal de notícias CNN.

Trump vinha dizendo que queria impedir o Congresso de certificar oficialmente a vitória do democrata Joe Biden na quarta-feira. O presidente não tinha como fazer isso legalmente. Mas tentou. Ele ameaçou o vice-presidente, Mike Pence, que presidia a cerimônia. Mas Pence disse que não tinha uma maneira constitucional de fazer isso. As regras são claras.

Assim, os apoiadores de Trump agiram e, pelo menos temporariamente, atrapalharam a sessão e literalmente paralisaram a democracia. A multidão cumpriu sua missão após o último discurso de seu líder.

Trump falou por mais de uma hora no National Mall e fez uma série de afirmações falsas além de mencionar teorias segundo as quais ele deveria permanecer presidente apesar de perder as eleições de novembro. Então, os encorajou a marchar para o Congresso.

Em minutos, a multidão estava subindo as escadas do Capitólio. Pequenos grupos violentos entraram em confronto com a polícia e finalmente conseguiram entrar. Imagens de televisão mostraram homens, alguns com roupas militares, quebrando e subindo em uma janela. Outros subiram nos veículos oficiais estacionados em frente ao Congresso e abandonados pelos motoristas. Trump prometeu a seus seguidores que esta quarta-feira seria um dia "selvagem" para a capital dos EUA. E assim foi.

Caos total

Os incidentes no Capitólio, que foi colocado sob isolamento, ocorrem enquanto o Partido Democrata caminha para ganhar dois assentos no Senado após o segundo turno de terça-feira (5) na Geórgia. Se a vitória se concretizar, Biden, que deve assumir a Presidência no dia 20 de janeiro, terá controle total do Congresso.

A imprensa noticiou que uma pessoa foi baleada e ferida no local. A vítima é uma mulher e levou um tiro no ombro, segundo um agente citado pelo Washington Post. Ela foi evacuada em uma maca e, segundo a polícia, teria morrido. A prefeita de Washington ordenou um toque de recolher a partir das 18h locais (20h no horário de Brasília) na capital federal, que vai até as 6h da quinta-feira (7).

Diante da violência desencadeada, Trump, que antes havia instigado o protesto, pediu a seus apoiadores que se "mantivessem pacíficos". Mais de meia hora depois, enquanto os tumultos continuavam, ele insistiu em apaziguar os ânimos. "Peço a todos no Capitólio dos Estados Unidos que se mantenham pacíficos", disse Trump.

Depois, acrescentou em um vídeo de um minuto publicado no Twitter: "Sei que estão sofrendo. Tivemos uma eleição roubada de nós, mas vocês precisam ir para casa agora."

Legisladores democratas denunciaram uma tentativa de golpe de Estado. "Infelizmente, e perigosamente, uma parte do Partido Republicano acredita que sua sobrevivência política depende do apoio a uma tentativa de golpe", afirmou o líder democrata no Senado, Chuck Schumer.

"Um golpe em andamento", tuitou a congressista Val Demings. "Isso é anarquia. É uma tentativa de golpe", apontou seu colega Seth Moulton. "O presidente está incitando terrorismo doméstico", afirmou o parlamentar Mark Pocan. "Não reconheço nosso país hoje e os membros do Congresso que apoiaram essa anarquia não merecem representar seus compatriotas", declarou a legisladora Elaine Luria.

'Espiral mortal'

Não há dúvida de que Biden se tornará presidente, visto que os democratas já controlam a Câmara dos Representantes, porém, mais de 140 representantes e 10 senadores republicanos se uniram a Trump para contestar os resultados, embora nenhuma evidência de fraude tenha sido comprovada nos tribunais.

Antes que o caos levasse à interrupção no Congresso, o líder republicano do Senado, Mitch McConnell, um defensor ferrenho de Trump por quatro anos, advertiu sobre os perigos da recusa a certificar a vitória de Biden, indicando um risco "mortal" para a democracia.

"Se esta eleição fosse anulada com base em simples acusações dos derrotados, nossa democracia entraria em uma espiral mortal", disse McConnell durante uma sessão que começou com as objeções de dois congressistas republicanos aos resultados do estado do Arizona.

Nos últimos dias, milhares de partidários de Trump, convocados por ele, se reuniram em Washington, onde a presença da polícia foi reforçada e muitas lojas e escritórios foram fechados pelo medo de confrontos. "Não posso dizer que respeito nosso processo eleitoral", afirmou Gail Shaw, de 76 anos, que viajou de Nova Jersey para os protestos. "Vamos retomar nossa nação".

Eleição histórica na Geórgia

A sessão conjunta do Congresso começou no dia seguinte ao segundo turno da eleição para o Senado no estado da Geórgia, onde os democratas desbancaram os republicanos no poder, segundo projeções de emissoras de TV.

Assim, o Senado, atualmente controlado pelos republicanos, ficará dividido em 50-50 e a vice-presidente democrata Kamala Harris terá o voto de minerva.

"Após os últimos quatro anos, após as eleições e após os procedimentos de certificação eleitoral de hoje no Capitólio, é hora de virar a página", disse Biden em um comunicado anterior. "Os americanos pedem ação e querem unidade e estou mais otimista do que nunca de que a conseguiremos", declarou.

Na Geórgia, o senador eleito democrata Raphael Warnock, pastor da igreja de Atlanta onde pregava Martin Luther King, derrotou a republicana Kelly Loeffler, uma empresária de 50 anos designada em dezembro de 2019 para preencher uma vaga aberta no Senado. Warnock, de 51 anos, tornou-se o terceiro afro-americano do sul dos EUA eleito ao Senado.

Na outra disputa da Geórgia para a Câmara alta, o democrata Jon Ossoff, um produtor audiovisual de 33 anos, conquistou a vitória nessa quarta-feira sobre o republicano David Perdue. "Geórgia, muito obrigado pela confiança que depositou em mim", agradeceu Ossoff, que será o senador democrata mais jovem desde Joe Biden, eleito em 1973.

Twitter

Ainda na quarta, o Twitter anunciou que estava reduzindo o alcance das mensagens que alimentam a violência contínua no Capitólio dos Estados Unidos, obrigado a interromper a sessão dedicada a certificar os resultados das eleições presidenciais. 

As mensagens detectadas "não poderão ser retuitadas, respondidas ou receber 'likes'", informou a rede social, que já tomou medidas para regulamentar as trocas de mensagens durante a eleição presidencial particularmente tensa de novembro de 2020.

"Dada a situação em Washington, trabalhamos ativamente para proteger a integralidade das conversas públicas na plataforma e tomamos medidas contra todos os conteúdos que transgrediam as regras do Twitter", informou a empresa na conta dedicada à segurança.

As trocas de mensagens se intensificaram nas redes sociais com muitos usuários narrando ao vivo os acontecimentos. Vários observadores acusam as plataformas de terem permitido que Trump e seus apoiadores violentos as utilizassem para organizar seus atos.

"Ei, Mark Zuckerberg, Jack (Dorsey), Susan Wojcicki e Sundar Pichai - Donald Trump provocou um ataque violento contra a democracia americana", tuitou o comediante Sacha Baron Cohen, em alusão, respectivamente, aos diretores do Facebook, Twitter, YouTube e Google.

"Isto não é suficiente para que reajam? É tempo de eliminar de uma vez por todas Donald Trump das suas plataformas", disse o ator, ilustrando sua mensagem com a imagem de um manifestante com uma bandeira confederada, considerado um símbolo racista.


AFP/Dom Total



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