Religião

08/01/2021 | domtotal.com

Francisco, nos salve da barbárie, por favor!

Num mundo que carece de referências, a mensagem humanizadora de Francisco é uma esperança em meio a esse caos que se instaura

Papa Francisco reza diante de muro construído por Israel, na Palestina, em sua visita à Terra Santa, em 2014
Papa Francisco reza diante de muro construído por Israel, na Palestina, em sua visita à Terra Santa, em 2014 (Taufiq Khalil/AFP)

Mirticeli Medeiros*

A presença do papa Francisco é necessária. Digo isso como jornalista, historiadora e alguém que acompanha o papado há uns bons anos. Sem ele – ou sem alguém parecido com ele –, estaríamos na pior.

Quer você goste ou não, o pontífice atual é um líder global. E antes que alguém venha pra cima de mim com o blá-blá-blá do globalismo, querendo associar o pontífice a esse slogan político da extrema-direita, sempre é bom recordar que a Igreja Católica nasceu universal e "universalizante". Não por acaso, Paulo de Tarso é definido como o apóstolo das nações, sendo ele um dos primeiros a compreender que a mensagem cristã não é patrimônio exclusivo de um grupo de iluminados ou de uma etnia sacrossanta.

Embora, até um tempo atrás, a linha de atuação da Igreja não ultrapassasse as fronteiras da Europa e, em termos práticos, se limitasse aos interesses do Estado Pontifício, a mensagem da Igreja sempre assumiu esse caráter. E o papado, com o passar do tempo, incorporou ainda mais a missão de ser um promotor da fraternidade universal.

Quando Inácio de Antioquia cunhou o termo καθολικός – do grego, universal –, para designar a Igreja nascente, nos idos do século 2º, evocava essa unidade do corpo, promovida, em primeira pessoa, pela figura do bispo. Ora, se o bispo de Roma, segundo a crença católica, é o primus inter pares, "globalizar" a mensagem de Cristo faz parte de sua lista de obrigações. E se essa mensagem consegue atingir outras instâncias, melhor ainda. Portanto, ponto para Francisco.

A sensação é de que, em certos momentos, estamos perdidos, como num barco solto em alto mar, sem que ninguém nos guie. Algo fatídico, mas real. E é como se Francisco, consciente da nossa angústia, tentasse, a duras provas, assumir esse leme. Enquanto isso, as ondas contrárias que o atingem vêm dos próprios católicos que se sentem com mais autoridade que ele para assumir essa tarefa.

As cenas de barbárie no Capitólio americano, que rodaram o mundo na última quarta-feira (6), reforçam essa ideia de que ainda bem temos esse pontífice. Sei que este artigo servirá pouco àqueles que aplaudem populistas, transformaram os extremismos em tábuas de salvação e canonizam a imbecilidade dos youtubers palpiteiros. Porém, no futuro, não terei vergonha do posicionamento que assumi em 2021 à revelia dessa rede de alienação sem fim que, também em nome de Deus, caricatura "os bons costumes". Basta que o "homem de bem" seja heterossexual e terrivelmente religioso; o resto, segundo as diretrizes da nova seita político-religiosa, se tornou meio secundário.

A encíclica Fratelli tutti, do papa Francisco, foi feita em tom de profecia. E aqui não falo de uma previsão para o futuro, mas de uma preparação para ele. O santo padre deixou-nos uma bússola que nos indica um "salve-se enquanto ainda é tempo". Ele quer que tiremos as vendas postas por uma espiritualidade meramente ritualística, pela política que não atua em prol do homem, e pela sociedade que prefere "mitar" a humanizar.

Ad multos annos, papa Francisco. Não permita que afundemos, ainda mais, nesse Vale de Flegetonte (o sétimo círculo do inferno de Dante)!

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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