Cultura

11/01/2021 | domtotal.com

A senhora dos cachorros

A matéria dos cães teve maior destaque no jornal do que a da inauguração das obras

Em Minas, mulher troca marido por 69 cachorros
Em Minas, mulher troca marido por 69 cachorros (Unsplash/Caleb Carl)

Afonso Barroso*

É pouco chamar de casamento a cerimônia que uniu aquele casal. À falta de termos mais enfáticos, diria que foi um enlace matrimonial cheio de pompa e circunstância. A cerimônia realizou-se na igreja matriz de Cambuquira, enfeitada de girassóis e à qual compareceram inúmeros amigos e parentes, de lá e de longe. A lua de mel eles passaram ali mesmo no Circuito das Águas. Hospedaram-se num hotel quatro estrelas na belíssima paisagem hidromineral do Sul de Minas. Quer melhor lugar para uma lua de mel?

E viveram felizes, mas não para sempre, porque faltaram os filhos. Aos poucos a mulher sentiu a solidão que vivia ao lado do marido. Era pouco. Ela queria alguém mais, um menino, uma menina, alguém com quem pudesse falar de coisas além da vida monótona do casamento. Como era uma boa alma, cheia de caridade, resolveu adotar um cachorrinho.

Foi um achado. Passou-se algum tempo, ela adotou outro. E tomou-se de amores pelo que considerava o animal mais humano que existia. Daí passou a acolher em casa mais e mais cães que recolhia nas ruas de Cambuquira. Não, eles não podem ficar assim, ao léu, sem um lar, sem um abrigo, sem carinho. Vinde a mim todos.

O jornalista Jadir Barroso conta, no livro Meandros do poder, como o acaso o levou a essa mulher. Ele fora designado pelo Jornal do Brasil para acompanhar o então ministro dos Transportes, Eliseu Resende, na inauguração do chamado Circuito das Águas, conjunto de obras rodoviárias que ligavam as cidades hidrominerais do Sul de Minas. Aspas para ele:

"Após a inauguração, foi servido um almoço aos jornalistas, convidados e autoridades no Hotel Glória, em Caxambu. Estávamos almoçando tranquilamente, eu, o fotógrafo Waldemar Sabino, o Mazico, e outros jornalistas, quando ouvi uma pessoa, sentada a uma mesa próxima, contando uma história que me chamou a atenção. Dizia ele ao seu interlocutor que havia em Cambuquira uma mulher que recolhia cães na rua e os levava para casa. Ela acabou cercada por uma cachorrada invejável. Contou que um dia o marido, que detestava animais, deu-lhe um ultimato: ou ele ou os cachorros. Ela optou pelos cachorros".

Jadir resolveu ir a Cambuquira, junto com o Mazico, à procura da mulher, que foi encontrada com facilidade. Morava em uma casa de terreno amplo nos arredores da cidade. Quando disseram que eram jornalistas, ela ficou entusiasmada: "O Jornal do Brasil na minha casa? Que honra! Em que posso servi-los?"

Na entrevista, enquanto o Mazico fotografava os cães de todos os ângulos, a mulher confirmou que realmente o marido fora embora, porque não gostava nem de cães nem de gatos. "Deixei-o ir, porque não ia abrir mão dos meus cachorros", ela disse.

Jadir voltou para Belo Horizonte, redigiu e enviou, via telex, para o Rio as duas matérias. Uma, a da inauguração das obras caríssimas, que iam beneficiar grandemente a população das estâncias hidrominerais e incentivar o turismo na região. E a matéria da benfeitora de cães. Aspas para o Jadir:

"A minha surpresa ocorreu quando a edição do JB chegou a Belo Horizonte. Enquanto a matéria da inauguração estava encravada em uma coluna, sem fotos, a dos cachorros teve chamada de primeira página, com foto e tudo, e este título: EM MINAS, MULHER TROCA MARIDO POR 69 CACHORROS".

Como era repórter político e não de cinocultura, Jadir não concordou muito com o critério de hierarquização das matérias no JB. Segundo ele, nesse caso nem houve critério. Mas a história da dama e seus cães em Cambuquira foi um sucesso 



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