Mundo

11/01/2021 | domtotal.com

As eleições na Geórgia e o efeito borboleta


A invasão do Capitólio, em Washington, na quarta-feira, obliterou dos noticiários as eleições de terça no estado da Georgia, que terão um efeito muito mais duradouro nos Estados Unidos e, por arrasto, no mundo.

Ex-candidata ao governo Stacey Abrams em comício na Georgia
Ex-candidata ao governo Stacey Abrams em comício na Georgia (AFP/Elijah Nouvelage)

José Couto Nogueira*

Certamente que o motim incentivado pelo presidente Trump tem uma importância extraordinária, a vários níveis. Mostrou que os Estados Unidos, os grandes promotores das "repúblicas das bananas", podem também descer ao nível bananal; expôs indiscutivelmente que Trump é um político inapto e um autocrata sem ética; e terminou de vez com as suas tentativas de tomar o poder ilegalmente, deixando os congressistas seus apaniguados – que não podem alegar a inconsciência dos manifestantes – desarmados e desorientados. Finalmente, as imagens da inacreditável invasão foram um espetáculo de primeira ordem para as televisões, ultrapassando qualquer outra notícia.

No entanto, por mais que os distúrbios tenham consumado uma derrota total para o presidente cessante, não são tão importantes para o futuro do país como os resultados das eleições na Georgia. O que estava em causa era a maioria no Senado, que permitirá ao novo presidente, Biden, avançar com uma agenda que terá repercussões nacionais e, obviamente, mundiais.

Daí que nos lembrássemos do "efeito borboleta", uma teoria criada pelo matemático e metereologista Edward Lorenz (e não por um monge budista há séculos, como muitas vezes se pensa). Basicamente, essa chamada "teoria do caos" diz que um acontecimento mínimo pode desencadear um efeito de grandes proporções. Em política, o efeito pode ser encontrado em centenas de casos como, por exemplo, o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono da Austria-Hungria, pelo patriota sérvio Gravilo Princip, em 1914, que provocou a 1ª Guerra Mundial e a morte de cerca de 22 milhões de pessoas; o vendedor ambulante que se imolou pelo fogo na Tunísia em 2010 e que provocou mudanças de regime em vários países do Norte de África, conhecidos como a Primavera Árabe. Ou, outro exemplo, como a tomada da Bastilha em Paris, em 1789, por um grupo de populares, levou a uma mudança profunda da legitimidade do poder no Ocidente, e depois no mundo – o fim do Ancien Regime e o começo da Idade Moderna.

E agora, a Georgia. É um estado do Sul dos Estados Unidos pouco maior do que Portugal (cerca de 150 mil km2, contra os 89 mil do território luso) e com a mesma população, dez milhões. Foi o quarto estado a entrar para a União em 1788, e o quinto a separar-se, durante a Guerra Civil (1861-65). A sua economia dependia do cultivo de algodão e, portanto, da escravatura. As tropas do Norte arrasaram o estado, destacando-se a destruição total da cidade de Savanah. Mas embora tendo perdido a guerra, a Georgia continuou tão racista como dantes. Antes da Guerra Civil já tinha eliminado ou deportado para Oklahoma todos os índios. Depois de reintegrada na União, foi expulsa no ano seguinte, 1869, por se recusar a aceitar o direito de voto dos negros. Nessa altura, metade da população era negra.

Para encurtar uma longa e horrível história, a Georgia sempre foi um bastião do racismo, com grande implantação do Ku-Klux-Klan e frequentes linchamentos de negros. Apesar da integração racial ter sido decretada pelo Supremo Tribunal Federal em 1954, só em 1961 o estado começou a integrar as escolas, e em 1965 apenas 20% dos estabelecimentos tinham alunos negros.

A partir da década de 1970 muitos brancos vieram de outros estados, acompanhando a industrialização, instalando-se nas áreas urbanas. Contudo, os sucessivos governos do estado, republicanos, sempre criaram condições impeditivas ao voto dos negros. O processo mais corrente é o chamado gerrymandering que consiste em dividir os círculos eleitorais de maneira a que as zonas negras não tenham peso. O outro é o disenfrangising, a criação de uma série de requisitos que excluem os não brancos – negros, latinos e orientais.

Até quarta-feira, os dois senadores federais a que a Georgia tem direito sempre foram brancos e republicanos. Como tem sido comentado nos últimos tempos até à exaustão, o Senado federal tem cem membros e, em caso de empate numa votação, é o vice-presidente que desempata. Ora o Senado tinha uma maioria republicana: 52 senadores, contra 48 democratas. As eleições para o Senado não são todas ao mesmo tempo em todos os estados, o que pode fazer com que a maioria mude durante um mandato presidencial. Foi o que aconteceu em 2017, quando Obama perdeu 20 senadores e ficou em minoria. Com o Senado controlado pelo terrível Mitch McDonnel, um político tão eficiente como faccioso, Obama não conseguiu fazer praticamente mais nada.

Quis o destino que agora houvesse eleições senatoriais na Georgia, exatamente no período em que o Executivo foi ganho por Joe Biden e Kamala Harris. Um estado considerado ferozmente vermelho, embora as mudanças étnico-sociais de que falamos tenham feito com que Biden ganhasse as presidenciais por um cabelo, 11.777 votos – que, evidentemente, foram recontados três vezes, por exigência dos republicanos. Ainda na semana passada Trump telefonou ao responsável pelas eleições no estado, Brad Raffensperger, exigindo que arranjasse 11.778 a seu favor... Raffensperger, um republicano clássico, defensor dos valores democráticos, recusou polidamente, mas a gravação chegou à comunicação social.

Os senadores titulares era David Perdue e Kelly Loeffler, ambos ricos e ambos metidos em escândalos de insider trading, abuso no mercado de capitais, ainda não totalmente investigados – quando souberam no Senado da ameaça do Covid-19, venderam ações de empresas que perderiam com a crise e compraram ativos que certamente ganhariam. Brancos e trumpistas, especialmente Loeffler, que já tinha dito que se fosse reeleita contestaria o resultado das presidenciais no Senado (depois da invasão do Capitólio, na quarta-feira, mudou de opinião.

Os candidatos democratas eram Raphael Warnock, negro, pastor protestante, e Jon Ossof, branco, de 34 anos – seria o Senador mais jovem de sempre.

A mobilização das minorias, sobretudo dos negros, tinha sido extraordinária nas presidenciais, dando a vitória a um presidente democrata pela primeira vez desde 1992. Contudo, temia-se que nas senatoriais, muito mais acompanhadas pelos eleitores, a pequena margem de Biden se perdesse.

Quarta-feira saíram os resultados: Warnock e Ossof ganharam. Por uma unha negra, mas ganharam. Warnock é o primeiro senador preto de um estado do Sul, o que mostra a mudança demográfica-social, sobretudo nas cidades, e a celebra a eficiência com que os negros conseguiram ultrapassar os obstáculos legais para votar. E Ossof é o primeiro senador judeu. Outro fator que decerto terá contribuído para esta vitória foi o fato de Trump ter dito que as eleições iam ser fraudulentas, o que terá levado muitos dos seus adeptos a não se incomodar de votar – fora o tal telefonema.

A partir do próximo dia 20 de Janeiro o Senado terá 50 membros democratas e 40 republicanos. Como o desempate será feito pela vice-presidente Kamala Harris, Biden terá assim a possibilidade real de fazer andar a sua agenda, que é radicalmente diferente da de Trump, mas não só. É um programa com uma forte componente ecológica e social, que nunca passaria num Senado republicano.

Os Estados Unidos vão, portanto, fazer uma volta de 180 graus. Aderir de novo ao Acordo de Paris. Aproximar-se da Europa, como têm feito desde 1945 até à eleição de Trump. Abordar a guerra comercial com a China de maneira diferente. Deixar de tolerar Vladir Putin, Racip Erdogan, Kim Jong-um e, provavelmente, reaproximar-se de Cuba.

Também haverá mudanças internas, como a possível criação dum sistema nacional de saúde – os Estados Unidos são o único país civilizado que não tem segurança social nacional. Voltarão a integrar a Organização Mundial de Saúde e a promover programas sociais no terceiro mundo. O programa de Biden é ligeiramente mais "à esquerda" do que Obama pretendia e não conseguiu por causa da minoria no Congresso (Senado e Câmara dos Representantes).

É assim o Efeito Borboleta; uma eleição marginal numa sociedade com dez milhões de habitantes, ganha com escassos milhares de votos, vai alterar a vida de milhões de pessoas no mundo inteiro.

Foi a 6 de Janeiro de 2021, uma boa perspectiva para o Ano Novo.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal



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