Economia

12/01/2021 | domtotal.com

Milhares de trabalhadores da Ford protestam contra fechamento no Brasil

O mercado brasileiro passará a ser abastecido com produções da Argentina, Uruguai e outras origens

Trabalhadores da Ford em protesto em frente à fábrica da Ford em Camacari, Bahia
Trabalhadores da Ford em protesto em frente à fábrica da Ford em Camacari, Bahia (Rafael Martins/AFP)

Milhares de trabalhadores da Ford protestaram nesta terça-feira (12) contra o fechamento de todas as suas fábricas de automóveis no Brasil, anunciado ontem de maneira inesperada pela companhia americana.

Desde o início da manhã, cerca de 3 mil trabalhadores, com máscara de proteção contra o coronavírus, se reuniram em frente à fábrica de Camaçari, no estado da Bahia (nordeste), e cerca de 500 em frente a de Taubaté (interior de São Paulo) - as duas que fecharão imediatamente, constataram fotógrafos da AFP. Uma terceira fábrica no Ceará (nordeste) continuará funcionando até o último trimestre do ano.

A Ford, instalada há um século no Brasil, manterá apenas um centro de testes em Tatuí (interior de São Paulo), assim como sua sede regional na capital econômica da América Latina.

O mercado brasileiro passará a ser abastecido com produções da Argentina, Uruguai e outras origens.

O anúncio, no marco de uma reestruturação do grupo de Detroit (Estados Unidos) na América do Sul, pegou os trabalhadores de surpresa e caiu como uma bomba no país, que tem níveis recorde de desemprego, ao qual se somarão agora quase 5 mil trabalhadores dessas fábricas.

"Foi uma notícia chocante, a pior possível", explicou Felipe Monteiro, técnico eletrônico de 34 anos que trabalha há 16 na fábrica de Taubaté entre 850 funcionários, após uma assembleia do Sindicato de Metalúrgicos realizada em um ambiente entristecido.

"Há anos, nós vínhamos abrindo mão de vários direitos e esperávamos um posicionamento diferente da empresa em relação ao investimento necessário", acrescentou Monteiro, casado, com dois filhos e "sem nenhuma perspectiva" após a decisão da Ford.

Mercado em queda

A Ford registra déficits na região há vários anos, agravados pelo colapso do setor no Brasil em 2020 devido à pandemia de coronavírus, que já deixa mais de 203 mil mortos no país.

A venda de veículos novos no Brasil caiu 26,16% em 2020 sob o impacto da pandemia. No ano passado, 2,05 milhões de automóveis foram patenteados, contra 2,787 milhões em 2019.

Quem acompanha mais de perto esse mercado, não se surpreendeu tanto assim. Os analistas dizem que a indústria automobilística vem tentando se reinventar no mundo todo, e uma das alternativas é focar nos veículos elétricos e híbridos. A corrida para chegar a produtos viáveis nos mercados globais está deixando para trás empresas e países que entraram tarde, ou ainda nem participam dessa disputa avalia Cássio Pagliarini, da Bright Consulting.

Esse processo exige elevados investimentos e, no caso da Ford, tudo indica que a matriz não quis ter esse gasto no Brasil. O movimento anunciado ontem é algo similar ao que ocorreu recentemente com a Mercedes-Benz, que em dezembro fechou sua fábrica de automóveis em Iracemápolis (SP).

Para Marcus Ayres, sócio-diretor da consultoria Roland Berger, duas razões teriam, na sua opinião, favorecido o país vizinho. Uma delas é que a Argentina produz a Ford Ranger, um dos carros-chefe da companhia. Além disso, a economia argentina é altamente dolarizada, o que facilitaria o repasse de aumento de custos. Hoje, 70% da produção Argentina é exportada.

No Brasil, a situação do setor automotivo já vem em ritmo lento desde a crise de 2014, e foi intensificada pela queda drástica no mercado provocada pela pandemia da Covid-19. Não bastasse a situação global, o governo brasileiro não tem demonstrado interesse em definir uma política industrial que indique se o caminho aqui será o de carros elétricos, híbridos ou híbridos a etanol.

"Está faltando uma orquestração política no setor", diz Pagliarini, que foi funcionário da Ford por 25 anos. Em sua opinião, "há um perigo muito grande" de outras montadoras seguirem a decisão da Ford. "Temos muita capacidade instalada e não cabem tantas fábricas, aqui e no mundo", afirma.

Velocidade


"O Brasil é um país de infinitas possibilidades, mas no setor automotivo há algumas coisas que precisam se mover um pouco mais rápido para se adequar à nova realidade", diz Ayres. Ele destaca que os três pilares da indústria automobilística são: posicionamento dos produtos, performance e progresso. "Quanto mais rápido a indústria se mover na ideia desses três pilares para se adequar à nova realidade, mais robusta ela ficará. Se ela ficar parada nessas três dimensões, daí eu não tenho dúvida alguma de que o movimento que vimos com a Ford poderemos esperar para outras montadoras."

Para Ayres, a decisão da Ford de sair do País não foi uma novidade. Esse movimento já vinha sendo sinalizado desde 2019, com a venda da fábrica de caminhões de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. A estratégia da companhia, que culminou com a decisão de encerrar as operações no País, ocorreu porque uma série de veículos produzidos no Brasil não estavam alinhados com os objetivos globais da empresa, diz. "A Ford está se movendo para ser uma montadora de SUVs (utilitários esportivos), o segmento mais lucrativo, e de veículos elétricos."

Já Ricardo Bacellar, sócio-líder de Industrial Markets e Automotivo da KPMG no Brasil, aponta que a decisão da Ford decorre de uma série de fatores, começando pelo aumento da concorrência, que comprometeu as suas margens de rentabilidade - uma situação que a pandemia ajudou a deteriorar. A necessidade de quarentena, que no período mais rígido fechou concessionárias obrigou as montadoras a correrem para acelerar os investimentos em digitalização, algo que não foi acompanhado pela Ford.

"Ela acabou afastando os clientes. Várias montadoras optaram pelos lançamentos rápidos em seus canais digitais. Houve uma necessidade de investir muito", diz.

Atraídas por incentivos fiscais, inúmeras montadoras se instalaram no país de olho em um mercado de pelo menos 3 milhões de veículos por ano. Hoje, as fábricas locais têm capacidade para produzir 5 milhões de veículos por ano. Em 2020, no entanto foram fabricados 2 milhões e deve levar, segundo projeções, cerca de mais cinco anos para o setor voltar a patamares da pré-pandemia, de cerca de 3 milhões de unidades. Mas, segundo Cássio Pagliarini, "a Ford decidiu não esperar".

A decisão da empresa multiplicou as críticas contra o governo de Jair Bolsonaro por suas dificuldades para criar um ambiente de negócios favorável. O presidente afirmou nesta terça-feira que a Ford decidiu fechar todas as suas fábricas porque "quer subsídios".

"Mas o que a Ford quer? Faltou a Ford dizer a verdade, né? Querem subsídios. Querem que a gente continue dando R$ 20 bilhões para eles como fizeram nos últimos anos? Não", declarou Bolsonaro a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília.

A Ford "perdeu a concorrência, lamento", acrescentou Bolsonaro, sem fornecer maiores explicações sobre os valores mencionados.


AFP



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