Cultura

12/01/2021 | domtotal.com

Os muitos problemas de Bridgerton

Tudo que parece interessante no trailer vai ruindo à medida em que vamos nos embrenhando pelos episódios

Tudo que parece interessante no trailer vai ruindo à medida em que vamos nos embrenhando pelos episódios
Tudo que parece interessante no trailer vai ruindo à medida em que vamos nos embrenhando pelos episódios (Divulgação)

Alexis Parrot*

O sucesso instantâneo de Bridgerton, primeira colaboração entre a Netflix e Shonda Rymes (responsável por blockbusters da monta de Grey's anatomy e Scandal), não é o suficiente para mascarar as inúmeras deficiências da série - quer seja na realização, conceito ou estética.

Tudo que parece interessante no trailer vai ruindo à medida em que vamos nos embrenhando pelos episódios. Para entender o que, à primeira vista já havia incomodado tanto, fui rever outras séries ambientadas no mesmo período e comecei a encontrar algumas pistas.

Ambas situadas na Londres dessa época, Belgravia e Vanity fair, já de cara se destacam pela trama. A primeira é o novo trabalho de Julian Felowes, a mente por trás de Downton Abbey e a segunda, baseada no romance de Thackeray. Vistas em paralelo, o enredo de Bridgerton parece daqueles livrinhos de fantasias adolescentes que atulhavam nossas bancas, folhetins impressos em papel jornal que se pediam pelo nome ao jornaleiro: Julia, Sabrina e Bianca.

Depois, impressiona o vazio de aspiração cinematográfica; uma filmagem sem muito apuro e baseada meramente em planos gerais (coisa de quem precisa cumprir muitas cenas em rapidez industrial, quase teatro filmado) e uma fotografia que apenas clareia e não ousa iluminar. Ainda que ancorada no formato de temporada, esteticamente é muito mais novela do que série.

A descoberta de atrizes e atores negros em papéis chave causa um delicioso estranhamento. É uma bem-vinda quebra de protocolo e indica um posicionamento antirracista, atitude cada vez mais importante a se tomar frente aos descaminhos que o mundo vem teimando em seguir com maior virulência nos últimos tempos.  

É cada vez mais frequente o artifício de inserir atores de diversidade étnica além daquela cristalizada como a usual em produções de época. De maneira pioneira, Kenneth Branagh escolheu Denzel Washington para viver o príncipe de Aragão no shakespereano Muito barulho por nada; certamente uma decisão ousada para aqueles idos de 1993.     

Mais recentemente, uma das mais bem-sucedidas experiências do gênero foi a versão para o clássico David Copperfield, capitaneada pelo sempre surpreendente Armando Ianucci (de Veep e A morte de Lenin).

Um elenco central integrado também por artistas negros e asiáticos passeia tranquila e anacronicamente em meio à Inglaterra de meados do século 19. No papel título, Dev Patel, o britânico de ascendência indiana revelado para o mundo em Quem quer ser um milionário. Se no filme de Ianucci o time miscigenado funciona como elegia à universalidade da obra de Dickens, em Bridgerton a fórmula soa apenas gratuita: o que se propõe como ativismo acaba soando como escapismo.

Existem indícios de que a rainha Charlotte era mesmo descendente de uma amante africana do rei de Portugal, porém, com quinze gerações de distância. Baseada nisso, uma corrente de historiadores defende a possibilidade dela ter sido a primeira rainha negra da Inglaterra. A partir daí, defini-la como negra na série pode ser visto tanto como escolha plausível ou liberdade poética, mas não é esta a questão.

Por ser uma obra de ficção, faz parte do jogo este tipo de interpretação (artística ou ideológica) da realidade. Mas ao formatar uma Inglaterra de duzentos anos atrás racialmente miscigenada, Bridgerton ignora de forma perigosa o racismo.

Ao mesmo tempo em que se posiciona contra um embranquecimento da história, recuperando as origens negras da rainha Charlotte, a série contradiz a si mesma ao desconstruir historicamente o preconceito, talvez ao ponto de negá-lo.    

No afã do ativismo, esta é a armadilha em que Bridgerton acaba sendo capturada. Trocando assim os pés pelas mãos, não satisfeita em ser novela, pode acabar virando novela do SBT.  

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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