Meio Ambiente

13/01/2021 | domtotal.com

Governo rebate declarações de Macron sobre desmatamento causado pela soja

Desmatamento da soja se torna novo motivo de atrito entre Brasil e França

Pivôs de irrigação retiram água do subsolo para manter plantações de soja no Matopiba, na Bahia
Pivôs de irrigação retiram água do subsolo para manter plantações de soja no Matopiba, na Bahia (Marizilda Cruppe/Greenpeace)

Atualizada às 18h30

Depois da troca de farpas entre o presidente Jair Bolsonaro e o colega francês Emmanuel Macron por causa das queimadas na Amazônia em 2019, agora, a produção de soja no Brasil pode ser alvo de nova controvérsia diplomática. Na terça-feira, Macron declarou em suas redes que continuar dependendo da soja brasileira é apoiar o desmatamento da Amazônia. Em reação a declarações do presidente francês, o vice-presidente Hamilton Mourão disse nesta quarta-feira (13) que Macron desconhece a produção de soja no Brasil.

Em sua fala, Macron convoca a Europa a agir com responsabilidade e diz que o continente precisa começar a produzir sua própria soja, para que sejam consistentes com suas ambições ecológicas. "Quando importamos a soja produzida a um ritmo rápido a partir da floresta destruída no Brasil, nós não somos coerentes", afirmou Macron. "Nós precisamos da soja brasileira para viver? Então nós vamos produzir soja europeia ou equivalente", completou. Mourão destacou que a produção agrícola da região amazônica é "ínfima" e que Macron apenas "externou interesses protecionistas dos agricultores franceses".

Nesta terça-feira, em suas redes oficiais, o presidente francês afirmou que "continuar a depender da soja brasileira seria ser conveniente com o desmatamento da Amazônia". No vídeo publicado em sua conta oficial do Twitter, Macron fala em "não depender mais" da soja brasileira e produzir o grão na Europa. "Nós somos coerentes com nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa", afirmou.

Continuer à dépendre du soja brésilien, ce serait cautionner la déforestation de l'Amazonie.
Nous sommes cohérents avec nos ambitions écologiques, nous nous battons pour produire du soja en Europe ! pic.twitter.com/CORHnlIp8E

Questionado sobre as declarações, Mourão afirmou, em francês, que Macron não estava bem. "Monsieur Macron? Monsieur Macron ne pas bien. Monsieur Macron desconhece a produção de soja no Brasil. Nossa produção de soja é feita no cerrado ou no sul do País. A produção agrícola na Amazônia é ínfima", declarou Mourão para jornalistas na chegada à vice-presidência.

O vice-presidente destacou que o Brasil tem menos de 8% da sua área dedicada à agricultura, enquanto a França tem mais de 60%. Apesar disso, ele avaliou que o país europeu não tem condições de competir com o Brasil na produção de soja. "Nesse aspecto, na questão da produção agrícola damos de 10 a 0 neles, franceses", disse. "Nada mais, nada menos Macron externou interesses protecionistas dos agricultores franceses, faz parte do jogo político", opinou. Em dezembro, o governo francês já havia lançado um plano para subsidiar a expansão do cultivo de soja no país e diminuir a dependência externa.

Reações no Brasil

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento também se pronunciou em comunicado, afirmando que a soja brasileira "não exporta desmatamento" e acusou o presidente francês. "A declaração do presidente francês, Emmanuel Macron, sobre a soja brasileira mostra completo desconhecimento sobre o processo de cultivo do produto importado pelos franceses e leva desinformação a seus compatriotas", destacou a pasta.

O ministério ressaltou que a legislação ambiental brasileira é uma das mais "rigorosas" do mundo. O uso de "tecnologias reconhecidas que ampliaram a sustentabilidade de sua produção agropecuária" também foi destacado. "Toda a produção nacional tem controle de origem. A soja brasileira, portanto, não exporta desmatamento", afirmou a pasta.

De acordo com o ministério, o Brasil "detém domínio tecnológico para dobrar a atual produção com sustentabilidade, seja em áreas já utilizadas, seja recuperando pastagens degradadas, não necessitando de novas áreas".

Outra reação veio da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). "Não aceitaremos acusações desse tipo", disse, em nota, o líder da bancada ruralista, deputado Alceu Moreira (MDB-SP). "Alertamos que a política interna da França não pode colocar em xeque outra nação e a legalidade de nossas políticas públicas para a agricultura como um todo."

Moreira rebateu as declarações de Macron. "Atualmente, apenas 10% da soja brasileira é produzida no bioma Amazônico, sem contar que toda a produção está dissociada de qualquer processo de desmatamento desde 2008", disse o deputado, desconsiderando dados mais recentes que apontam para o desmatamento no Cerrado causado pela expansão da produção.

Na avaliação de Mourão, a fala do presidente francês não deverá influenciar outros líderes mundiais. "Acho que foi discurso interno." No entanto, com a mudança de governo nos Estados Unidos, a questão ambiental deverá ter outro enfoque e poderá provocar impacto global. O futuro presidente Joe Biden já manifestou inúmeras vezes sua preocupação com as mudanças climáticas e com a preservação da Amazônia, além de indicar que poderá impor sanções econômicas ao país se não forem tomadas ações efetivas para conter o desmatamento.

Desmatamento na Amazônia e no Cerrado

O desmatamento na Amazônia, que não para de bater recordes desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, há dois anos, é um dos principais obstáculos à ratificação pelos países europeus do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, negociado há mais de duas décadas.

Apesar da defesa de Mourão, a produção de soja no Brasil é, sim, responsável por grande parte do desmatamento na Amazônia, mas principalmente no Cerrado. Entre 2012 e 2017, por volta de 27% de todo o desmatamento em Mato Grosso, por exemplo, ocorreu dentro de fazendas de soja – e 95% dessas ações foram ilegais, de acordo com relatório divulgado no ano passado pela base de dados Trase.

O bioma do Cerrado tem sofrido impacto da expansão do agronegócio desde o início da década de 2010, apensar de muitos produtores estarem se adaptando às exigências ambientais, sobretudo por causa da pressão internacional. Em 2019, o Greenpeace Brasil publicou um relatório sobre o avanço da cultura de soja no Cerrado, apontando os prejuízos ambientais e sociais dessa produção. Outro relatório do site Uneathed, publicado em novembro de 2020, mostra como a soja brasileira, produzida por grandes multinacionais e responsável pelo desmatamento do Cerrado, chega ao prato dos britânicos.

A produção no Brasil

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia, quase 20% das exportações para a União Europeia, bloco do qual os franceses fazem parte, são de soja e farelo da oleaginosa produzidos pelo Brasil.

No ano passado, o Brasil exportou US$ 27,1 milhões do grão para a França, além de US$ 544 milhões de farelo de soja, de um total de US$ 1,983 bilhão em embarques para o país europeu. A quantidade recebida pela França pode ser ainda maior considerando dados agregados da produção recebida por portos da Espanha e Países Baixos e depois escoada para demais países europeus.

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Dom Total/Agência Estado/Salada Verde



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