Cultura

14/01/2021 | domtotal.com

Ressurreição e morte de um jornal

Costumava-se pedir o DT nas bancas com a expressão 'me dá aí cinquenta centavos de mentira'

O Diário da Tarde era considerado uma espécie de filho bastardo, para o qual não se dava a menor atenção
O Diário da Tarde era considerado uma espécie de filho bastardo, para o qual não se dava a menor atenção (Unsplash/Tim Mossholder)

Afonso Barroso*

Credibilidade  é coisa fácil de perder e difícil de conquistar. Mais ainda, de recuperar. Digo isso não apenas por ser uma verdade axiomática, mas também porque participei de um processo lento e gradual de recuperação da credibilidade de um jornal. Falo do Diário da Tarde (DT), antigo vespertino dos Diários Associados em Belo Horizonte.

Quando comecei a trabalhar lá, no final da década de 1960, costumava-se pedir o DT nas bancas com a expressão "me dá aí cinquenta centavos de mentira". Era essa a medida da pouca confiança que as pessoas tinham naquele jornal encarado como supérfluo na mídia mineira.

A culpa desse estado de coisas não era da equipe de jornalistas do DT, mas da direção dos Diários Associados. O Estado de Minas, que tinha como slogan "o grande jornal dos mineiros", era a galinha dos ovos de ouro dos Associados não só em Minas, mas no Brasil. Integrantes do condomínio e diretores ganhavam rios de dinheiro. Anúncios ali subiam escadas, como se costumava dizer. A força do jornal era tanta que as pessoas só acreditavam numa notícia após perguntar: Deu no Estado de Minas?

Daí que o Diário da Tarde era considerado uma espécie de filho bastardo, para o qual não se dava a menor atenção. Ao contrário, era olhado com desprezo pela direção associada e parecia ser mantido apenas como meio de ocupação de um espaço no mercado da informação.

Quando me tornei editor de esportes, nomeado pelo grande Fábio Doyle, o que encontrei na seção era algo lastimável. Tínhamos uma boa equipe, mas sem a mínima condição de trabalho. O DT não dispunha de fotógrafo exclusivo, tinha de contar com a boa vontade dos fotógrafos do EM. Também não tinha veículo próprio, era preciso pegar carona com os repórteres do EM para uma cobertura qualquer.

Com apoio do Fábio, que foi o grande artífice da recuperação do jornal, consegui que a direção destinasse um carro para a equipe de esportes. Até então, acredite se quiser, nossos repórteres colhiam as notícias ouvindo a Rádio Itatiaia. Era preciso mudar aquilo. Notícia de rádio é falada, a de jornal é escrita. Não pode ser a mesma coisa, eu pensava.

Escolhi, então, três repórteres para a cobertura dos três clubes da Capital. Destinei um para o Atlético, outro para o Cruzeiro, outro para o América. Escalei outro para cobrir os esportes especializados e outro para o futebol amador. Exigi ao menos uma notícia ou entrevista exclusiva a cada dia, de cada um dos clubes. Após o natural Deusnosacuda do início, começamos aos poucos a virar o jogo. Chegamos a pautar as emissoras de rádio, incluindo a Itatiaia, ao invés de colher delas as notícias diárias.

Também nas outras editorias do jornal houve mudanças que começaram a tirar o DT da incômoda posição de 50 centavos de mentira. E o resumo da história é que o jornal recuperou inteiramente a credibilidade. Chegou ao ponto de não haver em Belo Horizonte um táxi sequer sem um exemplar do DT entre o motorista e o passageiro.

Mas aí sobreveio o ciúme inevitável. O DT, com um estilo moderno na titulação, na edição e na diagramação, conquistava cada vez mais espaço. E no momento em que já superava o irmão mais rico e prepotente nas vendas de banca, aí a coisa ficou preta. Iniciou-se, então, um processo de aniquilação do bastardo, que acabou na extinção pura e simples. Nem mesmo o nome Diário da Tarde, uma marca de valor inestimável, foi preservado.

Foi esse o fim do jornal que se transformara no mais querido da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Não sei se os responsáveis por esse assassinato editorial serão punidos com a pena que merecem, nesta ou em outra vida. Espero que sim.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!