Religião

15/01/2021 | domtotal.com

Igreja batismal é Igreja ministerial

Apesar da prática, mulheres ainda não tinham sido admitidas oficialmente aos ministérios instituídos

Celebração eucarística no Rio de Janeiro, em que diversas mulheres receberam a autorização para serem ministras extraordinárias da Sagrada Comunhão
Celebração eucarística no Rio de Janeiro, em que diversas mulheres receberam a autorização para serem ministras extraordinárias da Sagrada Comunhão (ArqRio)

Lorena Alves Silveira*

"Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, em vista do bem de todos. [...] Todas essas coisas é o único Espírito que realiza, distribuindo-as a cada um conforme quer"
(1Cor 12, 4-7.11)

Ao longo do Novo Testamento nos deparamos inúmeras vezes com as palavras "ministério" e "ministro". Sendo provenientes do grego "leitourgia", "diakonia", "huperetes", elas sempre carregam o mesmo sentido: serviço, servir. Esta é, basicamente, a missão do Cristo, explicitada ao longo de toda a sua vida pública e cuidadosamente ensinada aos seus discípulos e discípulas ao longo do seguimento.

Se na Igreja primitiva é comum a presença de ministros e ministras, que participam da missão de Jesus servindo aos irmãos e irmãs com seus dons, nas comunidades cristãs da atualidade, em suas diferentes tradições, ministérios e ministros se multiplicam. Na Tradição católica, os ministérios litúrgicos ocupam um lugar de destaque.

Fiel ao Evangelho, a Igreja que emerge do Concílio Vaticano II é "toda ministerial". Ou seja, comprometida com Jesus, a comunidade dos seus seguidores assume a missão do Servo, em sua grande diversidade de dons e animada pelo Espírito, como nos recorda Paulo em sua primeira carta aos Coríntios. A constituição dogmática Lumen gentium, fruto do Concílio, nos apresenta ricamente a imagem da Igreja "Povo de Deus", que pelo Batismo, participa do sacerdócio único de Cristo (cf. Hb 5,1-10).

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Antes da Lumen gentium, porém, o concílio nos presenteou com a constituição Sacrosanctum concilium (SC). Por acreditar que a transformação de toda a Igreja começa pela Liturgia, a SC compreende-a como "o exercício do sacerdócio de Cristo, no qual se manifesta por sinais e se realiza a seu modo a santificação dos seres humanos, ao mesmo tempo que é exercido o culto público integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros" (SC 7). Entretanto, nem sempre esta visão foi (e tem sido) compreendida na prática.

Talvez por causa da expressão "exercício do sacerdócio de Cristo", durante muito tempo (e ainda hoje), se compreendeu que quem celebra é o padre, enquanto leigos e leigas assistem ao que ele pode fazer por ser "sacerdote". O Concílio Vaticano II, sucedido pela Reforma Litúrgica, nos ajudou a adequar essa visão, compreendendo que a Liturgia é celebrada pela Igreja inteira, por todo o povo sacerdotal do Senhor - "As ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, sacramento da unidade, povo santo reunido ordenadamente em torno do bispo. São pois ações de todo o corpo da Igreja, que lhe dizem respeito e o manifestam, interessando a cada um dos membros de maneira diversa, segundo a variedade das ordens, das funções e da participação efetiva" (SC 27).

Os leigos e leigas aos poucos foram retornando ao lugar que lhes foi confiado pelo Senhor, ao tomar parte, pelo batismo, do seu sacerdócio. "Os acólitos, leitores, comentadores e cantores exercem um verdadeiro ministério litúrgico" (SC 29). Vimos multiplicar em nossas comunidades muitos serviços nas celebrações: leitores, salmistas, animadores, presidentes da Celebração da Palavra, ministros extraordinários da comunhão eucarística...

Os ministérios litúrgicos podem ser assim classificados: 1) ministérios ordenados – reconhecidos e conferidos pelo sacramento da Ordem: bispos, presbíteros e diáconos; 2) ministérios instituídos – quando a função é conferida pela Igreja através de um rito litúrgico chamado "instituição": leitorado e acolitado; 3) ministérios reconhecidos – não instituídos oficialmente, mas reconhecidos como serviço significativo para a comunidade, podendo não existir, quando variarem as circunstâncias: músicos, animadores, sacristãos(ãs), ministros extraordinários da comunhão eucarística, etc.

Os ministérios instituídos, até então, poderiam ser exercidos somente por homens, isso porque Paulo VI os considerava preparatórios para o eventual acesso ao sacramento da Ordem. A partir dos discernimentos que surgiram em várias assembleias sinodais, o papa Francisco publicou no último dia 12 de janeiro o motu proprio Spiritus Domini, que modifica o primeiro parágrafo do cânon 230 do Código de Direito Canônico, possibilitando às mulheres o acesso oficial aos ministérios instituídos. O papa afirmou que "nos últimos anos foi alcançado um desenvolvimento doutrinário que destacou que certos ministérios instituídos pela Igreja têm como fundamento a condição comum de batizados e o sacerdócio real recebido no sacramento do batismo", nos convidando a reconhecer que estes são ministérios leigos, "essencialmente distintos do ministério ordenado que é recebido com o sacramento da Ordem".

Assim, compreendemos que o acesso ao serviço da Palavra e do altar nas celebrações não faz referência somente ao sacerdócio ordenado, mas também, e sobretudo, ao sacerdócio batismal. Junto ao moto próprio, o papa dirigiu uma carta ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Luis Ladaria, explicando as razões teológicas de sua escolha: "no horizonte de renovação traçado pelo Concílio Vaticano II, há hoje uma urgência cada vez maior em redescobrir a corresponsabilidade de todos os batizados na Igreja, e em particular a missão dos leigos [...] para toda a Igreja, na variedade de situações, é urgente que os ministérios sejam promovidos e conferidos a homens e mulheres.... É a Igreja dos batizados que devemos consolidar, promovendo a ministerialidade e, sobretudo, a consciência da dignidade batismal".

Mas o que muda, se, na prática, as mulheres já exerciam estes ministérios? Vivemos numa sociedade na qual a legitimação é fundamental para o reconhecimento de si mesmo e a assimilação da sua "missão" no mundo, sua vocação. Quando uma criança nasce, por exemplo, e alguém a coloca num papel social de filha, legitimando-a, ela acaba por assumir esse papel no grupo familiar, aprendendo a tomar parte naquele núcleo. Francisco parece não ignorar isso. Desde o início do seu pontificado, ele insiste em ampliar os espaços para a presença feminina na Igreja, e presença incisiva. Já em 2013, o papa incluía mulheres no rito do lava-pés, no qual oficialmente não poderiam participar; em 2016, a mudança no Missal Romano acerca deste rito foi concretizada, sendo legitimado pela Igreja o que o senso comum dos fiéis já reconhecia. Agora, ele surpreende com mais uma decisão histórica, já que, apesar da prática, as mulheres nunca foram admitidas oficialmente a estes ministérios.

Coincidindo com a Festa do Batismo do Senhor, no qual é inaugurada a missão pública de Jesus, o Papa reconhece publicamente e legitima o serviço de tantas mulheres que, há muito tempo, se dedicam às assembleias litúrgicas, ao serviço Povo de Deus, "o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que Ele adquiriu" (1Pd 2,9). Como Jesus, Francisco primeiro inclui as mulheres ao servi-las (no Rito do lava-pés), e depois as legitima no serviço das comunidades cristãs (por meio da sua inclusão nos ministérios litúrgicos instituídos). Talvez estes passos dados pelo Francisco latino-americano nos remetam ao chamado feito ao outro Francisco, o de Assis. Oxalá estas mudanças na Liturgia oficial sejam motivação para a reconstrução de toda a Igreja!

*Lorena Alves Silveira é membro do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia de Belo Horizonte



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