Religião

15/01/2021 | domtotal.com

Ouvir o que o Espírito diz à Igreja

Mulheres têm desempenham funções e ofícios essenciais na celebração e proclamação da fé, na Igreja e no mundo, mesmo sem reconhecimento oficial

Arcebispo do Rio de Janeiro concede provisão de ministro extraordinário da Comunhão para mulheres e homens
Arcebispo do Rio de Janeiro concede provisão de ministro extraordinário da Comunhão para mulheres e homens (ArqRio)

Tânia da Silva Mayer*

O Concílio Vaticano II chancelou a compreensão de que o próprio Cristo fala ao povo quando alguém lê na Igreja as Sagradas Escrituras (Sacrossanto Concílio, n. 7). Isso acontece porque toda a ação litúrgica da Igreja é realizada em nome de Cristo: por ele, com ele e nele. Nessa esteira, os cristãos sempre foram convidados a ouvir e a se deixar interpelar por essa Palavra que, saindo da boca de Deus, jamais retorna para ele vazia, sem ter realizado suas obras e maravilhas entre os homens, nos corações (cf. Is 55,11).

A liturgia é o lugar por excelência de leitura das escrituras sagradas. E isso não se dá apenas, o que já é fundamentalmente importante, porque no mesmo culto dominical, por exemplo, são proclamadas, ao menos, quatro leituras bíblicas, duas passagens do Antigo e duas do Novo Testamento. A Sagrada Escritura está presente nos ritos, símbolos, cantos e orações de uma assembleia, ainda que a essa falte instrumentos para identificá-la ou ainda que ela seja subtraída de algum desses outros elementos, como ocorre frequentemente com o canto.

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Posto isto, é importante salientar que a reunião de uma assembleia de batizados e batizadas é a ocasião primordial de retomar uma vez mais os textos que contêm o anúncio fundador da fé. Por isso mesmo, ainda que uma comunidade cristã seja impedida de celebrar a eucaristia pela ausência de um ministro, ela celebrará sua fé ao redor da Palavra, o alimento da sua caminhada. Como comunidade de batizados possuidores do sacerdócio, da realeza e do profetismo de Cristo, essa reunião é legítima oferta de louvor a Deus a partir da história dos fiéis, individual e comunitariamente.

O que é possível observar até aqui e sem o medo de parecer fazer uma generalização leviana é que as mulheres constituem o grupo majoritário nas comunidades e paróquias brasileiras, mas não apenas. E elas não somente estão assentadas nos bancos das capelas e igrejas, mas, definitivamente, animando e presidindo a vida de fé de inúmeros agrupamentos de fiéis. Exercem, sem dúvida, funções administrativas, de coordenação e litúrgicas. Desempenham funções e ofícios essenciais na celebração e proclamação da fé, na Igreja e no mundo. E tudo fazem até agora a partir do reconhecimento dos que partilham a caminhada de fé com elas no microcosmo comunitário, mas sem a legitimação de suas ações e serviços na legislação e magistério hierárquicos.

No entanto, nesta semana o mundo noticiou a alteração, realizada pelo papa Francisco, no primeiro parágrafo do cânon 230 do Código de Direito Canônico que previa os ministérios instituídos do Leitorado e Acolitado apenas para candidatos ao presbitério, isto é, para os homens. A alteração prevê, agora, que tais ministérios sejam conferidos aos leigos, sem distinção de sexo. Isso significa que mulheres e homens, por direito do seu batismo, poderão obter, junto à autoridade local da Igreja, o bispo, a institucionalização desses serviços de proclamação da Palavra de Deus na assembleia litúrgica e o serviço do altar e a distribuição da eucaristia nas celebrações.

A alteração que reforça o caminho legitimado pelo Concílio Vaticano II, caminho de reconhecimento da ministerialidade da Igreja, da pluralidade e diversidade de dons entre os fiéis e dos diferentes serviços e ofícios da comunidade cristã, também dá um passo importante, que é o de conferir, por meio de rito litúrgico e mandato determinado, a institucionalização de dois ministérios para as mulheres que, até então, viam-se impedidas de tal institucionalização, mas não da realização dessas mesmas ações e serviços para a transmissão da fé na atualidade, na Igreja e no mundo.

Embora a prática das comunidades eclesiais brasileiras e de inúmeros países já esteja consolidada no que se refere ao serviço das leitoras e acólitas não instituídas para essas funções, o motu proprio Spiritus Domini é, sem dúvidas, o sinal de que o Espírito do Senhor Jesus não só continua a falar à Igreja como, também, recebe sua audiência e observação; e, nessa esteira, fala e se faz ressoar pela boca de mulheres e homens que leem na Igreja as escrituras sagradas, com ou sem o reconhecimento e institucionalização do magistério hierárquico.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com



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