Religião

15/01/2021 | domtotal.com

Bases eclesiais: lugar de inícios de mudanças

Com novo motu proprio, Francisco acolhe o mover do Espírito, que sopra onde quer, e não se prende a perspectivas de autoridade e poder de cima para baixo

A atuação feminina é legítima e fundamental
A atuação feminina é legítima e fundamental (Reprodução/Diocese de São João del Rei)

Teófilo da Silva*

Os trinta anos anteriores ao pontificado de Francisco foram, para o catolicismo, um processo de centralização romana dos rumos da Igreja. Na Igreja latino-americana isso se fez notar: depois do Concílio Vaticano II, e com sua recepção local com a Conferência de Medellín (1968), muitas iniciativas de frescor e renovo foram assumidas e, tão logo veio o pontificado de João Paulo II, um pé no freio, bruscamente, deu-se. A ousadia pastoral arrefeceu-se. Uma perseguição institucional àqueles bispos mais abertos foi instaurada. Uma centralização hierarquizada de cima para baixo se consolidou, com uma consequente mudança eclesiológica.

Mas, ainda assim, os esquemas cotidianos das comunidades eclesiais latino-americanas continuaram com suas particularidades, afinal o contexto sociocultural e religioso por aqui se dá de forma consideravelmente diversa da Igreja europeia. Por aqui, mulheres assumem, com verdadeira garra, serviços essenciais para a existência das comunidades de fé, mesmo sem reconhecimento institucional para isso. Atuavam, mas, digamos, que fora da lei canônica, no sentido da legitimidade institucional: o presbitério, canonicamente, nunca foi lugar para mulheres, apesar de elas lá estarem, essencialmente, para que o serviço litúrgico pudesse acontecer.

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O papa Francisco fez uma mudança, por meio do motu proprio Spiritus Domini: canonicamente, os ministérios do leitorado e do acolitato eram instituídos apenas a homens, sobretudo aqueles que se preparavam para o ministério ordenado. Explicitamente, o cânon 230 do Código de Direito Canônico se referia ao sexo masculino, para falar sobre a instituição desses ministérios. Com a mudança, abrange-se a instituição aos leigos e leigas em geral, sem critério de sexo. A mudança tem muita significação e isso precisa ser valorizado e reconhecido. Isso abre verdadeiras portas, sobretudo, para a compreensão da atuação das mulheres na vida eclesial, para além da concessão, muitas vezes condescendente, em muitos lugares. A atuação feminina é legítima e fundamental: se, na prática das muitas comunidades espalhadas por tantos rincões, isso já se faz perceber, é importante um aceno institucional disso.

Essa mudança canônica-institucional, feita por Francisco, revela a força das bases da eclesialidade, num contexto onde não haja perseguição às inovações e iniciativas descentralizadas. A força dos movimentos realizados nas igrejas particulares é importante, para mostrar como a Igreja é viva, dinâmica e plural. Mudanças, ao longo da Tradição, deram-se por movimentos iniciados assim: debaixo para cima. Nesse caso específico sobre os ministérios, temos um exemplo disso: mulheres já exerciam esses múnus; muitos bispos já vinham pedindo o reconhecimento disso. O que Francisco faz é acolher o mover do Espírito, que sopra onde quer, e não se prende a perspectivas de autoridade e poder de cima para baixo. Que tudo isso nos ensine algo, sobre o ser Igreja!

Teófilo da Silva, teólogo e poeta



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