Religião

15/01/2021 | domtotal.com

Leitoras e acólitas, bem-vindas!

Um pouco de histórica e de bom senso contra a misoginia travestida de zelo litúrgico

Papa Francisco publicou o motu proprio Spiritus Domini, no último dia 11, onde concede os ministérios de leitor e acólito às mulheres
Papa Francisco publicou o motu proprio Spiritus Domini, no último dia 11, onde concede os ministérios de leitor e acólito às mulheres (Vatican Media)

Mirticeli Medeiros*

Católicos histéricos nas redes sociais, esta semana, após Francisco autorizar, através do motu proprio Spiritus Domini, que também as mulheres recebam os ministérios de leitor e acólito. Uma decisão simples que causou um alvoroço ad aeternum. Cheguei a ler, num site católico, que Francisco "quebrou uma tradição". Resta saber, porém, a qual tradição a pessoa se refere. Certamente não é essa, de 2 mil anos.

No caso do leitorado, os primeiros cristãos, em âmbito latino (ocidental), já no século 2º, delegavam alguns fiéis para exercer essa função. À época, esse tipo de serviço não estava associado, exclusivamente, à ordenação sacerdotal. As fontes também não especificam se era reservado somente aos homens. Lembrando que, nesse período (entre os séculos 1º e 3º), surgem também as diaconisas, cujo papel na Igreja primitiva vem sendo estudado até hoje.

O escritor cristão Justino, na sua Apologia I, fala de um αναγινoσκον – do grego, aquele que lê –, diferenciando-o do presbítero que presidia a celebração. Mais à frente, Hipólito Romano, na sua Traditio apostolica, é ainda mais claro: "O leitor é constituído a partir do momento que o bispo lhe entrega o livro. Porém, ele não recebe a imposição das mãos".

Foi na Idade Média que esse ministério passou a integrar uma das fases de preparação para o sacerdócio. Até então, nem todos os leitores eram, necessariamente, "seminaristas" (uso o termo moderno para facilitar a compreensão). Inclusive crianças, após uma rigorosa preparação, com o auxílio de tutores, poderiam fazer parte do grupo de leitores.

Todos deveriam conhecer profundamente as Escrituras (de cor e salteado, hein?), eram responsáveis pela conservação dos arquivos da diocese e instruíam os catecúmenos que se preparavam para receber o sacramento do batismo.

Em se tratando do acolitato, também há fontes primitivas que falam a respeito. Após a divisão do clero romano em regiões eclesiásticas, feita pelo papa Fabiano, no século 3º, os acólitos eram tidos como aqueles que auxiliavam os diáconos. O teólogo Eusébio de Cesaréia, ao falar sobre o Concílio de Nicéia (235), os identificava como "aqueles que faziam parte da comitiva do bispo".

Até o século 5º, há poucas referências acerca dessas pessoas, o que impede os historiadores de definir, exatamente, que tipo de papel elas desempenhavam. O documento Collectio canonum hibernensis (século 7º) chega a dizer que esses acólitos eram como os salmistas e cantores; ou seja, "assumiam atividades litúrgicas fora das desempenhadas pela hierarquia eclesiástica".

É só ao final do século 5º, na Gália, que eles passarão a auxiliar o sacerdote no altar. Nessa antiga região romana, que hoje corresponde à França, parte da Bélgica e um pedaço da Itália, eles prestavam um serviço mais parecido com o que vemos hoje: carregavam as luminárias durante a procissão do evangeliário e entregavam ao presidente da celebração o vinho e a água, para que pudessem ser consagrados. 

Há quase 50 anos, à luz da própria história da Igreja, o papa Paulo VI declarava, em 1972, que acolitar e ler na missa eram serviços laicais. Apesar de destacar que somente homens poderiam exercê-los, deixou claro, ao tirar-lhes o status de "ordens menores", que se tratavam de ministérios, os quais poderiam ser desempanhados por fiéis comuns, designados pelo bispo.

Sendo assim, quem acusou Francisco de "laicizar a função" ou "realizar uma grande revolução" ao optar pela alteração do artigo 230 do Código de Direito Canônico, esqueceu-se dessa abertura feita lá atrás. Sem contar que, na prática, somente seminaristas, principalmente no Brasil, acabaram sendo instituídos leitores e acólitos, o que contribuiu para associar esses ministérios somente à vida clerical.

Francisco simplesmente estendeu a concessão às mulheres, indo ao encontro da própria realidade: são elas, hoje, que mais atuam nas paróquias. São elas que, em comunidades isoladas, na ausência de padres, sustentam comunidades inteiras. Negar esse reconhecimento é desumano; sinal que a pessoa está mais preocupada com as "pompas viris do altar" que com a experiência do altar enquanto lugar de sacrifício. As mulheres estavam ao pé da cruz, dizem os Evangelhos.

Para além da ignorância em relação ao próprio magistério da Igreja, há uma questão muito mais grave que paira sobre a decisão de Francisco: a misoginia. Sim, precisamos falar sobre isso.

Para alguns, a mulher, na Igreja, só serve para limpar o chão e passar a roupa do padre. E nem adianta negar que exista esse tipo de postura, fazendo uso de eufemismos sem fim. É uma subvalorização da figura feminina que se intensifica, de maneira assustadora, dentro desses círculos tomistas: mulher "feminina" é aquela que se torna a serviçal do macho-alfa, não sua companheira. O próprio papa Francisco já admitiu que essa mentalidade precisa ser superada, inclusive dentro da instituição que governa.

Já outros grupos consideram que a recente decisão de Francisco é um "prêmio de consolação" às mulheres que, há muito tempo, solicitam o diaconato feminino. O debate reproposto recentemente pelo Sínodo da Amazônia (Outubro-2019), levou o pontífice a criar uma comissão para estudar o diaconato feminino, com base no que ocorreu nos primeiros séculos do cristianismo.

Apesar de o pontífice ser pessoalmente contra esse tipo de concessão, e dizer claramente que "clericalizar as mulheres não é a melhor saída", quer compreender, através de um estudo aprofundado, de que forma elas atuavam no início da era cristã.

A impressão que temos é que o santo padre, de certa forma, encontrou uma solução para não precisar mexer em algo que, segundo sua visão, não possui "consistência teológica e doutrinal" para ser levado adiante. Mesmo assim, a comissão de estudos permanece ativa e pode, ainda, trazer surpresas. Ordenação de mulheres? Não acredito, já que o papa foi enfático ao tratar da questão. Mas uma maior participação delas na vida e nas decisões da Igreja, certamente. Ainda que ele, com o poder das chaves, crie funções e ministérios para que elas se sintam ainda mais valorizadas.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!