Cultura

18/01/2021 | domtotal.com

Retrospectiva

Essa presença do vírus maldito fez do ano de 2020 um rosário de lamentações

E lá se foi o ano, projetando para o atual o mesmo painel de horrores
E lá se foi o ano, projetando para o atual o mesmo painel de horrores (Unsplash/Kelly Sikkema)

Afonso Barroso*

Como todo mundo, também quis eu fazer uma visitinha ao finado ano de 2020. Fiquei na dor e na tristeza de um ano fatídico, um tempo a esquecer. Assim que comecei a revirar os acontecimentos, desenrolou-se à minha frente uma esteira de lamentações, apreensões e ansiedade, mês após mês. Meu filho e a mulher, que moram no Espírito Santo, foram tomados pela Covid. Felizmente se recuperaram, depois de vários dias de internação e graças aos médicos capixabas que os assistiram no hospital de Vila Velha. Um neto também pegou o vírus, mas os seus 17 anos de boa saúde exigiram dele apenas uns dias de quarentena. O genro passou vários dias internado num hospital de Governador Valadares. Um cunhado também se infectou, junto com os quatro filhos. A Covid pegou ainda meu melhor amigo, três filhos e a sogra.

Essa presença do vírus maldito fez do ano um rosário de lamentações. Procurei algum motivo para me alegrar, alguma coisa da qual pudesse lembrar com um sorriso, e não achei. Assim como não achei a nota de 200, que o Banco Central lançou sob o pretexto de conter a demanda de dinheiro nos caixas dos bancos. Mas essa cédula inacessível desapareceu da mesma forma como surgiu. Puft, cadê? Acho que conteve mesmo a demanda, porque eu mesmo nem cheguei a ver uma de perto. E conheço muita gente que nem sequer tomou conhecimento de que ela exista de verdade.

Na política e na administração pública, vi um presidente estrumpiado da cabeça, que governa com os olhos voltados para 2022. Quer ser reeleito a qualquer preço, a qualquer custo para o país. Prega insistentemente o voto impresso na eleição, e já prevê algo parecido com o que aconteceu nos Estados Unidos, se não for eleito. Assim como seu ídolo topetudo que fala inglês, não aceitará eventual derrota. Até prevê que o Congresso Nacional, nosso Capitólio, também poderá ser invadido pelos apoiadores fascistas. Pensando bem, não foi por acaso que entupiu de militares sua governança. Nenhum deles se conformará com a perda dos cargos com que foram agraciados, na maioria dos casos sem nenhum mérito ou qualquer aptidão.

Esses e outros infortúnios aconteceram no ano próximo passado. Foi mesmo um ano atípico, de restaurantes fechados, campanhas políticas sem comícios, escolas e bares fechadas, aulas pela internet, paqueras presenciais proibidas, beijos e abraços esquecidos, amores desfeitos, aumento dos casos de homicídios, suicídios e feminicídios, entre outros males que infestaram o mundo real, pandêmico como nunca.

No deserto dos estádios de futebol sem plateia, uma alegria apenas: a ascensão do América Futebol Clube, que chegou à semifinal da Copa do Brasil e também realizou a façanha de voltar com brilho à primeira divisão do futebol brasileiro. No Cruzeiro, a corrupção de dirigentes desonestos levou o clube à bancarrota e à falência, rebaixando-o para a prateleira de baixo, enlameando 100 anos até então cheios de glórias.

Pela primeira vez na história, não se comemorou o Natal, pelo menos não com a alegria de sempre. Foi como se o Menino Jesus se recusasse a nascer, temendo a malvadeza de algum Herodes negacionista. Também não se festejou o Ano Novo, a não ser com algum foguetório tímido. E não houve grito de Carnaval.

E lá se foi o ano, projetando para o atual o mesmo painel de horrores. Dominus nobiscum.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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