Brasil Política

15/01/2021 | domtotal.com

Crise no Amazonas mobiliza oposição ao governo

Partidos culpam Pazuello por omissão e população se manifesta contra gestão de saúde do governo Bolsonaro

Familiares comparecem ao enterro de Maria Estela Mares Melo no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus
Familiares comparecem ao enterro de Maria Estela Mares Melo no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (Michael Dantas/AFP)

A nova escalada da pandemia da Covid-19 no Amazonas, que atingiu nesta semana um dos cenários mais críticos desde o início do surto da doença, aumentou a insatisfação da gestão da pandemia pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, eseu ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello. As cenas de pacientes morrendo por asfixia, o caos completo no sistema de saúde de Manaus e os relatos de médicos e familiares desesperados tentando salvar vidas tiveram o poder de mobilizar partidos e causar indignação e revolta na população.

Governadores e parlamentares acusaram o ministro Pazuello de omissão e o responsabilizam pelo anunciado colapso no Amazonas, sobretudo em Manaus. A crise deve bater às portas do procurador-geral da República, Augusto Aras. O chefe do Ministério Público Federal voltou a ser cobrado a investigar o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, por omissão na condução da crise sanitária.

Nesta sexta-feira (15), enquanto o Amazonas transfere pacientes para outros Estados e começa a reabastecer os estoques de oxigênio, que chegaram a ficar zerados em alguns hospitais da capital Manaus, levando pessoas internadas com o novo coronavírus à morte por asfixia, duas representações contra Pazuello foram formalizadas na Procuradoria.

Uma delas, de autoria do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), atribui ao general omissão deliberada no enfrentamento da pandemia. Na avaliação do parlamentar, Pazuello deixou de tomar medidas de contenção ao avanço da doença no país "por corroborar sua crença pessoal e a do Presidente da República".

"É possível cogitar o dolo na conduta omissiva de Eduardo Pazuello, quando o mesmo deixou de adquirir oxigênio para os hospitais de Manaus, sabendo com antecedência da escassez do insumo, e quando deixou de adotar medidas para aquisição da vacina e insumos necessários para sua aplicação, tendo em vista que é especialista em logística", diz um trecho do documento.

A segunda representação é encabeçada pelo presidente nacional do Cidadania, Roberto Freire, e pede que o ministro da Saúde seja investigado por prevaricação e improbidade administrativa.

A peça destaca que, como informou o procurador federal no Amazonas Igor da Silva Spíndola, Pazuello e sua equipe foram avisados de que faltaria oxigênio para atender os pacientes nos hospitais públicos de Manaus dias antes do colapso na capital amazonense. O ministro chegou a visitar a cidade na última segunda-feira (11). "Nenhuma medida preventiva foi adotada pelo Ministério da Saúde, permanecendo a pasta comandada pelo representado [Pazuello] inerte, aguardando o caos que era anunciado", critica a representação.

O próprio Pazuello admitiu o colapso na rede de saúde de Manaus. Após a declaração, o presidente Jair Bolsonaro afirmou já ter feito a sua parte. Segundo ele, foram enviados recursos e outros meios ao Amazonas para o enfrentamento da Covid-19. O vice-presidente, Hamilton Mourão, também saiu em defesa do governo, dizendo que não era possível prever a situação na capital e que estão fazendo "além do que podem".

Na noite de quinta-feira (14), as bancadas do PCdoB e do PT enviaram uma petição ao ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, requerendo uma série de medidas para conter a explosão de casos de Covid-19 no Amazonas.

Críticas contundentes

Opositor de Bolsonaro, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), voltou a culpar e responsabilizar o governo federal, Bolsonaro e Pazuello pelo colapso da saúde pública em Manaus. Segundo ele, "Manaus é resultado da política caótica da saúde pública do governo federal".

De acordo com o governador paulista, "não é razoável imaginar que uma situação de caos como vive a capital manauara seja debitada na conta de um prefeito ou de um governador. Temos um governo federal para quê? Temos um Ministério da Saúde para quê? Para acusar prefeitos e governadores ou para agir em defesa e proteção da saúde e da vida de todos os brasileiros em qualquer parte do país?", afirmou Doria. "Tenho a impressão que o governo Bolsonaro gosta do cheiro da morte, e não de celebrar a vida, pois se quisesse celebrar a vida, já teria contribuído com o estado do Amazonas", completou.

Mais tarde, Doria reforçou as críticas, dizendo que "muitas vozes vão começar a se levantar em defesa do Brasil". "Se não fizermos isso, Brasil estará em dois anos destruído pela inépcia", afirmou o governador.

As declarações do governador paulista provocaram reação do presidente. Em entrevista ao apresentador José Luis Datena, da TV Band, Bolsonaro atacou Doria e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que, mais cedo, disse que o afastamento de Bolsonaro do cargo, "de forma inevitável, será debatido pelo Congresso no futuro".

"Eles querem essa cadeira (de presidente) para roubar, para fazer o que sempre fizeram. Estamos dois anos sem corrupção, isso incomoda Maia e Doria", afirmou Bolsonaro. "Esse inferno que querem impor na minha vida não vai colar. E eu vou continuar fazendo meu trabalho. Não tem do que me acusar. Tem 40 a 50 processos de impeachment, não valem nada."

Ao rebater as críticas, Bolsonaro voltou a distorcer uma decisão do Supremo que reconheceu a autonomia de Estados e municípios para adotar medidas de enfrentamento contra a doença, em parceria com o governo federal. Na versão do presidente, no entanto, a Corte o "proibiu" de fazer qualquer coisa. "O Supremo me tirou esse direito em abril do ano passado. Eu não posso fazer nada no tocante ao combate ao coronavírus, segundo decisão do STF", afirmou Bolsonaro.

Revolta no Congresso e nas ruas

Opositores do governo organizam um "panelaço" para a noite desta sexta-feira (15), às 20h30, em todo o país. Com a frase "Sem oxigênio, sem vacina, sem governo", críticos do governo sobem a hashtag "#BrasilSufocado" nas redes sociais após as repercussões dos casos de falta de oxigênio em hospitais de Manaus (AM). A hashtag "Panelaço" já aparecia entre os 10 assuntos mais comentados do Brasil no Twitter no começo da tarde.

Já integram o movimento parlamentares como a deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), que afirmou em seu perfil no Twitter que "a sociedade brasileira não aguenta mais tanta incompetência e falta de humanidade de um governo que não governa", e a deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS), que na mesma linha disse "Basta deste governo genocida! Exigimos Impeachment já". O Movimento Brasil Livre (MBL) também convocou seus seguidores no Twitter a participar do ato desta noite.

A deputada pelo PCdoB Jandira Feghali (RJ) declarou que "Bolsonaro e Pazuello devem ser responsabilizados pelos crimes cometidos contra a vida, a ciência e a democracia". O movimento também foi aderido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), que, em seu perfil oficial no Twitter, afirmou que o governo federal é "responsável direto pelas mais de 200 mil mortes" e convidou seus seguidores a participar da manifestação.


Agência Estado/Dom Total



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