Brasil Política

17/01/2021 | domtotal.com

Governo Bolsonaro minimizou alertas de Manaus e cancelou compra de avião que poderia ajudar AM

Mesmo sob alertas de colapso em Manaus, Ministério da Saúde apostou em uma arma ineficaz: o 'tratamento precoce'

Médico Marcos Fonseca Barbosa ajuda sua mãe com oxigênio: ele teve que cuidar dela em casa por falta de vaga em hospital
Médico Marcos Fonseca Barbosa ajuda sua mãe com oxigênio: ele teve que cuidar dela em casa por falta de vaga em hospital (Michael Dantas/AFP)

O presidente Jair Bolsonaro, em 28 de dezembro de 2020, esteve no Estádio da Vila Belmiro, em Santos (SP), onde boicotou mais uma vez medidas sanitárias contra a Covid-19. Em declaração à imprensa, ainda no gramado, o presidente elogiou protestos feitos em Búzios (RJ), Fortaleza (CE) e Manaus (AM) contra o fechamento do comércio. “Sei que a vida não tem preço. Mas não precisa ficar com esse pavor todo”, disse o presidente. “Vi que o povo em Manaus ignorou o decreto do governador do Amazonas.”

As manifestações na cidade levaram o governador a recuar e reabrir o comércio no estado. Menos de um mês depois, Manaus vive o pior momento da pandemia, com colapso no sistema de saúde e falta de oxigênio para pacientes da Covid-19 e até bebês prematuros. Além de minimizar alertas de Manaus, governo Bolsonaro ainda cancelou compra de avião que poderia ajudar AM.
 
As aglomerações de fim de ano, além da circulação de uma nova variante da Covid-19, são fatores tidos como determinantes para a explosão de internações em Manaus, segundo o governo estadual e especialistas.

Bolsonaro não apenas apoiou as aglomerações, como seu governo minimizou alertas de que Manaus poderia colapsar. O presidente negou responsabilidades pela crise e disse que cabe ao governo federal somente repassar recursos para o combate à pandemia. “Fizemos nossa parte, com recursos e meios”, disse.

A postura do governo, porém, levou a Procuradoria da República no Amazonas a determinar a abertura de inquérito civil para apurar se houve falha no apoio ao estado e opção por indicação de “tratamento precoce com eficácia questionada”.

O questionamento dos procuradores faz menção à visita do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e sua equipe ao estado. Mesmo sob alertas de colapso em Manaus, a comitiva da Saúde apostou em uma arma ineficaz: o tratamento precoce, ou seja, o uso de medicamentos sem eficácia para a Covid-19, como a cloroquina. A falta da prescrição destes medicamentos foi apontada por Bolsonaro como um dos maiores motivos da crise em Manaus.

Pazuello deixou a cidade em 13 de janeiro, na véspera de alguns hospitais ficarem sem oxigênio e pacientes morrerem asfixiados. Os procuradores apontam que o governo só mobilizou o transporte dos cilindros de oxigênio e a transferência de pacientes a outros estados, por meio de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), no dia 14, quando a crise ganhou projeção nacional. Antes disso, porém, o governo local já alertava sobre a falta do insumo, segundo ofício que determina a apuração.

A Procuradoria deve questionar os ministérios da Saúde, da Defesa e o governo local sobre a pressão pelo uso do “tratamento precoce”, além da resposta aos alertas sobre a crise no Amazonas. A empresa White Martins, que fornece oxigênio ao governo local, deve ainda explicar se alertou o ministério de Pazuello sobre a falta do insumo.

O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), evita críticas a Bolsonaro e ao ministro Pazuello pela crise em Manaus. O estado depende do apoio federal. Nos bastidores, no entanto, auxiliares do governador reclamam que Pazuello recebeu Lima em Brasília, no último dia 6, ouviu que o quadro era grave e que a nova cepa pode aprofundar a crise no país, mas não respondeu à altura. “O problema é muito grave por conta da pandemia. Estamos chegando ao nosso limite e vim fazer um apelo ao ministro para que aumente o socorro para o Amazonas”, disse Lima após reunião com Pazuello, na última semana.

Alerta da cunhada. Na segunda-feira, 11, Pazuello mostrou que conhecia a crise por oxigênio. O ministro, que viveu e tem família em Manaus, citou um caso próximo, mas minimizou o colapso. “Quando cheguei na minha casa, ontem, estava a minha cunhada... o irmão (dela) não tinha oxigênio nem para passar o dia. Acho que chega amanhã. O que você vai fazer? Nada. Então, vamos com calma. Calma com suas reivindicações pessoais”, disse ele.

No mesmo discurso, Pazuello reforçou que o uso do tratamento que já foi apontado pela ciência como sem eficácia amenizaria a crise. Ele disse que era preciso cobrar a prescrição de profissionais de saúde, diretores de hospitais e conselhos profissionais. “A medicação pode e deve começar antes desses exames complementares (de diagnóstico). Caso o exame lá na frente der negativo, reduz a medicação e tá ótimo. Não vai matar ninguém”, disse Pazuello.

Em Manaus, também lançou o TrateCOV, aplicativo para médicos que ajuda no diagnóstico e indica o uso do “tratamento precoce”. Em ofício à Secretaria de Saúde de Manaus, o ministério chegou afirmar que é “inadmissível” não prescrever antivirais contra a Covid-19.

Compra de avião cancelada  

Quando disse que a FAB não tinha mais Boeings que poderiam levar suprimentos a Manaus, o vice-presidente Hamilton Mourão esqueceu de contar que a Aeronáutica não tem mais esses aviões por duas decisões da gestão Jair Bolsonaro. A primeira foi cancelar em fevereiro de 2019 licitação para compra de aeronave usada Boeing-767-300ER. A segunda foi cancelar licitação que atingiu o leasing da mesma aeronave, que estava sendo alugada desde 2016. Esta segunda decisão foi em 12 de agosto de 2020, já na pandemia.

Só em seu porão, a aeronave poderia levar 31 toneladas de carga, fora a possibilidade de ser adaptada para o transporte de pacientes em uma emergência. Para se ter ideia do que essa capacidade de carga significa, a maior aeronave hoje da FAB, o cargueiro KC-390, pode levar 26 toneladas de equipamento. A FAB tem quatro KC-390, mas um deles foi enviado em meio à crise para os EUA a fim de participar de treinamento militar com o Exército americano. Apesar disso, a Aeronáutica disse que essa falta não prejudica a logística para socorrer Manaus.

Quatro meses antes da decisão de não se comprar o Boeing, a Itália e a França haviam transportado pacientes para outras regiões para desafogar hospitais. Na época da decisão, a FAB informou que o cancelamento se devia a razões orçamentárias. Temia-se que, com a crise da Covid, houvesse queda da arrecadação e, preventivamente, decidiram economizar. E alegava-se que a pandemia modificava os valores do mercado internacional.

Procurado, o Comando da Aeronáutica informou que “o recebimento do cargueiro multimissão KC-390 Millennium, que aumentou a capacidade de transporte da Força” estava entre as razões para deixar de comprar o Boeing 767-300ER. Também informou que três dos 4 KC390 da FAB estão empenhados na operação de auxílio ao Amazonas.

Na quinta, o ministro da saúde, Eduardo Pazuello, disse que seis aviões da FAB seriam mobilizados para levar oxigênio. Por fim, a FAB disse ainda que anteontem outras duas aeronaves C-130 Hércules pousaram no Amazonas com 18 toneladas de cilindros de oxigênio.

Famílias seguem juntas em viagem por oxigênio

Com 80% do pulmão comprometido e após oito dias internado, Osimar Carvalho, de 54 anos, percorreu de avião mais de 1,7 mil quilômetros. A falta de estoque de oxigênio, que levou hospitais de Manaus ao colapso esta semana, fez com que ele fosse levado ao Maranhão em busca de segurança no atendimento médico. A estimativa do Amazonas é de que até 700 pacientes sejam transferidos. Para evitar a distância nessa hora difícil, as famílias se desdobram para acompanhar os doentes nessa viagem.

“Estou vivendo os piores dias da minha vida. Estou há um mês sem ver meu pai direito, ele está bem debilitado”, conta Kamilla Caió, filha de Carvalho. “Acho melhor ele ir pra outro Estado porque sei que vai acabar de novo (o oxigênio) e não quero mais passar pelo desespero que passei na quinta”, diz a nutricionista de 27 anos.

Além do Maranhão, sete Estados e o Distrito Federal receberam pacientes anteontem. O Estado cogitou até transferir 61 bebês prematuros em maternidades públicas, mas conseguiu renovas o estoque e evitar o deslocamento, com riscos.

Nas transferências, a família não pode acompanhar o doente no transporte aéreo e um tio doou a passagem para garantir que Kamilla fique junto do pai no Maranhão. A jovem, que tinha uma reserva guardada, já gastou cerca de R$ 2 mil com máscaras e ventilação não invasiva. Os produtos mantiveram Carvalho vivo quando o oxigênio na unidade acabou.

“Ele foi ao banheiro na hora da falta de oxigênio e, no desespero, alguém roubou a máscara dele que era de balão. Acho que pensando que ia respirar melhor com aquela, mas respirar o quê? Não tinha oxigênio. Por sorte, comprei três e doei duas a pessoas em situação precária”, relata Kamilla.

Após a chegada de Carvalho ao Maranhão, eles já se falaram por videochamada. “Minha filha, estou bem. Já estava entregando minha vida pra Deus porque eu sabia que ia morrer ali”, disse Osimar à Kamilla.

Agora, ela busca ajuda para conseguir se manter e custear as despesas enquanto Osimar faz o tratamento. “Toda ajuda é bem-vinda, não penso em mim, sou nova e me viro. Penso nele. Só tenho um sentimento de gratidão por todo suporte que tenho recebido”, diz.

Yahsmin Morais também vive momentos de aflição à espera de notícias sobre o tio, Cosme Moraes, de 49 anos. Ele foi transferido na madrugada do dia 13 para um hospital em Brasília. Moraes fez o teste na anterior e testou positivo para o coronavírus. O quadro era estável até o chegar o fim de semana, quando sentiu falta de ar e buscou atendimento em um hospital privado. Por falta de leitos, embarcaram ele com urgência para conseguir interná-lo.

“Foram bem claros: Se ele continuasse no hospital, iria ficar em uma maca no corredor. Não tinha leito. A gente fica nessa aflição né? De esperar todo dia, às 17 horas, pela atualização do boletim. É quando dão notícia do paciente”, afirma Yahsmim. A família fez vaquinha para ajudar na hospedagem do primo, que está acompanhando Cosme. “Meus avós estão muito desestabilizados.”

Segundo a Secretaria da Saúde do Amazonas, no 1º pico da pandemia, de março e maio de 2020, o consumo máximo era de 30 mil m³ de oxigênio diários. Hoje é de 76 mil m³. As fornecedoras estão com dificuldades em produzir o volume e a logística para que o insumo venha de fora tem sido um dos entraves para abastecer a capital e o interior. “Já foram requisitadas 10 usinas que serão instaladas em algumas unidades”, disse o governador Wilson Lima (PSC) nas redes sociais.


Agência Estado/Dom Total



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