Cultura

18/01/2021 | domtotal.com

Wikipedia: 20 anos de conhecimento universal


Com 5,5 milhões de artigos online, vistos mensalmente por 1,7 mil milhões de pessoas, em 285 idiomas diferentes, é a maior enciclopédia de todos os tempos, em conteúdo e alcance. Um sucesso que tanto se deve à Internet como aos seus milhares de colaboradores e aos milhões de doadores anônimos.

Monumento a Wikipedia, escultura localizada em Slubice, na Polônia
Monumento a Wikipedia, escultura localizada em Slubice, na Polônia (Wikimedia)

José Couto Nogueira*

Foi no dia 15 de janeiro de 2001 que Jimmy Wales e Larry Sanger puseram no ar um projeto que tanto parecia impossível como impraticável: uma enciclopédia online, aberta a quem quisesse participar, autossustentável (isto é, sem publicidade) e sem limite de temas. À medida que a Wiki crescia, os problemas inerentes ao conceito, como o facciosismo e os erros nas informações, ou o custo de administrar e alojar um volume de dimensões faraônicas, foram sendo resolvidos com pragmatismo, ao ponto de se tornar, em 2016, o quinto site mais visitado do mundo.

O conceito de uma enciclopédia não é novo; o nome deriva do grego, enkyklios paideia, "educação geral", e era usado pelos atenienses para certos tipos de manuais escolares. O termo aparece pela primeira vez na Europa pós-medieval no seu romance épico alegórico "Pantagruel" (nada a ver com cozinha), de Rabelais, ainda dentro dum conceito de ensino, isto em 1532. Em 1559, o alemão Paul Scalich publicou em Basileia a primeira obra com intenções enciclopédicas no conceito atual, como o nome indica: "Enciclopaedia, ou o conhecimento do mundo das disciplinas, não só sagradas como profanas".

A primeira enciclopédia de sucesso, responsável por uma mudança telúrica nas ciências, na política e na sociedade, foi, como se estuda em História, a famosa "Encyclopédie, Ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers", começada a editar por Diderot em Paris, em 1747, com a colaboração de especialistas em todas as áreas, que ficaram conhecidos como "enciclopedistas".

A ideia era apresentar todo o conhecimento da época como resultado do pensamento humano e de fenômenos naturais, excluindo qualquer "intervenção divina" em coisas e acontecimentos. No tempo do Ancien Regime, quando o poder do Rei absoluto, em particular, e toda a cosmovisão, em geral, eram considerados como "a vontade de Deus", tratava-se de uma ideia revolucionária, provocadora e blasfema.

Além da provocação ideológica (subentendida) havia também a questão prática de publicar tanta informação numa altura em que os livros ainda eram caros e difíceis de produzir. Mesmo assim, os enciclopedistas conseguiram lançar 35 volumes até 1780, com grande sucesso e efeitos surpreendentes. De fato, pode dizer-se que se deve a esta enciclopédia e ao "Dicionário filosófico" de Voltaire, publicado em 1764, o conjunto de ideias que levaria à Constituição dos Estados Unidos, em 1788, e à Revolução Francesa, em 1789.

Paralelamente, entre 1768 e 1771 os escoceses lançaram uma "Encyclopædia britannica", em três volumes, escrita por dezenas de especialistas, com objetivos mais culturais do que filosóficos. Ao contrário da francesa, que teve uma única edição, a inglesa continuou como um empreendimento comercial. Na quarta edição, entre 1801 e 1810, já ia em 20 volumes. A partir da 11ª edição (1901) passou a ser publicada por uma empresa norte-americana, que condensou muitos artigos para aceder a outro tipo de público, mas não deixou de crescer, e em 1933 adotou um sistema de "revisão contínua" anual, que praticamente, obrigava os colecionadores a fazer uma assinatura.

Durante mais de um século, ter uma Enciclopédia britânica em casa era sinal de cultura e status; mas com o aparecimento do digital cada vez se tornava mais impraticável e, finalmente, em 2013 deixou de ser impressa. Até hoje pode ser assinada digitalmente.

Não deixa de ser interessante constatar a abordagem diferente implícita nos dois empreendimentos. A ideia francesa era mudar o mundo, ou pelo menos a visão de mundo prevalecente na cultura europeia, quando o "Iluminismo" surgiu como a antítese do pensamento medieval. Os ingleses, que conseguiram uma evolução política e religiosa gradual – se bem que não isenta de violência – abordavam a evolução das ideias como um progresso, não como uma luta. Não sei explicar isto melhor, mas a natureza e as consequências das duas enciclopédias, que nasceram na mesma época, explicam melhor que eu.

Houve, evidentemente, centenas de enciclopédias em todos os países. Nós tivemos, que me lembre, a Luso-Brasileira e a Verbo, também baseadas em conceitos diferentes do que significa o conhecimento: uma afirmação de princípios ou uma divulgação cultural relativamente neutra.

"Relativamente" é mesmo relativamente; não há neutralidade na ideia de abrir o conhecimento a mais pessoas. E o conhecimento, em si, já é uma proposta progressista.

Dentro desta constatação de intenções, vale a pena lembrar uma enciclopédia que representou uma visão mais naturalista do mundo – "hippie", diríamos hoje. Chamava-se "Whole earth catalog" (o catálogo de todo o mundo como um todo, numa tradução livre), publicado por Stewart Brand em plena época da "contracultura", 1968. Os livros (também havia uma revista) continham ensaios, mas focavam-se sobretudo em avaliação de produtos que proporcionavam autossuficiência ecológica, educação alternativa, projetos possíveis de fazer em casa, e uma variedade de produtos, como roupa, livros, ferramentas, sementes e tudo o que pudesse ser feito fora do circuito comercial. O mais que tinha era informação sobre as empresas que vendiam estes produtos alternativos, sem publicidade. O catálogo fez um enorme sucesso nas décadas de 1960-70, mas, à medida que os hippies cresciam e eram atraídos pelo trabalho "careta", a sua influência foi diminuindo. A abordagem passou a ser mais ecológica e mais associativa em vez de individualista, mas não resistiu às mudanças comportamentais e à Internet; a última edição saiu em 1990, já fora de tempo.

A Wikipédia tem uma abordagem diferente: não pretende revolucionar nada, nem propor nenhum estilo de vida, nem defender o progresso ou o status quo; é verdadeiramente uma enciclopédia do nosso tempo, em que a abundância de informação quase não permite formar uma opinião sobre o que quer que seja.

Inicialmente, a possibilidade de qualquer pessoa poder contribuir com um texto, levou a que a Wiki fosse parcial e pouco confiável, com erros propositados ou inocentes. Mas a partir de 2014, por causa dos numerosos incidentes de vandalismo nas páginas – informações falsas e difamatórias de certas pessoas, por exemplo, a alteração das páginas passou a ser permitida só a pessoas inscritas e conhecidas. Criou-se uma pequena hierarquia de administradores e editores que supervisionam todo o processo, verificam as reclamações e fixam o texto das páginas mais sujeitas a vandalismo.

A Wiki pertence a uma fundação criada exclusivamente para a administrar e vive das contribuições dos utilizadores. Uma vez por ano, quando se abre qualquer página Wiki aparece um pedido para contribuir, mesmo que seja com uma quantia insignificante. O sistema tem funcionado bem.

Até que ponto podemos acreditar no que está na Wiki? Bem, as opiniões dividem-se. Certos artigos são duvidosos ou inconsistentes, a outros falta informação. Mas trata-se duma minoria inevitável num volume tão grande de informações. Em termos gerais, pode dizer-se que a Wikipedia é confiável e muito útil para quem quer saber mais sobre qualquer assunto. E há sempre a possibilidade de reclamar, caso se encontre algo que não está correto. Graças à flexibilidade em tempo real da Internet, a Wiki é um projeto em constante evolução, e sabe-se que, ao contrário duma pesquisa no Google, não tem algoritmos que condicionam a consulta ou levam a propostas comerciais. Melhor, no contexto atual, é impossível.

O I-Ching é um livro divinatório chinês que foi criado durante a dinastia Zhou, cerca de mil anos AC. Através de analogias, responde a qualquer pergunta que se lhe faça; o truque está em saber fazer a pergunta. Pois bem, em 1882 o inglês James Legge fez uma primeira tradução, mas a versão considerada mais fiel é alemã, uma tradução de Richard Willhelm e Lao Nai Suan, em 1923. Ora, para essa edição, foi pedido a Gustav Jung que fizesse a introdução. E o que fez Jung? Perguntou ao I-Ching qualquer seria o seu papel na cultura ocidental. Ou seja, para avaliar a obra, perguntou-lhe o que ela achava de si própria.

Pensei que esta ideia era perfeita para escrever sobre a Wikipédia. Quem quiser, pode fazer o mesmo pesquisando  https://wikipedia. E depois pode prosseguir por outras páginas, que está em boas mãos.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal



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