Religião

18/01/2021 | domtotal.com

Explicando a história das mulheres leitoras e acólitas e o que o papa Francisco mudou

Cabe ainda aos bispos abrir ministérios instituídos aos leigos

Corinne Griske usando linguagem de sinais enquanto servia como leitora em missa para a Comunidade Católica de Surdos de Long Island, NY
Corinne Griske usando linguagem de sinais enquanto servia como leitora em missa para a Comunidade Católica de Surdos de Long Island, NY (CNS photo/Gregory A. Shemitz)

Colleen Dulle*
America

No dia 11 de janeiro, o papa Francisco mudou a lei da Igreja para permitir que as mulheres sejam instaladas permanentemente como leitoras ou acólitas – essencialmente, leitoras, ministras da Comunhão e ajudantes na missa e demais sacramentos.

Embora as mulheres tenham desempenhado esses ministérios na Eucaristia por décadas, até agora elas tinham sido impedidas de serem nomeadas permanentemente para essas funções. Esse grande passo, oficializado em uma cerimônia eclesiástica, é extremamente raro para leigos.

Mais comumente, as mulheres foram autorizadas a servirem nessas funções temporariamente, a critério do bispo local. A mudança na lei canônica impede os bispos de não admitir, a critério pessoal, mulheres para esses ministérios.

O motu proprio Spiritus Domini (Espírito do Senhor) mudou a redação do Cânon 230. A lei da Igreja dizia anteriormente: "Os leigos varões que tiverem a idade e as qualidades estabelecidas por decreto da Conferência dos Bispos, podem ser assumidos estavelmente, mediante o rito litúrgico prescrito, para os ministérios do leitor e de acólito; o ministério, porém, a eles conferido não lhes dá o direito ao sustento ou à remuneração por parte da Igreja".

A lei agora diz "leigos" em vez de "leigos varões".

O que são leitores e acólitos?

Embora os leitores sejam geralmente reconhecidos como os leitores da Missa, seus ministérios também podem incluir dirigir do ministério de música e a participação da assembleia, preparar as pessoas para os sacramentos e preparar outros leitores da Missa.

O título "acólito" também inclui várias funções, incluindo servir no altar durante a missa, ajudar padres e diáconos com outros sacramentos, distribuir a Comunhão, expor o Santíssimo Sacramento para adoração e instruir os coroinhas.

Esses ministérios eram duas das quatro "ordens menores" que datam da Igreja primitiva. Os homens seriam ordenados como leitores e acólitos (bem como exorcistas, carregadores e subdiáconos) em seu caminho para a ordenação diaconal e, eventualmente, sacerdotal. De acordo com Phyllis Zagano, professora da Hofstra University e renomada estudiosa de mulheres diaconisas, não há evidência de mulheres ordenadas para esses ministérios, embora certamente desempenhassem as funções, como acontece hoje.

Com o tempo, tornou-se comum que homens ricos e altamente educados fossem nomeados para essas funções, mesmo que não estivessem se tornando sacerdotes, mas em 1917 essas "ordens menores" foram limitadas aos seminaristas. Em 1972, com seu motu proprio Ministeria quaedam, o papa Paulo VI decretou que os leigos poderiam ser nomeados acólitos e leitores, desde que ficasse claro que não eram estágios para a ordenação. Essa prática manteve-se até 1983, quando a lei canônica foi atualizada para dizer que qualquer leigo poderia exercer as funções, mas não se instalar permanentemente nelas. Em 1994, a Congregação do Vaticano para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos disse que um bispo poderia permitir que mulheres e meninas fossem coroinhas, embora esse papel seja diferente do papel de um acólito; por exemplo, um acólito pode purificar cálices e patenas usados para a comunhão, um ato que os coroinhas não deveriam realizar.

O que isso significa para os coroinhas?

Algumas dioceses proíbem as meninas de se tornarem coroinhas. Esta mudança na lei canônica não exigiria que essas dioceses permitissem coroinhas femininas, já que o decreto de hoje só diz respeito às acólitas, não às coroinhas. Mas, seguindo a mudança de hoje, seria mais difícil justificar a proibição de meninas de se tornarem coroinhas quando mulheres adultas podem ser acólitas permanentes e servir no templo durante a missa.

As mulheres podiam ter esse papel antes?

Desde 1994, as mulheres foram oficialmente autorizadas a ler e servir na missa a critério de seu bispo local, embora na prática o fizessem desde os anos 1970. Porém, as mulheres permaneceram proibidas de receber instituições permanentes como leitoras ou acólitas. Ambos os ministérios incluem uma conexão histórica com a preparação para a ordenação ao sacerdócio masculino na Igreja Católica.

Na maior parte do mundo, as mulheres já desempenham essas funções. Em grande parte da América do Sul, em particular, onde os padres são escassos, as mulheres são frequentemente responsáveis pela catequização de suas comunidades, instruindo aqueles que se preparam para receber os sacramentos e distribuindo a Comunhão quando um sacerdote não pode atender sua paróquia. Por causa disso, a sra. Zagano vê a mudança de hoje no direito canônico como uma afirmação das mulheres que já estão fazendo esses trabalhos. "Isso solidificou o interesse do santo padre em abrir ministérios leigos para homens e mulheres", disse.

Por que a mudança?

O papa Francisco emitiu um motu próprio ou decreto "por sua própria iniciativa". Ainda não se sabe por que o papa escolheu fazer a mudança agora, mas Francisco escreveu em uma carta que acompanhava o decreto, que havia um "desenvolvimento doutrinário" mostrando que alguns ministérios, como os de leitor e acólito, estão enraizados no batismo ao invés de serem trampolins para o sacerdócio ordenado.

"Oferecer a leigos de ambos os sexos a possibilidade de aceder ao ministério de acólito e leitor, em virtude da sua participação no sacerdócio baptismal, aumentará o reconhecimento, também através de um ato litúrgico [instituição], da preciosa contribuição que muitos leigos fazem, incluindo as mulheres, a vida e a missão da Igreja", apontou o papa.

O papa Francisco escreveu em sua carta de 2020, Querida Amazônia, que queria que a Igreja outorgasse mais papéis oficiais às mulheres. Esta decisão parece estar alinhada com essa prioridade.

Isso tem alguma coisa a ver com a ordenação de mulheres?

Depende de quem você perguntar. Em sua carta de 11 de janeiro, o papa Francisco se referiu à declaração de 1994 do papa João Paulo II de que as mulheres nunca poderiam ser ordenadas sacerdotes. Francisco escreveu: "Se, com relação aos ministérios ordenados, a Igreja 'não tem poder de forma alguma para conferir ordenação sacerdotal às mulheres'... é possível para ministérios não ordenados, e hoje parece apropriado superar essa reserva".

Em um comunicado à imprensa, a Conferência de Ordenação de Mulheres (WOC), um grupo que defende a ordenação de mulheres como sacerdotes, disse que a conferência acolheu o reconhecimento do papa de que "alguns ministérios na Igreja são fundados no sacerdócio comum de todos os batizados. A WOC ora para que a Igreja siga essa lógica, que é uma teologia sólida, até sua conclusão natural: que todos os gêneros 'se revestiram de Cristo' por meio do sacramento do batismo e não devem ser impedidos de cumprir um chamado autenticamente discernido para a ordenação".

O que acontece agora?

Visto que tão poucos bispos no mundo acolhem leigos para esses ministérios de forma permanente e fora do seminário, é difícil dizer o quanto mudará o ambiente eclesial. É possível que o novo decreto aumente o interesse e a consciência desses papéis e, assim, torne a prática de nomear mulheres mais comum, mas no final das contas os bispos ainda irão aprovar aqueles em sua diocese que podem estar permanentemente instalados nesses ministérios.

A diferença agora é que os bispos que desejam excluir as mulheres do serviço no templo não terão apoio legal. Em vez disso, teriam que provar que as mulheres que se apresentam para ingressar nesses ministérios não são qualificadas, o que seria mais difícil.

*Colleen Dulle é produtora assistente de áudio e vídeo na América. @ColleenDulledulle @americamedia.org



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