Coronavírus

18/01/2021 | domtotal.com

Vacinação avança, mas OMS alerta para 'catástrofe moral' por distribuição desigual

Mais de 40 milhões já receberam vacina no mundo, embora restrições estejam mantidas

Países pobres receberam apenas 25 doses de vacinas e preocupa a OMS
Países pobres receberam apenas 25 doses de vacinas e preocupa a OMS (Alain Jocard/AFP)

Em todos os continentes, os países fazem esforços para acelerar a vacinação de suas populações, numa corrida para conter a pandemia de Covid-19, alcançando o número de 40 milhões de vacinas administradas. Enquanto países ricos garantem suas doses, cresce a preocupação com a desigualdade na distribuição dos imunizantes, que deixa os países pobres mais vulneráveis ao vírus.

Este desequilíbrio no acesso às vacinas fez o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, fazer um apelo à comunidade internacional para tomar ações para garantir uma distribuição mais equitativa das vacinas. Segundo ele, o mundo está "à beira de uma catástrofe moral" em meio ao processo desigual de imunização. "Tenho que ser franco, o preço deste fracasso será pago com vidas nos países mais pobres do mundo", declarou. "A emergência recente de novas variantes mais contagiosas torna a rápida e equitativa distribuição das vacinas ainda mais importantes", ressaltou.

Na abertura da reunião anual do Conselho Executivo da entidade, Tedros afirmou que "não apenas essa abordagem do 'eu primeiro' deixa os mais pobres e vulneráveis em risco, mas também é autodestrutível", acrescentando que "essas medidas vão somente prolongar a pandemia". O chefe da OMS disse que, até o momento, quase 40 milhões de doses foram aplicadas em nações desenvolvidas, enquanto apenas 25 foram distribuídas em apenas um país pobre. "Não são 25 milhões, nem 25 mil, apenas 25", lamentou.

O líder da OMS também revelou que a iniciativa Covax, que visa acelerar a imunização global, deve começar a entregar as primeiras doses em fevereiro e buscará entregar mais 2 bilhões em todo o planeta. "Alguns países e empresas continuam priorizando acordos bilaterais, contornando a Covax, impulsionando os preços e tentando furar a fila", criticou

A OMS e a Aliança para a Vacinação (Gavi) implementaram o mecanismo Covax para distribuir vacinas contra a Covid-19 aos países mais pobres, mas o sistema sofre com a tendência dos países ricos de olhar para si mesmos e com a falta de financiamento. O objetivo da OMS é fornecer doses para 20% da população dos países que participam do Covax antes do fim do ano. A agência da ONU espera enviar as primeiras vacinas no final de janeiro ou em fevereiro.

Segundo ele, 44 acordos desse tipo foram firmados no ano passado e 12 em 2021 até agora. "Essa situação é agravada pelo fato de que a maior parte das fabricantes priorizou aprovação regulatória nos países onde os lucros são maiores, ao invés de destinar as doses para a OMS. Isso pode atrasar as entregas da Covax e criar o cenário que para a qual ela foi criada a evitar: desordem, mercado caótico, resposta não coordenada e contínuos problemas sociais e econômicos", ressaltou.

O diretor-geral da Organização pediu aos produtores que deixem os países compartilharem doses das vacinas e exortou governos a apenas usarem imunizantes que cumpram "rigorosos" critérios internacionais de segurança e eficácia. "Meu desafio para todos os Estados membros é garantir que, quando o dia mundial da saúde chegar, em dezembro, as vacinas para a covid-19 já estejam sendo aplicadas em todos os países", pontuou.

Avanços e entraves

O avanço da vacinação tem enfrentado alguns obstáculos, embora alguns países tenham conseguido sucesso no planejamento para vacinar a população. Até o momento, ao menos 60 países, ou territórios, que representam 61% da população mundial, lançaram suas campanhas de vacinação. Destes, 11 concentram 90% das doses injetadas.

Israel é, de longe, o país mais adiantado em relação à sua população. Foram utilizadas 2,43 milhões de doses em 2,12 milhões de pessoas, ou seja, 24,5% da população. Em torno de 3,6% dos israelenses já receberam as duas doses consideradas necessárias para uma boa proteção.

Em quantidade, os Estados Unidos lideram, com 12,28 milhões de vacinas administradas em 10,60 milhões de pessoas (3,2% da população), à frente da China, com mais de 10 milhões de doses. Na Europa, o Reino Unido foi o primeiro a começar a vacinar, no início de dezembro. O país aplicou 4,31 milhões de doses em 3,86 milhões de pessoas, o correspondente a 5,7% da população total.

Atrás do Reino Unido, estão dois países da União Europeia: Itália (1,15 milhão) e Alemanha (1,05 milhão). Os países do bloco injetaram mais de cinco milhões de vacinas em pelo menos 1,2% de seus habitantes. Em relação à populaçao, a Dinamarca (2,9%) lidera os 27 do bloco

No Brasil, a vacinação começou no domingo, em São Paulo, após a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de dois imunizantes. Nesta segunda, os estoques da vacina Coronavac já disponíveis no país começaram a ser distribuídos para os estados.

Sete vacinas em circulação

Atualmente, há sete vacinas circulando no mundo. Todas exigem duas doses para serem totalmente eficazes. As desenvolvidas pela Pfizer/BioNTech (EUA-Alemanha) e Moderna (EUA) são as mais usadas na América do Norte, na Europa, em Israel e em países do Golfo. Já a vacina britânica AstraZeneca/Oxford prevalece no Reino Unido e na Índia. Este último país também aplica outra vacina desenvolvida pelo laboratório local Bharat Biotech. A vacina Sputnik V do centro russo Gamaleya está sendo administrada na Rússia, na Argentina, em Belarus e na Sérvia.

Em relação às vacinas chinesas, além do próprio gigante asiático, a da Sinopharm é administrada nos Emirados Árabes Unidos, no Bahrein, nas Seychelles e na Jordânia; e a da Sinovac, na Indonésia, no Brasil e na Turquia.

Depois de vacinar profissionais da saúde e residentes e funcionários de lares para idosos, a França lançou a segunda fase de sua campanha para inocular sua população contra o vírus. É a vez de cerca de 5 milhões de pessoas com mais de 75 anos, além de 800 mil pessoas com patologias de "alto risco", como insuficiência renal crônica, ou em tratamento de câncer.

Atingido por uma variante do vírus até 70% mais contagiosa segundo autoridades sanitárias, o Reino Unido também decidiu acelerar sua campanha de vacinação, aberta a partir de hoje a todas as pessoas com mais de 70 anos. Além disso, tornou obrigatória a apresentação de teste negativo e de quarentena para quem viaja para o país.


AFP/Agência Estado/Dom Total



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