Religião

19/01/2021 | domtotal.com

Brasil das Intolerâncias

Pessoas intolerantes são muito perigosas ao convívio social, à coletividade

A menina Kayllane Campos foi atingida na testa por uma pedra em junho de 2015 ao sair de um culto do candomblé com sua avó, Kátia Marinho
A menina Kayllane Campos foi atingida na testa por uma pedra em junho de 2015 ao sair de um culto do candomblé com sua avó, Kátia Marinho (Tomaz Silva/ Agência Brasil)

Tânia da Silva Mayer*

Quando falamos em intolerância é preciso considerar que não se trata de um ser dotado de corpo e espírito andando e promovendo barbaridades em diferentes lugares deste nosso país. A intolerância é o sintoma que diferentes pessoas podem apresentar em maior ou menor grau. Por isso, é importante enfatizar que uma situação só pode ser caracterizada como uma situação de intolerância porque, necessariamente, verifica-se a participação e presença de pessoas intolerantes. Essas pessoas podem manifestar a intolerância por si mesmas ou aparelhadas aos sistemas, organismos, instituições e grupos que venham a representar.

Nesse aspecto, não é difícil constatar o sintoma da intolerância graças às manifestações fáceis de serem identificadas. Uma pessoa intolerante apresenta alto grau de rigidez, isto é, em nada é flexível, não apresenta nenhuma maleabilidade para com qualquer coisa que não se projete na órbita do seu mundo, suas crenças e ideologias. Nesse bojo, essas pessoas acabam se relacionando de maneira intransigente com aqueles diferentes, são incapazes de ceder ou de se deixarem pressionar, escusam-se em qualquer gesto de condescendência ou conciliação com os seus contrários. Por essas razões, acabam flertando e praticando diferentes faces da violência, inclusive aquela que pode levar o outro à morte definitiva.

Pessoas intolerantes são muito perigosas ao convívio social, à coletividade. Como são incapazes de negociar com as diferenças estão sempre colocando a existência de pessoas e grupos em risco. Os noticiários não se cansam de informar sobre casos em que a vida é ceifada por causa da dívida de apenas um real, porque se questionou uma manobra no trânsito, porque conversou com a mulher do vizinho, porque votou no outro candidato ou porque denunciou a corrupção de alguém poderoso. Além disso, ainda chegam até nós muitas notícias sobre pessoas que foram agredidas verbal e fisicamente porque têm outra ideologia ou, simplesmente, porque professam uma fé desacreditada pelo intolerante seu agressor.

No próximo dia 21 de janeiro celebraremos o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Pela proporção que se verifica, pode-se dizer que essa prática se tornou estrutural em nosso país. Apesar de a Constituição Federal assegurar a liberdade de crença e consciência como um direito inviolável, pessoas de diferentes matrizes religiosas são vítimas de xingamentos e agressões, não só por indivíduos, mas por outros grupos religiosos ou ideológicos ou ainda por representantes públicos. Religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, são constantemente alvo de fanáticos e intolerantes dispostos a agredir pessoas e provocar danos aos patrimônios e locais de culto dessas religiões. Nestes casos, a intolerância religiosa é agregada ao crime de racismo, em decorrência do preconceito relativo às suas matrizes africanas e ao fato de muitos adeptos e fiéis serem negros e negras.

Mas a intolerância religiosa, vale ressaltar, é manifestada não apenas contra as religiões afro-brasileiras, judeus, budistas, islamistas, entre outros, também sofrem nas mãos de intolerantes. É estarrecedor saber que grupos de ramo pentecostal de igrejas cristãs, evangélicas ou católica, estejam por trás da perseguição e da violência praticada contra essas outras religiões minoritárias, muitas vezes aliadas ao crime organizado. O próprio Jesus Cristo, fundamento da fé cristã, ensinou o amor, inclusive aos que pensam e agem de modo diferente dos cristãos. Além disso, assertou que quem pratica o bem, ainda que não confesse a fé na sua revelação, está ao lado dos cristãos e não contra eles (cf. Mc 9,39).

Ao longo deste ano, as igrejas do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) proporão mais uma campanha da fraternidade ecumênica, desta vez, refletindo, debatendo e propondo práticas ao redor do tema "Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor". Seja um tempo favorável para criar a cultura do diálogo, atitude possível e eficaz contra a rigidez dos intolerantes que faz do nosso país multiétnico, multicultural, multirreligioso um microcosmo de ignorância, intolerância e violência.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com



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