Religião

19/01/2021 | domtotal.com

O trumpismo se infiltrou na Igreja Católica nos Estados Unidos

Historiador da Igreja, Massimo Faggioli, avalia o cenário eclesial estadunidense com a mudança presidencial em entrevista

Biden fez da fé católica um ponto central de sua campanha, não deixando dúvidas sobre suas raízes e o que o sustenta
Biden fez da fé católica um ponto central de sua campanha, não deixando dúvidas sobre suas raízes e o que o sustenta (Andrew Cabllero- Reynolds/AFP)

Jesus Bastante
RD

Massimo Faggioli é um dos maiores conhecedores da "alma religiosa" dos Estados Unidos e um dos intelectuais católicos que mais e melhor destacaram os perigos do trumpismo e sua relação com os setores mais ultraconservadores (senão sedevacantistas) da Igreja dos Estados Unidos, e as razões de seus ataques ao papa Francisco. Em 20 de janeiro, coincidindo com a posse do novo presidente dos Estados Unidos, Faggioli publica (por enquanto em inglês e italiano) Biden e o catolicismo nos Estados Unidos.

Falamos com ele em exclusiva sobre o efeito Trump, o apoio da mídia ultracatólica ao ataque no Capitólio e como a eleição de Biden poderia mudar as relações EUA-Vaticano. Além disso, o que significa a eleição de quem será o segundo católico a se tornar presidente da nação mais poderosa do planeta?

- O que significa a eleição de Joe Biden para os católicos norte-americanos? Ele é o primeiro presidente católico da história depois de JFK

Nos primeiros duzentos e trinta anos de sua história, a grande maioria dos presidentes dos Estados Unidos eram membros de igrejas cristãs não católicas: episcopal, presbiteriana, metodista e batista. Biden faz parte da história de um grupo religioso específico na América, uma igreja há muito tempo considerada estranha e hostil ao projeto americano. Ele não é apenas o segundo presidente católico eleito depois de Kennedy (1961-1963), mas também o quarto a se candidatar às eleições (Al Smith em 1928 e John Kerry em 2004), para ocupar cargos políticos. É uma questão também moral e religiosa, como vemos que acontece com a presidência americana, em um momento de transição delicada para a nação e para a Igreja. Biden fez da fé católica um ponto central de sua campanha, não deixando dúvidas sobre suas raízes e o que o sustenta.

- Por que tantas críticas ao líder democrata por um setor particular do catolicismo norte-americano?

O tema central da crítica é o aborto, já que Biden é a favor do aborto legal, mas recentemente novas questões também surgiram sobre a liberdade religiosa e os direitos de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. Os bispos americanos tinham grandes esperanças em Trump e no final eles saíram não apenas derrotados, mas severamente prejudicados em sua autoridade, tendo ganho muito pouco com esta presidência. Do regime fascista de Mussolini, a Igreja e o papado obtiveram, com grande custo (em grande parte pago por outros), algumas conquistas, como a Concordata e a resolução da "Questão Romana". Em vez disso, a Igreja americana não recebeu nada de Trump, exceto por um punhado de juízes da Suprema Corte que deixaram claro que a revogação da legalização do aborto não será alcançada por meios legais.

- Alguns líderes cristãos (católicos e protestantes) teriam que se desculpar por seu apoio, até o fim, às políticas de Donald Trump?

Por mais doloroso que seja admitir que esta violenta insurreição teve católicos nas fileiras dos insurgentes. E não só isso: também houve uma tentativa de dar uma justificativa moral para esse ataque pela mídia católica (mais ou menos independente) dos Estados Unidos, como EWTN, Church Militant e Life Site News. O trumpismo se infiltrou na Igreja Católica e tem contado, desde 2015, com o apoio de membros do clero (incluindo alguns bispos), políticos e intelectuais católicos que não esconderam suas simpatias por uma pessoa que prometeu proteção especial à Igreja contra o poder político.

- Houve "razões de fé" após o ataque ao Capitólio?

O movimento que apoia Trump dá voz a ressentimentos de vários tipos: econômicos para um país em declínio no mundo onde os Estados Unidos não são mais o único poder; cultural pela crescente separação entre áreas urbanas e suburbanas, de um lado, e áreas rurais e desindustrializadas, do outro; poder religioso na luta desenfreada entre as almas religiosas e secularistas. Mas também existe – e este é o fator novo desde 2008 – um ressentimento étnico e racial que surge das margens e entrou na mídia. A retórica triunfante da "eleição roubada" nada mais é do que a rejeição de um resultado eleitoral determinado pelo fato de as minorias afro-americanas e latinas terem votado esmagadora e amplamente em Biden. As tentativas dos republicanos (durante uma década) de frustrar os direitos de voto das minorias falharam, pelo menos nas eleições de 2020. Os discursos sobre identidade racial e religião estão totalmente interligados nos Estados Unidos.

- Como serão as relações EUA-Vaticano com Biden?

Acredito que as relações serão boas porque tanto o papa quanto Biden são dois líderes em um momento de dificuldades políticas e culturais nas duas comunidades que representam. O Vaticano queria acabar com a presidência de Trump, o que tem sido um desafio muito sério para a estabilidade do Sistema Internacional. Mas seja quem for o papa e o presidente, sempre houve diferenças importantes entre o Vaticano e os Estados Unidos no nível político internacional que surgirão com o tempo.

- Parte da Igreja dos EUA está por trás dos ataques a Francisco ou é apenas uma coisa de Viganò e Steve Bannon?

Viganò e Steve Bannon são apenas a ponta do iceberg: há um golpe no catolicismo tradicionalista, dos quais Biden e Francisco são os inimigos. Não é apenas uma questão de identidade política, mas também eclesial e teológica. Aqueles que agora se opõem a Biden são os mesmos que tentaram fazer o papa renunciar em 2018: para deixar claro que esses católicos não estão jogando segundo as regras da política ou da Igreja.

- Alguns eclesiásticos e líderes de grupos ultraconservadores estão até dizendo que não vão dar a comunhão a Biden por causa de sua posição sobre o aborto...

A eleição de Biden poderia finalmente encerrar as "guerras culturais". A comunhão é algo que já vimos no passado: a questão do aborto é uma questão moral séria, sobre a qual a Igreja deve se fazer ouvir, mas não recorrendo à "guerra dos anfitriões" que no final só ressente a Igreja.

Publicado originalmente por Religión Digital


Tradução: Ramón Lara



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