Religião

19/01/2021 | domtotal.com

Uma semana muito louca

Sete dias para marcar a história

A autoconfiança da Marvel em seu próprio taco é de dar inveja à obstinação de qualquer terraplanista
A autoconfiança da Marvel em seu próprio taco é de dar inveja à obstinação de qualquer terraplanista (Divulgação/Walt Disney Germany)

Alexis Parrot*

Na quarta-feira (13) a bomba estourou. A chef Paola Carosella anunciou para seus mais de quatro milhões de seguidores no Instagram a decisão de deixar a banca de jurados do Masterchef. Em nota divulgada à imprensa, justificou-se com a necessidade de dedicação exclusiva aos seus negócios, mas seríamos muito ingênuos de acreditar ser esta a única causa do desligamento.

A notícia surge no rastro de uma temporada decepcionante do reality, aliada ao fato de que seu projeto solo na Band, gestado durante dois anos, não sairá mais do papel. A titular do restaurante Arturito sempre funcionou como o fiel da balança, mediando com sobriedade o histrionismo de seus companheiros de júri. Ao contrário destes (que se prestam a ceder a imagem para vender praticamente qualquer coisa), a parcimônia e a coerência sempre pautaram sua atuação, no programa ou nos intervalos comerciais.

O baque é gigantesco para a Band e como a situação será contornada ainda constitui uma incógnita. Certamente haverá uma substituição, mas pisar nas pegadas de Paola é tarefa inglória para qualquer um que assuma a tarefa, tão fortemente a chef argentina soube imprimir-se no imaginário e no coração dos brasileiros. O Masterchef nunca mais será o mesmo.

Para matar a saudade do programa (e de seus bons tempos), venho assistindo à décima edição da versão italiana, no ar desde dezembro do ano passado. Mesmo com as restrições impostas pela pandemia, a atração não abandonou seu formato raiz e o resultado é de primeira linha – o oposto do que foi oferecido no ano passado aqui no Brasil, com novos e fraquíssimos concorrentes a cada semana. Os episódios são publicados no youtube todo sábado, um dia após a transmissão na TV da Itália.     

Na sexta (15), experimentamos algum alento: os Estúdios Marvel estrearam sua primeira série de TV, a esperada WandaVision. A promessa de que a história de amor entre a bruxa mutante Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e o androide Visão (Paul Bettany) continuaria mesmo após o desaparecimento deste último, como visto em Os vingadores – ultimato, vem movimentando fãs desde o anúncio da produção, em abril de 2019.  

Sem introdução ou explicação, somos tragados para a intimidade da dupla, esdruxulamente retratada como típico casal do pós-guerra em uma cidadezinha do interior dos EUA. Porém, estão presos (?) não nos anos 50, mas em uma sitcom norte-americana dos anos 50, com direito a claque e a todos os clichês do formato. Com citações explícitas à série clássica A feiticeira e fotografia em preto e banco, o programa intriga e encanta já na largada e deixa claro a que veio. É uma aventura estilística, poderoso exercício de imaginação e uma declaração de amor à televisão.

Das pouquíssimas pistas dadas até agora (nos dois primeiros episódios, disponíveis no Disney+), a única certeza é que a organização criminosa Hydra tem culpa no cartório. O ritmo, a falta de cor e as referências poderiam afastar uma audiência mais jovem, mas a Marvel se permitiu experimentar sem amarras, tão cristalizado está o conceito do UCM. A autoconfiança do estúdio em seu próprio taco é de dar inveja à obstinação de qualquer terraplanista.  

No mais, como criticar a iniciativa? Se as novelas da Record, aprisionadas na Bíblia há muitos anos, só fazem aumentar a audiência e o faturamento, por que não enfiar Wanda e Visão numa TV em preto e branco? Por fim, só a presença de Kathryn Hahn no elenco já valeria o preço da assinatura. Ver o talento da atriz de produções cult como Transparent e I know this much is true reconhecido pela indústria do blockbuster significa ver renovada a esperança na humanidade.

Seguindo em frente com o calendário, dois eventos marcaram o domingo (17). Primeiro, a estreia de mais um desdobramento da já não tão nova versão para o velho show de calouros, The voice. Dessa vez, o programa abre espaço para os maiores de sessenta anos em interessante guinada conceitual.     

O eclético elenco de (bons) concorrentes fez valer o programa; já a performance dos jurados, nem tanto. No conjunto, Mumuzinho destoava – vibrante e espontâneo como sempre, estava no extremo oposto de Ludmilla, recém-chegada e ainda se aclimatando.

O sertanejo Daniel, de tão duro, parecia estar empalado. Além dos cabelos pintados de um preto que lembrava a asa da graúna (a quem ele acha que engana?), surgiu com o rosto todo esticado, com exceção da altura dos olhos, de pele encarquilhada e cheia de rugas. A disparidade chamou atenção e exige providências urgentes: ou ele muda de esteticista ou troca o fornecedor do botox.

Enquanto isso, Claudia Leitte segue sendo Claudia Leitte, empunhando orgulhosamente a bandeira da nulidade.

A outra efeméride domingueira foi a transmissão ao vivo da reunião da Anvisa, que deliberou pela tão esperada autorização das vacinas contra a Covid. Alçados pela primeira vez a campeões de audiência, os diretores da autarquia pareciam estar recebendo o Oscar durante a leitura dos votos.

Ainda que cientes da responsabilidade de seus papéis naquele momento histórico, erraram na dosimetria do autoelogio e transformaram uma reunião técnica em palanque de prefeitura do interior. Sabe a série American Gods (que já nem segue mais tão relevante após a primeira temporada)? Pois é, os funcionários da Anvisa parecem ser os novos brazilian gods, tão exageradamente congratulados foram por seus diretores – por simplesmente cumprirem o trabalho para o qual foram contratados, além de serem pagos com o nosso dinheiro.

Não deu meia hora após a aprovação das vacinas ter atingido a maioria dos votos e João Dória, responsável de fato pela Coronavac ter aportado por aqui, já estava vacinando a primeira brasileira. Candidatíssimo à presidência em 2022, deu a rasteira mais bem dada até agora em Bolsonaro que, pela primeira vez (na vida?) conteve a habitual disenteria verborrágica e nos poupou dos impropérios e palavrões que certamente pronunciou no particular.     

Parafraseando o insalubre ministro Pazuello ("a vacinação começa na hora H do dia D"), Dória – sempre mais publicitário do que político – declarou, indicador e dedo médio suspensos no ar, como se fosse uma espécie de Churchil do sanitarismo: "Hoje é o dia V. Dia da vitória, dia da vacina, de todos os brasileiros". Seguindo a lógica torta de marqueteiro, deveria ter dito "de todos os vrasileiros".

Como aquele personagem do Pânico na TV do Eduardo Sterblitch, o governador de São Paulo se acha mesmo o melhor melhor do mundo. Não satisfeito em patrocinar a primeira aplicação da vacina em solo pátrio, foi buscar uma índia em Guarulhos para dizer que também foi o primeiro a vacinar um indígena. Até quando acerta, peca pelo excesso.

A segunda-feira (18) viu o barco seguir e mais um emocionante capítulo da completa incompetência do ministro da saúde veio à tona. A entrega dos lotes da vacina para cada estado foi tão confusa (com atrasos e cancelamentos seguidos) que apenas doze capitais puderam começar ontem ainda a vacinação. A irresponsabilidade do governo Bolsonaro salta aos olhos de maneira inequívoca, finalmente. Mesmo que a imunização tenha começado, não há previsão de continuidade ou mesmo uma data para retomada, após o esgotamento dessas míseras seis milhões de doses disponíveis na praça.

Para fechar o ciclo, na quarta-feira (20) testemunharemos a posse de Joe Biden como presidente dos EUA. Se será tranquila ou se Washington novamente se tornará campo de batalha, veremos. Mesmo com apenas algumas horas ainda como titular da Casa Branca, Trump é imprevisível e tudo pode acontecer.

Que sobrevivamos todos para contar essas histórias.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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