Religião

22/01/2021 | domtotal.com

Temporalidades e ciclos: o algo a dizer de algumas religiões

Como seres simbólicos que somos, damos significado às marcações temporais e as religiões se ocupam também disso

Estátua do deus Cronos segurando uma ampulheta no cemiterio de Bolonha, Itália
Estátua do deus Cronos segurando uma ampulheta no cemiterio de Bolonha, Itália (Unsplash/Luigi Boccardo)

Felipe Magalhães Francisco*

Cantou o compositor e cantor Belchior, em sua canção Comentário a respeito de John, que "[...] o tempo andou mexendo com a gente, sim". Questão insolúvel para a filosofia, o tempo, de fato, é um algo que permeia nossa existência humana: uma vez que nascemos e, incontornavelmente, morreremos, nossa vida é toda ela pontuada por marcações de temporalidade. Mas, em grande medida, não nos deixamos escravizar pelo tempo, tal como se fosse uma fatalidade – isso, apesar do sistema capitalista, que nos impele, a todo momento, a essa situação de fatalismo temporal. Como seres simbólicos que somos, damos significado às marcações temporais, desde o nascer até o morrer, o que nos leva a poder dizer que o tempo faz parte de nosso mundo humano.

As religiões se ocupam do humano. Mesmo sendo um serviço àquilo que muitos definem como sendo o sagrado, o humano é matéria religiosa fundamental. Se, pois, algo importa à humanidade, as religiões vão se ocupar desse algo, atrelando-o às suas hermenêuticas metafísicas, transcendentais, sagradas... Assim também o é com o tempo. Não há religião que não esteja, de alguma maneira, inserida e pautada nos ritmos que compreendemos de tempo: desde suas narrativas fundadoras, às ritualidades que formam sua estrutura e que compõem seu sistema de crenças.

Para além do corriqueiro das religiões, envolvidas nas dinâmicas do tempo, elas também têm reflexões e teologias a respeito do tema. O tempo é, também, elemento intrínseco às perguntas fundamentais do humano, sobre a origem e destino de todas as coisas. E isso faz com que o mais específico e singular de cada religião a interpele a ter uma palavra hermenêutica a respeito disso. Eternidade, ressurreição, reencarnação, transmigração, por exemplo, compõem a semântica religiosa que necessariamente influenciam o imaginário dos adeptos das mais distintas religiões, o que traz consequências efetivas para o modo de viver nesta concretude histórica.

O Dom Especial desta semana se dedica a refletir sobre questões ligadas à temporalidade e aos ciclos, na perspectiva de três tradições religiosas. Guaraci M. dos Santos e Gleydson de Oliveira Souza, retomando a recente virada de ano, propõem o artigo O ano novo e a rainha do mar: a mudança de ciclos nas águas do Brasil, no qual refletem sobre a fluidez e o aspecto sincrético do culto à Iemanjá, e o significado disso para a vivência de mudanças de ciclos. No segundo artigo, A passagem do tempo no Islam: rituais de passagem e adoração a Deus, Francisory C. Barbosa lança um olhar para as mudanças de tempo e festividades dentro e fora do calendário mulçumano, refletindo sobre a categoria de tempo como fundamental para a compreensão da cosmologia de um grupo social. Por fim, Romero Bittencourt e Carvalho propõe o terceiro artigo: Do samsara ao ciclo das eras: a abrangente visão hindu do tempo e sua impermanência, no qual reflete sobre as dimensões macro e micro dos ciclos, a partir de textos fundamentais para a ampla tradição hindu.

Boa leitura!



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