Religião

22/01/2021 | domtotal.com

Do samsara aos ciclos das eras - a abrangente visão hindu do tempo e sua impermanência

A visão que domina o hinduísmo entende o tempo como uma série de ciclos, tanto individuais quanto cósmicos

Um dia da vida Brahma, que, como nós, nasce e  morre, consiste em mil ciclos de quatro yugas, ou eras
Um dia da vida Brahma, que, como nós, nasce e morre, consiste em mil ciclos de quatro yugas, ou eras (Unsplash/Raimond Klavins)

Romero Bittencourt e Carvalho*

Especialmente após este desafiador 2020, a virada do dígito trouxe com mais ênfase a esperança de um novo ano menos conturbado, com problemas ao menos mais próximos do que já estávamos acostumados a enfrentar nas últimas décadas. Curiosamente, esta perspectiva cíclica do tempo contrasta com a visão amplamente difundida e percebida no ocidente do tempo meramente cronológico. Tudo começa num ponto, evolui e termina, ainda que alguns filósofos, como o alemão Peter Sloterdijk, tenham propostos modelos de entendimento do tempo que equilibram a visão cíclica com a cronológica. A própria Bíblia parece seguir uma concepção narrativa cronológica, com um início (Genesis) e um fim (Apocalipse) muito bem pontuados. A visão que domina o hinduísmo, porém, é bastante distinta, entendendo o tempo como uma série de ciclos, tanto individuais quanto cósmicos, e a compreensão desta percepção influi diretamente no modo em que podemos apreender a realidade.

É sempre necessário destacar que não é possível determinar uma "visão hindu" ou "perspectiva hindu" de algo. Como bem descreve o teólogo cristão Raimon Pannikar, em seu livro Espiritualidad hindu: "Outro caráter do hinduísmo que salta imediatamente aos olhos é a multiplicidade mais variada e ainda contraditória de caminhos, seitas e confissões, além de sua pluralidade de escolas doutrinais; por isso pode-se dizer que ele é um ramalhete de religiões e não uma religião". Ancoradas na vasta literatura védica, encontram-se nestas tradições teísmo devocional, monismo, panteísmo, politeísmo, com liturgias e práticas absolutamente distintas e por vezes contraditórias.

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Porém, ainda assim, é possível apresentarmos conceitos que perpassam estas muitas tradições e dialogam com a ciclicidade que estamos tratando aqui. Entender o tempo cíclico pode mudar substancialmente a forma com a qual se lida com os fatos cotidianos e históricos. Afinal, se estamos passando por uma dificuldade já enfrentada, como o fascismo, por exemplo, isso pode ser visto como algo natural. Enfrentamos isso há 70 anos, há 40, há 20, enfrentaremos agora e voltaremos a enfrentar no futuro. A visão do tempo como algo cronológico apenas pode pressupor uma evolução constante dos elementos do mundo e do ser humano, mas isso deixa de ser uma realidade no tempo visto como algo substancialmente cíclico. Numa perspectiva mais íntima, um problema vivido há 10 anos e revivido agora na vida de alguém pode significar um obstáculo ainda não completamente superado, o que impede que o sujeito entre em seu próximo ciclo de obstáculos. E como o hinduísmo visualiza um fim para estes obstáculos? Apenas com o fim da ciclicidade e a volta a um lugar sem qualquer percepção de tempo.   

Para chegar neste ponto, comecemos então com um brevíssimo resumo do macrotempo e a cosmologia védica, como descrita no clássico Bhagavata Purana, um dos mais populares livros da literatura ancestral da Índia. O Bhagavata Purana descreve minuciosamente uma realidade transcendental eterna, incomensuravelmente maior, mais diversa e da qual a criação material se origina. Nesta criação material, possuidora de inúmeros universos e dimensões, é possível perceber a passagem do tempo, seus ciclos e, consequentemente, a dualidade. A duração de cada um destes universos dentro da matéria é manifesta em ciclos de kalpas. Uma kalpa é um dia da vida de Brahma, divindade presente em cada um dos universos como criadora. No panteão védico, Brahma ocupa um dos locais mais elevados, abaixo apenas de Shiva e Vishnu, que, na visão de muitas das tradições hindus, são personalidades do Absoluto, eternas. Um dia da vida Brahma, que, como nós, nasce e  morre, consiste em mil ciclos de quatro yugas, ou eras: Satya, Treta, Dvapara e Kali. O ciclo de Satya caracteriza-se pela presença da virtude, sabedoria e religiosidade, durando 1.728.000anos. Já na Treta-yuga, elementos negativos aparecem, e ela dura 1.296.000 anos. Na Dvapara-yuga, acentua-se o declínio da virtude e da religiosidade, com duração de 864 mil anos. E, por fim, em Kali-yuga, a yuga que estamos enfrentando nos últimos cinco mil anos, há um excesso de desavenças, ignorância e irreligião, com as verdadeiras virtudes sendo desvalorizadas. A boa notícia é que esta yuga é a menor, durando apenas 432 mil anos. Ao fim de Kali-yuga, volta-se ao início do ciclo, com a era dourada, Satya-yuga, novamente em curso. Após esse ciclo ocorrer por mil vezes, temos uma correspondência entre estas quatro yugas e um dia de Brahma, e o mesmo número corresponde a uma noite. Brahma vive cem desses "anos" e então morre. Pelos cálculos terrestres, estes "cem anos" totalizam 311 trilhões e 40 bilhões de anos terrestres. Algo praticamente impossível de ser mesurado por nós. O Bhagavata Purana descreve que há inúmeros Brahmas surgindo e desaparecendo como bolhas no oceano ininterruptamente. Afinal, após esta longa série de eras, os universos são recriados, em um ciclo eterno.

Assim chegamos aos micro-ciclos, que acometem a todos que estão presos à realidade material e sua percepção temporal: o samsara. Na polissemia do sânscrito, a palavra samsara pode ser traduzida como "indo, vagando, transmigrando, fluindo" ou ainda como "existência mundana, passagem, ilusão mundana". O conceito de samsara está intensamente presente em outras tradições originadas na Índia, como jainismo e budismo, e no hinduísmo, tanto nas correntes dualistas ou adualistas, monistas ou teístas devocionais, o samsara apresenta o mesmo conceito de ciclo de nascimentos e renascimentos. O rompimento com o samsara e a libertação deste tempo cíclico, chamada em sânscrito de moksa, é a grande meta da imensa maioria das tradições hindus, ainda que o método e o entendimento sobre o destino final desta libertação variem consideravelmente.

Em uma história do Mahabharata, provavelmente o livro mais popular entre muitas das tradições hindus, Yudhisthira Maharaja, um grande rei sábio, foi questionado por Yama, a personificação da morte, com a seguinte pergunta: "O que há de mais maravi­lhoso neste mundo?" Yudhisthira respondeu pronta­mente: "Todos os dias, centenas e milhões de entidades vivas entram no reino da morte. Mesmo assim, as que ficam as­piram por uma situação permanente. O que poderia ser mais maravilhoso do que isso?" (Mahabharata, Vana-parva 313.116). Na literatura védica, este inconformismo com a morte sempre foi visto como uma indicação da eternidade da alma. Em nosso inconsciente, não podemos aceitar a morte, pois intuímos o fato da nossa imortalidade. Nin­guém aceita facilmente a realidade da morte, porque o que morre de fato para entrar em outro ciclo é o corpo temporário, e não a alma eterna, como declara a Bhagavad-gita (2.20): "a alma é não-nascida, eterna e sempre existente". Ainda assim, sofremos, pois esse é o preço do apego ao corpo material e a tudo o que é cíclico, impermanente. A partir da busca pelo conhecimento, responsabilidade social e práticas espirituais, o hinduísmo de uma forma geral entende que se deve questionar, discriminar e encontrar a compreensão que torne a morte algo aceitável, almejando uma preparação para este momento. Assim, uma morte dotada de consciência espiritual, como uma elevada e poderosa experiência pessoal, pode dar sentido à vida e levar ao autoconhecimento, eventualmente libertando do ciclo de samsara. 

A tradição védica busca, portanto, na experiência prática, estruturar a vida da pessoa, por meio de vários caminhos espirituais (margas), para que ela possa experimentar a sua posição constitucional como alma espiritual (atma) e almejar estar novamente em um ambiente desprovido do conceito de tempo, de volta à sua origem transcendental, muito além dos corpos que ela adquire em sua experiência no samsara. Porém, para este processo ser possível, é fundamental entender inicialmente a presença dos grandes e pequenos ciclos na caminhada, tendo a disposição mental para superar cada obstáculo, entendendo seu propósito e nunca se afastando da meta, que é, como afirma o Vedanta-sutra, athato brahma-jijñasa, "questionar sobre a Verdade Absoluta". (Vedanta-sutra 1.1.1). Assim, chega-se à famosa oração da Brihadaranyaka Upanishad (1.3.28), que nada mais é que um pedido e também uma celebração à libertação final dos ciclos: asato ma sad gamaya / tamaso ma jyotir gamaya / mrityor ma 'mritam gamaya: "Do irreal, conduz-me ao real. Das trevas, conduz-me à luz. Da morte, conduz-me à imortalidade".

*Romero Bittencourt e Carvalho é doutorando e mestre em Ciências da Religião pela PUC-MG e graduado em Comunicação Social pelo UNI-BH



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