Cultura

22/01/2021 | domtotal.com

Aragem

A poesia, na ordem do dia, é força estrondosa da palavra ecoada

Bandeiras americanas decoram o 'Field of Flags' no National Mall perto do Capitólio dos EUA no início da manhã antes da posse do presidente eleito dos EUA, Joe Biden, em 20 de janeiro de 2021 em Washington, DC
Bandeiras americanas decoram o 'Field of Flags' no National Mall perto do Capitólio dos EUA no início da manhã antes da posse do presidente eleito dos EUA, Joe Biden, em 20 de janeiro de 2021 em Washington, DC (Stephanie Keith/AFP)

Eleonora Santa Rosa*

Alegria, alegria, pela posse de Biden/Harris, emocionante, respeitosa e fraterna. Gabinete de sólida formação e composição, nomes e trajetórias que enchem nossos olhos de esperança, que espelham a construção do país por seus mais diversos cidadãos. Que sensação de alívio a saída do personagem baixo-astral, arrogante e autoritário, de péssima índole, comportamento e atitude, o mitômano saído pela porta dos fundos, cuja gestão será lembrada pelo exemplo máximo pernicioso da mistura de ignorância, estupidez, narcisismo, inveja e perversidade.

Que satisfação ver a poesia na ordem do dia, a força estrondosa da palavra ecoada pela voz da jovem Amanda Gorman, de 22 anos, belíssima surpresa, autora do impactante poema The hill we climb. Lady Gaga e outros artistas, ARTISTAS, marcando presença e transformando uma cerimônia de difícil construção, em virtude da pandemia e da recente invasão dos bárbaros ao Capitólio, numa celebração de alto astral, espantando os maus fluídos do antecessor.

Humanidade, empatia, dignidade, solidariedade, ética, sensibilidade, valores presentes no discurso de Biden para os de casa, sobretudo, e para o mundo. Mensagens de apaziguamento, de início de processo de cicatrização, de busca de convergência, de compreensão, de entendimento na diferença, de acolhimento e pedido de união. Fraturada nação americana que necessita de um extenso e profundo processo de perdão e superação, pelas marcas abissais do racismo, do colonialismo, dos golpes perpetrados contra tantos, do supremacismo, do genocídio indígena, das guerras, enfim, de um passivo do tamanho da nação.

Democracia testada, recentemente alboroada de modo chocante pela cavalaria trumpista. Machucada, mas não ferida de morte, usará as armas da sabedoria, da inteligência, da ciência, da cultura, da compaixão e da misericórdia para superar o trauma. Passo à frente, sigamos adiante, mesmo no nosso caso, apesar de um governo negacionista, que nos envergonha e empobrece, desnudado em sua simploriedade e brutalidade perante o mundo.

Voltemos à posse, ao poema de Amanda, desejando, fervorosamente, que nos sirva de inspiração:

Quando chega o dia, nos perguntamos,
onde podemos encontrar luz nesta sombra sem fim?
A perda que carregamos,
um mar que devemos navegar
Nós enfrentamos a barriga da besta
Aprendemos que o silêncio nem sempre é paz
E as normas e noções
do que é justo
Nem sempre é justiça
E, ainda assim, o amanhecer é nosso
antes de sabermos disso
De alguma forma nós fazemos isso
De alguma forma, nós resistimos e testemunhamos
uma nação que não está quebrada
mas simplesmente inacabada
Nós, os sucessores de um país e de uma época
Onde uma garota negra magra,
descendente de escravos e criada por uma mãe solteira
pode sonhar em se tornar presidente
apenas para se descobrir recitando para um
E sim, estamos longe de ser polidos
longe de sermos intocados
mas isso não significa que estamos
nos esforçando para formar uma união perfeita
Estamos nos esforçando para formar uma união com um propósito
Para compor um país comprometido com todas as culturas, cores, personagens e
condições do homem
E, então, levantamos nossos olhares não para o que está entre nós
mas para o que está diante de nós
Fechamos a divisão porque sabemos que, para colocar nosso futuro em primeiro lugar,
devemos primeiro colocar nossas diferenças de lado
Abaixamos nossas armas
para que possamos estender nossos braços
uns para os outros
Não queremos o mal a ninguém e queremos a harmonia para todos
Deixe o mundo se disserem que isso não é verdade:
Que mesmo enquanto sofríamos, crescíamos
Que mesmo sofrendo, esperávamos
Que mesmo cansados, tentávamos
Que estaremos para sempre ligados, vitoriosos
Não porque nunca mais conheceremos a derrota
mas porque nunca mais semearemos a separação
A Escritura nos diz para imaginar
que todos se sentarão sob sua própria videira e figueira
E ninguém os assustará
Se quisermos viver de acordo com nosso próprio tempo
Então a vitória não estará na lâmina
Mas em todas as pontes que fizemos
Essa é a promessa da clareira
A montanha que escalamos
Se apenas ousássemos
É porque ser americano é mais do que um orgulho que herdamos,
é um passado em que entramos
e como consertamos
Vimos uma força que destruiria nossa nação
em vez de compartilhá-la
Iria destruir nosso país se isso significasse atrasar a democracia
E esse esforço quase teve sucesso
Mas, embora a democracia possa ser periodicamente adiada
Ela nunca poderá ser permanentemente anulada
Nesta verdade
nesta fé nós confiamos
Enquanto temos nossos olhos no futuro
a história tem seus olhos em nós
Esta é a era da redenção justa
Temíamos desde o início
Não nos sentíamos preparados para ser os herdeiros
de um momento tão aterrorizante
mas dentro dele encontramos o poder
para escrever um novo capítulo
Para oferecer esperança e alegria a nós mesmos
Então, embora tivéssemos nos perguntado
como poderíamos prevalecer diante da catástrofe?
Agora nós afirmamos
Como a catástrofe poderia prevalecer sobre nós?
Não marcharemos de volta para o que era
mas nos moveremos para o que será
Um país ferido, mas inteiro
benevolente, mas ousado
feroz e livre
Não seremos desviados
ou interrompidos por intimidação
porque sabemos que nossa inação e inércia
serão a herança da próxima geração
Nossos erros tornam-se seus fardos
Mas uma coisa é certa:
Se fundirmos misericórdia com força
e força com direito,
então o amor se torna nosso legado
e muda o direito de nascença de nossos filhos
Então, vamos deixar para trás um país
melhor do que aquele no qual fomos deixados
Cada respiração do meu peito de bronze
nós transformaremos este mundo ferido a maravilhoso
Nós nos ergueremos das colinas com ramos dourados do oeste,
nos ergueremos do nordeste varrido pelo vento
onde nossos antepassados realizaram a revolução
Vamos nos erguer das cidades rodeadas por lagos dos estados do meio-oeste
Nós nos levantaremos do sul queimado de sol
Nós reconstruiremos, reconciliaremos e recuperaremos
e cada canto conhecido de nossa nação e
e cada canto chamado de nosso país,
nosso povo diverso e belo surgirá,
danificado e belo
Quando chega o dia, saímos da sombra,
em chamas e sem medo
O novo amanhecer floresce à medida que o libertamos
Pois sempre há luz,
se apenas formos corajosos o suficiente para ver isso
Se apenas formos corajosos o suficiente para sermo
s isso

*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ocupou diversas funções públicas de relevo e desenvolveu projetos de educação patrimonial e de patrimônio cultural de repercussão nacional. Ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR (de novembro de 2017 a novembro de 2019), é considerada uma das mais experientes e respeitadas profissionais no campo da viabilização, implantação e soerguimento de equipamentos culturais no país. Estrategista e gestora cultural, tem larga experiência editorial; foi responsável pela publicação de mais de meia centena de obras voltadas à história e à cultura de Minas Gerais, tendo sido coordenadora editorial das consagradas Coleções Mineiriana e Centenário da Fundação João Pinheiro. Diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, é autora do livro Interstício



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