Cultura

22/01/2021 | domtotal.com

Piratas chineses atacam

Desastre à vista no meio ambiente

Navio pesqueiro da China, que, com o Japão, lidera a pesca ilegal no mundo
Navio pesqueiro da China, que, com o Japão, lidera a pesca ilegal no mundo (AFP)

Fernando Fabbrini

Dessa vez, a pirataria chinesa não se refere àquelas quinquilharias e imitações que compramos e que quebram logo após o primeiro uso. É muito mais grave. Na surdina, ignorada pela grande mídia de maneira suspeita, a pirataria chinesa agora inclui centenas de navios e muito dinheiro. E um dos maiores tesouros da costa brasileira – nossa biodiversidade marinha – corre o risco de ser destruído pela ganância e a irresponsabilidade. 

A China é a segunda maior economia mundial e a primeira no ranking da pesca. Tudo bem se ela respeitasse as leis internacionais e restringisse a exploração ao seu imenso mar territorial. No entanto – fiel à filosofia que afronta qualquer direito quando o assunto é lucro – a China pesca ilegalmente em todos os quadrantes dos sete mares. Sua gigantesca frota invade águas alheias, adotando uma estratégia diabólica com o apoio de embarcações maiores para reabastecimento e descarga. Assim, podem passar meses seguidos ao largo, transferindo toneladas de pescado para os navios-fábrica.

Desde 2013 a revista Nature vem alertando para o excesso de barcos chineses nos oceanos e para seu método usual de arrasto – um desastre para o ecossistema marinho, como causado no litoral da África recentemente. Já a revista Science publicou estudo mostrando que a partir de 2048 as populações de peixes e outros animais marinhos "entrarão em colapso caso a tendência de pesca e destruição de habitats continue no mesmo ritmo".

De olho no Atlântico Sul, a China tentou um acordo com o governo do Uruguai em 2013 no sentido de estabelecer uma base de apoio para seus barcos. A proposta só não deu certo por conta da reação imediata e enérgica de ambientalistas. A China desistiu? Que nada: sua meta agora é o Brasil. A empresa que representa esses interesses levou ao governo do Rio Grande do Sul proposta similar com investimentos iniciais de US$ 30 milhões (R$ 160 milhões). O litoral gaúcho seria a nova base para a expansão da atividade. Quem viu os detalhes do projeto ficou arrepiado. Nas entrelinhas, zero restrições, permissão para tudo e números assustadores, como a construção de uma frota de pesca de arrasto de 400 barcos.

Há notícias de que no Oceano Pacífico 260 navios chineses estão atualmente navegando entre a ZEE do Equador e a Reserva Marinha do Arquipélago de Galápagos. Conscientes de que a pesca chinesa não respeita sequer santuários marinhos, teme-se que o mesmo aconteça por aqui. A única e honrosa reação veio do Sindicato dos Armadores e das Indústrias de Pesca de Itajaí e Região (Sindipi). Diz o texto: “de acordo com informações, baseadas em relatos e publicações de outros países já explorados por essas embarcações, as mesmas não praticam uma pesca sustentável em suas operações, pelo contrário, pescam de forma predatória, processando tudo o que for pescado”.

Essa é mais uma amostra de como a China trata o meio ambiente e a vida selvagem. Depois da lambança de Wuhan, que fez explodir a pandemia, surgem mais nuvens escuras sobre os mares. Só falta uma bandeira negra com a caveira e os ossos cruzados.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas às sextas-feiras no Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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