Religião

22/01/2021 | domtotal.com

A passagem do tempo no Islam - rituais de passagem e adoração a Deus

O cuidado com o tempo que vivemos tem relação com o sentido de que vivemos apenas uma vez, e precisamos viver da melhor forma possível, e sempre em adoração a Deus

O tempo islâmico marca também as cinco orações diárias
O tempo islâmico marca também as cinco orações diárias (Unsplash/afiq fatah)

Francirosy Campos Barbosa*

O profeta Muhammad (SAAS) disse: "Não amaldiçoe o tempo (al-dahr) porque foi Deus Quem preparou o tempo."

Um ano novo chega cheio de esperança de renovação, novos sonhos a serem realizados, novos objetivos. É como se a passagem do ano zerasse tudo que foi no ano que passou dando espaço a uma nova etapa em nossas vidas. Do ponto de vista psicológico isso cria nas pessoas um bem-estar, talvez, por isso, a roupa nova, a festa, os encontros, criando rituais de passagem. Não há dúvida que esses ciclos de renovação criem em cada povo, cultura, religião, significados e simbolismos diversos. O que, talvez, precisamos perguntar é se todo e qualquer povo tem os mesmos rituais de passagem, e como apreendem este tempo em suas vidas.

Em se tratando de comunidades muçulmanas, que fazem uso do calendário lunar e não do gregoriano, como se dão as marcações do tempo e das festividades dentro e fora de seu calendário? Como antropóloga gosto sempre de lembrar que as categorias de entendimento durkhemianas – tempo e espaço – são fundamentais para a compreensão da cosmologia de uma sociedade, de um grupo social. Nesse sentido trago ao(à) leitor(a) alguns pontos interessantes para pensar a cosmologia religiosa islâmica e, em seguida, buscar atrelar a vivência desta religiosidade com os ciclos fora de seu calendário.

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Vale começar pelo calendário islâmico. Este calendário é iniciado com a migração do profeta Muhammad de Meca para Medina, conhecido como HIJRA, denominando o calendário hijri. Entretanto, a consolidação deste calendário só aconteceu no período do califa Umar ibn al-KhattaB (634-644). O calendário islâmico, calendário muçulmano ou calendário hegírico é um calendário lunar composto por doze meses de 29 ou 30 dias ao longo de um ano com 354 ou 355 dias, isto é, 10 dias a menos que o calendário gregoriano. Neste calendário há duas festas importantes para os muçulmanos, que nada têm em relação com o Natal dos cristãos ou com a passagem do ano novo. São elas: Eid Fitr (festa do desjejum, que marca o fim do mês do Ramadan) e Eid Adhha (festa do Sacrifício) – produzi dois documentários sobre essas festas que podem ser acessados pelo vímeo: Allahu Akbar (2006), Sacríficio (2007).

Se o Eid Fitr é a festa de encerramento do mês do Ramadan, mês do jejum, que corresponde a um dos pilares da religião e deve ser praticado por todos, a partir do momento que já conheça o seu significado, sendo as únicas pessoas que podem abster-se do jejum: mulheres que estão no período do resguardo (pós-parto) ou menstruadas, pessoas com doenças crônicas que fazem uso de medicação e pessoas adoentadas.

A festa/ Eid é o ápice da performance islâmica, conforme pude apresentar em minha tese de doutorado depois adaptada em livro (Barbosa, 2017). No tempo do Eid podemos dizer que algo aconteceu, alguns expressam como momento de satisfação, de felicidade por ter conseguido cumprir o jejum. Nesse sentido, podemos consubstanciar que os muçulmanos saem transformados e transportados, usando expressões de Schechner (1985). É a isso que os Sheiks se referem quando falam que é preciso sentir fome para experimentar os que sentem fome. A experiência da communitas ramadâmica permite essa vivência de forma mais profunda (Turner: 1987). E quando a pessoa retorna à estrutura, ou seja, a seu cotidiano normal, passa a dar mais valor a esses momentos. Por isso, em todo o fim de Ramadan acontece também uma festa, onde os fiéis podem comemorar o tempo que conseguiram ficar em jejum e, quando o encerram, voltam diferentes, pois cada um vivencia a fome de uma forma diferente, dando sentido à estrutura: comer e não comer; quando comer; como comer; o que comer; com quem comer. Um dos momentos mais fortes do cotidiano de um jejuante é à noite durante a oração que antecede e sucede a quebra de jejum.

A segunda festa mais comemorada entre os muçulmanos é a Festa do Sacrifício ou Eid Al-Adhhá. Conta-se que Deus pediu uma prova de amor a Abraão e solicitou que ele oferecesse seu filho em sacrifício. No dia marcado, Abraão levou seu filho Ismael para ser sacrificado. No momento do sacrifício, Deus disse para ele substituir o filho por um carneiro, pois ele teria provado que o ama mais que tudo. Para os muçulmanos, o filho a ser sacrificado era Ismael, e não Isaac, como na religião judaico-cristã. Os dois Eids (as duas festas) são estabelecedoras de um circuito energizado, isto quer dizer, que apresentam características homogêneas, que vitalizam entre muçulmanos de várias comunidades encontros em determinados espaços transformando essas festas em algo muito "parecido" com o Natal cristão, no qual se trocam presentes, principalmente entre as crianças, se usa roupa nova, elaboram mesas fartas de comida, visitam parentes, amigos, etc. O Eid Adhha, por exemplo, é um feriado que dura quatro dias em países islâmicos, tamanha a sua importância, pois acontece dentro de um dos rituais mais importantes do Islam que é o Hajj (peregrinação à Meca) quinto pilar da prática na religião (cf. BARBOSA, Francirosy,C. Performances Islâmicas em São Paulo: arabescos, luas e tâmaras. São Paulo, Ed. Terceira Via, 2017).

Ainda é importante considerar que o tempo islâmico marca também as cinco orações diárias. No artigo Teatralização do sagrado Islâmico explorei com densidade a temática sobre oração, além desta marcação temporal, outras datas são importantes para fortalecimento da religiosidade: Lailat al Qadr (Noite do Poder/Revelação do Alcorão que acontece durante o mês do Ramadan), Dia de Arafat (durante o Hajj, no qual o profeta Muhammad SAAS realiza seu último sermão), Dia de Ashura, Nascimento do profeta Muhammad (As comemorações do nascimento do profeta Muhammad não é consenso na comunidade, há muitos que acham que isso não deveria se realizar).

Ademais, o que significa para nós o início do ano novo? O que significa esta virada? Sheik Mohammad Bukai disse em seu sermão que o Alcorão a partir da surata 25 – Al Furkan, que tem como significado um dos nomes do alcorão, o critério, a verdade –, confirma que é Deus quem faz esta sucessão do dia e da noite, por isso, considero importante lembrar o ensinamento do profeta Muhammad (SAAS) quando diz: "Não amaldiçoe o tempo (al-dahr) porque foi Deus Quem preparou o tempo". Se formos considerar o ano de 2020, ano muito difícil para a maioria das pessoas no planeta, temos que considerar que do ponto de vista islâmico, ele jamais pode ser amaldiçoado, há ensinamentos na adversidade. Em tudo há ensinamentos.  

Por isso, a passagem do ano, também é considerada por muitos religiosos como momento de reflexão, não necessariamente com rituais como apresentei brevemente sobre os dois Eids, mas como período de recolhimento e reflexão sobre o tempo passado e o tempo futuro. O tempo é algo precioso no Islam, o tempo presente, tempo passado, tempo futuro. Ibin Arabí dividiu o tempo islâmico em três: dahr (eternidade/tempo longo), waqt (momentâneo, tempo da oração) e zaman (tempo curto/longo). O cuidado com o tempo que vivemos tem relação com o sentido de que vivemos apenas uma vez, e precisamos viver da melhor forma possível, e sempre em adoração a Deus. O entendimento da maioria dos sábios é que não há problema que as pessoas "comemorem" o ano novo, desde que se evitem exageros como realizar determinados rituais que não fazem parte da cosmologia islâmica, mas recitar o alcorão, fazer doações às pessoas necessitadas, entre outras coisas são estimuladas pela religião. A reflexão da passagem do ponto de vista espiritual é importante, até mesmo para que o fiel se conecte com aquilo que não realizou no ano que passou, e no preceito islâmico o mais importante a ser realizado é a adoração a Deus.

Aniversário também não é algo que se tenha o hábito de comemorar entre os muçulmanos, mas é sem dúvida um momento de passagem que pode ser relembrado. Por ocasião do meu aniversário há alguns dias, Sheik Ali Abdouni me escreveu: "Que Allah nos faça passar os nossos anos na Sua adoração", me lembrando mais uma vez qual a importância dos ciclos que passamos, seja ele a data do nosso nascimento, o momento da oração, uma festa religiosa.

*Francirosy Campos Barbosa é antropóloga, docente associada do Departamento de Psicologia da USP/FFCLRP, coordenadora do Grupo de antropologia em contextos islâmicos e árabes (Gracias), pós-doutora pela universidade de Oxford, autora do livro 'Performances Islâmicas em São Paulo: arabescos, luas e tâmaras', email: franci@ffclrp.usp.br



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