Religião

22/01/2021 | domtotal.com

O ano novo e a rainha do mar: a mudança de ciclos nas águas do Brasil

Devoção à Iemanjá praticada mesmo por quem não professa como sua fé alguma religião de matriz africana desperta a curiosidade

Mulher segura uma rosa antes de jogá-la na água para Iemanjá antes das comemorações de Ano Novo na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, Brasil, em 31 de dezembro de 2019
Mulher segura uma rosa antes de jogá-la na água para Iemanjá antes das comemorações de Ano Novo na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, Brasil, em 31 de dezembro de 2019 (Daniel Ramalho/AFP)

Guaraci Maximiano dos Santos
Glaydson de Oliveira Souza*

Se você quiser amar,
Se você quiser amor,
Vem comigo a Salvador
Para ouvir Iemanjá

(Vinicius de Moraes e Baden Powell, Os afrosambas, 1966).

O ano novo no ocidente obedece ao calendário gregoriano, que contempla a contagem do tempo a partir do nascimento de Cristo. Esse calendário – uma das imposições da modernidade – se tornou oficial no ano 1582 pelo papa Gregório XIII. Há exceções, tais como o ano novo judeu, que se realiza em meados de setembro.  No oriente existe uma contagem diferenciada, que leva em consideração as fases da lua e a posição do sol, criando exceções como o ano novo chinês, que será comemorado em fevereiro de 2021, o ano novo hindu, que varia de acordo com a região da Índia e o ano novo islâmico, que se dá em datas diferentes a cada ano.

Na África preexistia uma variedade de deuses antes do contato dos povos negros com a figura de Jesus, fato que ocorreu de forma compulsória por meio das missões cristãs colonizadoras a partir do século 16. Com a diáspora daqueles povos, muito se perdeu sobre as tradições de passagem de ano de cada tribo ou reino, haja vista que o processo de escravização implicou na tentativa de apagamento forçado das suas culturas e modos de vida, a que Boaventura de Sousa Santos denomina de 'epistemicídio' (SANTOS, 1999, p. 9).

Pautadas na transmissão do conhecimento pela oralitura, as tradições africanas transplantadas para o Brasil tiveram que se reconfigurar e se ressignificar, sendo que muito se perdeu a cada morte de um ancião ou anciã, porquanto portadores da memória. Segundo Leda Maria Martins a "oralitura" é um privilégio de certos povos, entendida como "alteração significante, rasura da linguagem constitutiva da alteridade dos sujeitos, das culturas e de suas representações simbólicas" (MARTINS, 1997, p. 83).

Leia também:

Independente do epistemicídio acarretar a perda de conhecimentos, levando inclusive à proibição dos negros de variados grupos da prática de fé nas suas divindades e na sua ancestralidade, ocorre na virada do ano no Brasil um fenômeno muito curioso, que é o da veneração à Iemanjá, no mar, por meio de oferendas e de forma indistinta por adeptos de variados credos, todos vestidos de branco, celebrando uma união de natureza aparentemente universal.

O fato desperta curiosidade na medida em que é praticado de forma natural e fluida, sem imposições e independente da fidelidade a uma tradição religiosa, hegemônica ou não. O exemplo mais famoso – excetuando esse período pandêmico – ocorre na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde milhões de pessoas se deslocam ao famoso bairro de todos os lugares do Brasil e do mundo para experimentar uma festa única, conhecida em todo o planeta, e que gira em torno de rituais a Iemanjá.

É cediço que as principais divindades das tradições de matriz africana no Brasil são os Minkisi, Orixás e Voduns e uma centena de espíritos (guias, guardiões ou entidades) que se manifestam sob denominações de encantados, exus, pombagiras, caboclos, pretos velhos, baianos, mineiros, ciganos e outras formas e denominações. No caso, Iemanjá é um Orixá, do panteão nagô-iorubá, notadamente cultuada no candomblé Ketu, originado na diáspora pelos povos do Benin e Nigéria.

Iemanjá é a rainha do mar, a grande mãe. De acordo com Pierre Verger "ela tem filhos no mundo inteiro. Iemanjá está em todo lugar, onde o mar vem bater-se com suas ondas espumantes. Seus filhos fazem oferendas para acalmá-la e agradá-la". (Verger, 2019, p. 58).  

Ocorre que no Brasil, de acordo com o Relatório da Liberdade Religiosa no Mundo, apenas 0,9% da população se denomina afro-brasileira e praticante de tais tradições. Portanto, quando milhões de pessoas vestem símbolos e praticam rituais de uma tradição que é minoritária, demonizada e desprezada durante todo o resto do ano, é intrigante entender o caráter dessa concessão. Abdias Nascimento, em sua argúcia provocativa, observava esses rituais da seguinte forma:

A redução da cultura africana ao status de vazio folclore não revela somente o desprezo ao negro da sociedade vigente, como também exibe a avareza com que essa sociedade explora afro-brasileiros e sua cultura com intuitos lucrativos. Pois embora a religião e a arte sejam tão ridicularizadas e folclorizadas, elas constituem valiosas e rentáveis mercadorias no comércio turístico. Nesse caminho as manifestações religiosas negras tornam-se "curiosidades" para entreter visitantes brancos. A folclorização dá um passo em frente ao desenvolver outra etapa do tratamento dispensado à cultura afro-brasileira pela sociedade dominante: a sua comercialização. (NASCIMENTO, 2016, p. 118).

A preocupação do autor ocorria na medida em que os cultos a Iemanjá perdiam seu caráter religioso essencial, sendo equiparados a mera curiosidade festiva e exótica e gradativamente, esvaziados de sentido.

Mas talvez possamos entender melhor esse rito de passagem de ano para os afro-brasileiros através da narrativa mitopoética de Reginaldo Prandi, em sua obra Aimó, de 2017, ou "a menina que ninguém sabe quem é", cujo enredo nos fala da vida de uma menina negra escravizada, pertencente ao povo iorubá, trazida ao Brasil na diáspora. Perdida, ela se vê sem referências, sem nome e sem família. Refugiada num mundo estranho habitado por orixás e espíritos, ela só acorda quando passa a conhecer sua ancestralidade, tendo condições de reconstruir o que lhe fora retirado: sua fé e sua cultura. O despertar de Aimó é o seu renascimento!

A chave apresentada por Aimó implica na tomada de consciência individual, na medida em que, ao reconhecer quem somos, estaremos livres para continuar e dar os próximos passos, passar para os novos ciclos. Essa consciência ocorre em nossa cabeça "ori" em iorubá, e é regida por Iemanjá, como mãe de todas as cabeças.

Não á toa, os praticantes das tradições afro-brasileiras se reúnem á beira do mar para agradarem sua grande mãe, ali representada. Ela é o próprio mar, a força da natureza e como um útero fecundo, tanto dá quanto recebe a vida, que cuida e que acolhe. Ela é a ligação dos descendentes dos africanos com seus ancestrais e com sua consciência, que os permitem renascer para o próximo ano.

A mensagem de amor e de afeto trazida por Iemanjá na virada do ano é tão potente que é capaz de agregar até aqueles que não pertencem ao seu culto no candomblé, rompendo as brutais barreiras da intolerância, conforme dito.

De toda a ritualística à Iemanjá, que compreende rezas, cantos, danças, benzeções com ervas, vestir-se branco e pular sete ondas, emerge uma consciência ecológica, de informação não eurocêntrica, pautada numa visão de cuidado com a natureza e não de exploração, pois agora ela ganha traços de humanidade e se torna sagrada e venerada.

Nesse sentido, voltamos momentaneamente ao paradigma que orientava essas tradições na África antes do colonialismo, que podemos denominar de paradigma ecológico, servindo como proposta de superação do antropocentrismo ao se condensar como ecologia "porque se baseia no reconhecimento da pluralidade de conhecimentos heterogêneos" (SANTOS, 2010, p. 53).

Portanto, a consciência ecológica despertada no período de passagem do ano, manifestada na veneração a Iemanjá, não ocorre por acaso: além da relevância cultural, seu sentido sagrado é de renascimento constante a partir da consciência individual que passa a se tornar universal com a proteção daquele Orixá, dona de todas as cabeças.

Referências

MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória. O Reinado do Rosário no Jatobá. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte: Mazza Edições, 1997.

MORAES, Vinícius; POWELL, Baden. Canto de Iemanjá. In: Os Afrosambas. UMG - Universal Music International Ltda. Composição musical. Áudio,1966. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=r9XLtmr5yqE. Acesso em 04.01.2020.

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo marcarado. 3ª Ed. São Paulo: Perspectivas, 2016.

PRANDI, Reginaldo. Aimó: uma viagem pelo mundo dos Orixás. 1ª Ed. São Paulo: Seguinte, 2017.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia dos saberes. In SANTOS, B. S.; MENESES, M. P. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010b. SANTOS, B. S.; MENESES, M. P. (Org.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010. 

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil Africano. 3ª Ed. São Paulo: Ática, 2012.

VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas do Orixás. Traduzido por Maria Aparecida da Nóbrega. Salvador: Fundação Pierre Verger, 2019.

Guaraci Maximiano dos Santos. Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-Minas/FAPEMIG. Membro do grupo de pesquisa Religião Pluralismo e Diálogo Inter-religioso (Repludi), PPG-CR/PUC-Minas. Cooredenador da Comissoão de Psicologia, Laicidade, Espiritualidade, Religião e Outros Saberes Tradicionais da Conselho Regional de Psicologia (Clerot) seção Minas Gerais. Glaydson de Oliveira Souza. Mestrando em Ciências da Religião pela PUC Minas, Bolsista CAPES. Membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Membro do Grupo de Pesquisa Redeclid: Religião, Educação, Ecologia, Libertação e Diálogo, da PUC Minas.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!