Religião

22/01/2021 | domtotal.com

2021 é visto como um ano para recuperar o terreno perdido em relação mudanças climáticas

Com Biden, visão da 'Laudato si' ganha mais força no cenário global

Quase 11 mil relâmpagos provocaram 367 incêndios florestais, com mais de 121 mil hectares queimados em toda a Califórnia por volta de agosto de 2020
Quase 11 mil relâmpagos provocaram 367 incêndios florestais, com mais de 121 mil hectares queimados em toda a Califórnia por volta de agosto de 2020 (Josh Edelson/AFP)

Brian Roewe Action*
NCR

Das economias nacionais às vidas pessoais, a pandemia de coronavírus de 2020 colocou grande parte do mundo em uma pausa. Mas uma coisa não parou: a grave crise das mudanças climáticas.

Enquanto as emissões globais diminuíram cerca de 7% por causa das interrupções nas atividades relacionadas às restrições do Covid-19, os cientistas definem 2020 como um dos dois anos mais quentes já registrados na história e possivelmente no topo da lista. Adicione a isso uma temporada histórica de furacões no Atlântico, o gelo do mar Ártico atingindo uma baixa quase recorde e incêndios florestais recordes na Austrália, na Califórnia e na Sibéria.

A pausa de 2020 atrasou a atenção sobre o clima no início de uma década crítica, durante a qual as emissões globais de gases de efeito estufa devem ser reduzidas à metade para manter o ritmo de emissões zero até 2050, a fim de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius.

De muitas maneiras, 2021 significará recuperar o terreno perdido.

Nos EUA, isso significa um novo presidente – e uma nova maioria democrata no Congresso – compensando quatro anos de desregulamentação ambiental e redução da atenção sobre a crescente crise climática no governo do presidente Donald Trump.

Em nível internacional, significa compensar os prazos perdidos após a COP 26, a cúpula do clima das Nações Unidas agora marcada para novembro de 2021, que foi adiada pela pandemia.

E dentro da Igreja Católica, significa ganhar impulso para começar uma implementação mais ampla e mais profunda da encíclica do papa Francisco, Laudato si, de 2015, sobre o cuidado de nossa casa comum.

Promessa de uma plataforma

Para a Igreja Católica, os primeiros cinco meses de 2021 darão continuidade ao ano especial pelo aniversário da Laudato si, que o Vaticano declarou em maio de 2020, como parte das atividades que marcam cinco anos desde a publicação do documento socioambiental. O fato do "Ano Laudato si" formar uma ponte sobre dois anos de calendário foi em si uma consequência da pandemia Covid-19.

O ano é parte de um esforço para realizar uma "conversão ecológica", Francisco diz que é necessário enfrentar os desafios urgentes desta década de mudança climática, perda de biodiversidade e a necessidade de criar um mundo pós-Covid-19 mais justo e sustentável.

Como parte da continuidade do Ano Laudato si, o Vaticano planeja realizar sua terceira mesa-redonda no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça. Também explorou um possível encontro de primavera com líderes religiosos. O ano especial está definido para terminar em maio com uma conferência, possivelmente uma apresentação musical global inspirada na encíclica e uma entrega dos primeiros prêmios Laudato si.

O fim do Ano Laudato si também marcará o início da Plataforma de Ação Laudato si.

A plataforma, com lançamento previsto para 24 de maio, é um projeto do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, que convidou instituições católicas de todos os tipos e tamanhos a se comprometerem em uma jornada de sete anos para se tornarem "totalmente sustentáveis no espírito da ecologia integral da Laudato si".

Os sete conjuntos de metas da Plataforma Laudato si incluem etapas como alcançar a neutralidade das emissões de carbono, defender todas as formas de vida, usar menos plástico e comer menos carne, e deixar os combustíveis fósseis, reinvestindo em energia renovável.

Desde que a plataforma de ação foi anunciada em maio passado, o dicastério consultou uma ampla seção transversal da Igreja sobre a melhor forma de construí-la. O trabalho se concentrou na finalização dos sete tipos de instituições eclesiais que participarão e na definição dos marcos de referência para cada grupo de objetivos a serem alcançados em vários momentos durante os sete anos.

O conselho diretivo que trabalha com o dicastério na plataforma inclui a Caritas Internationalis, a União Internacional dos Superiores Gerais, a CIDSE, o Movimento Católico Global pelo Clima e a Companhia de Jesus. A contribuição também vem de organizações católicas em níveis mais locais, como Living Laudato Si Filipinas e Mercy Health na Austrália.

Nos EUA, o Catholic Climate Covenant serve como um centro para a Plataforma de Ação Laudato si. Enquanto o Vaticano desenvolve o programa, o Covenant formou seu próprio grupo de trabalho para se preparar para implantar a plataforma no país.

"Estamos tentando construir a arquitetura para que isso aconteça", disse José Aguto, diretor associado do Covenant.

Aguto incentivou os católicos interessados em participarem da plataforma de ação através da Covenant. Questionado sobre o tipo de impacto que a plataforma de ação poderia causar, ele respondeu: "Transformacional".

As escolas católicas, por exemplo, poderiam adaptar as metas globais da plataforma por meio de programas existentes na National Catholic Educational Association e da Association of Catholic Colleges and Universities. "Quando você tem a bênção do Vaticano e a NCEA já tem o avião pronto para decolar, você só precisa enchê-lo com passageiros", disse Aguto ao EarthBeat.

"É a proverbial pedrinha no topo da montanha que dá início à grande e velha avalanche".

Recuperação Covid-19, compromissos climáticos

A pandemia de coronavírus deu aos países mais tempo para se prepararem para a cúpula do clima da COP 26 da ONU. Mas enquanto isso, o relógio do clima continuava correndo.

De acordo com o Acordo de Paris, espera-se que os países proponham planos de redução de emissões mais ambiciosos, conhecidos como contribuições nacionalmente determinadas, a cada cinco anos. A COP 26, originalmente prevista para novembro de 2020, foi o primeiro posto de controle. Agora, a cúpula foi adiada para novembro próximo.

Alguns países – incluindo União Europeia, Reino Unido, China e Índia – apresentaram suas novas promessas em uma cúpula virtual em 12 de dezembro, o quinto aniversário da assinatura do acordo de Paris. Vários dos principais emissores do mundo se comprometeram com a parada das emissões líquidas até a metade do século, embora as especificações de como farão isso ainda não sejam claras. Autoridades do Vaticano, incluindo o cardeal Peter Turkson, alertaram que as nações não fizeram o suficiente para combater a mudança climática nos cinco anos desde que o Acordo de Paris foi adotado.

Uma análise das primeiras promessas, incluindo as propostas de Biden para os EUA, pelo grupo de pesquisa Climate Action Tracker indicou que levariam a um aumento médio da temperatura global de 2,1 °C até o final do século – uma melhoria em relação aos 3 °C de aquecimento projetado sob as promessas iniciais de Paris, mas ainda aquém da meta de 1,5 °C, que os cientistas apontam como crítica para evitar a interrupção de milhões de vidas devido ao aumento do nível do mar, o incremento das ondas de calor, as doenças, a migração e a pobreza mais desenfreada.

As temperaturas globais aumentaram 1,2 °C desde os tempos pré-industriais, de acordo com a Organização Meterológica Mundial, e o aumento já ultrapassa 1,5 °C em algumas partes do mundo.

Assim como muitos grupos focados no clima nos EUA, um grande número de ativistas ambientais em todo o mundo veem os planos nacionais de recuperação pós Covid-19 como críticos, não apenas para novas reduções de emissões, mas também para fortalecer uma mudança global de combustíveis fósseis para uma economia de energia limpa.

"Sabemos que os investimentos que estamos fazendo agora nas prioridades de estímulo econômico vão afetar as próximas décadas, e por isso queremos que esses investimentos sejam sustentáveis", disse Eastwood com os Columbans, que trabalham em 15 países.

A GreenFaith está entre os grupos que pressionam e levam essa mensagem pelo mundo. A Aliança Multifé está organizando um evento de base em 11 de março chamado "Povo Sagrado, Terra Sagrada", que é considerado o maior dia de ação baseado na fé sobre a mudança climática.

Em uma declaração, os organizadores do evento afirmam que a pandemia "revelou injustiças cruéis", com comunidades vulneráveis e de baixa renda sofrendo os impactos mais graves. "Já vimos isso antes. Essas mesmas comunidades são desproporcional e catastroficamente afetadas pela emergência climática cada vez mais acelerada".

"Sagrado Povo, Sagrada Terra" busca persuadir os governos a construírem economias pós-pandêmicas e fazer compromissos climáticos que atendam às necessidades de todas as pessoas e do planeta e encerrem "a era de conquista, a extração e a exploração", diz o comunicado.

Entre as dez demandas que os organizadores delinearam para governos e instituições financeiras estão compromissos e financiamento para 100% de energia renovável para todas as pessoas, incluindo aquelas que não têm acesso à eletricidade; emissões líquidas zero de nações ricas até 2030; fim do financiamento para exploração de combustíveis fósseis, agricultura industrial e desmatamento; e respeito aos direitos legais das comunidades indígenas.

"Essas ações não devem perpetuar um sistema econômico desatualizado que depende de combustíveis fósseis e da destruição das próprias florestas, águas, oceanos e solos que tornam a vida possível", diz um comunicado. "Em vez disso, deveriam acelerar o desenvolvimento de energia renovável; garantir acesso universal a água e ar limpos, à energia limpa, a preços acessíveis e alimentos cultivados com respeito pela terra; criar empregos pagando salários de justos para o sustento familiar e condições de trabalho seguras".

Um ano após a década de 2020, o caminho para cortes substanciais de emissões permanece longo, enquanto o tempo para alcançá-los encurtou.

Mesmo assim, Aguto, do Catholic Climate Covenant, transmite seu otimismo no senso de mudança dentro da Igreja e dos governos e da crescente pressão da juventude e dos movimentos populares em todo o mundo.

"Temos um grande impulso em relação ao que estávamos experimentando anteriormente", disse.

Publicado originalmente em National Catholic Reporter

*Brian Roewe é correspondente de meio ambiente da NCR. Seu endereço de e-mail é broewe@ncronline.org. Siga-o no Twitter em @brianroewe.



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