Religião

22/01/2021 | domtotal.com

Mensagem dos bispos para Biden provoca divisões entre a hierarquia americana

Presidente da conferência não consultou os outros prelados para escrever em seu nome

'Estou preparado para aceitar que a concepção é o momento do chamado a uma vida humana. Mas não estou preparado para dizer isso a outras pessoas tementes a Deus e não tementes a Deus', disse Biden
'Estou preparado para aceitar que a concepção é o momento do chamado a uma vida humana. Mas não estou preparado para dizer isso a outras pessoas tementes a Deus e não tementes a Deus', disse Biden (Jim Watson/AFP)

A mensagem enviada na quarta-feira pelos bispos católicos a Joe Biden, por ocasião da inauguração do seu mandato como presidente dos Estados Unidos, está provocando divisões e mal-estar entre a hierarquia daquele país.

Na sua mensagem, assinada pelo presidente da Conferência Episcopal, o arcebispo José Gomez, de Los Angeles, a conferência episcopal saúda o novo presidente, que se identifica como sendo católico, mas recorda que ele defende posições que são antagônicas com as da Igreja.

"Devo sublinhar que o nosso novo presidente já se comprometeu a promover certas politicas que avançariam males morais e ameaçam a vida e a dignidade humana, sobretudo nos campos do aborto, contracepção, casamento e gênero", diz o comunicado.

"De grande preocupação é a liberdade da Igreja e a liberdade dos crentes poderem viver de acordo com as suas consciências", lê-se ainda.

Joe Biden diz que pessoalmente não concorda com o aborto mas tem sido enfático no seu apoio à sua legalização, tendo pedido e obtido o apoio durante a sua campanha da Planned Parenthood, a maior organização abortista nos Estados Unidos. O presidente comprometeu-se ainda a reverter a política da Cidade do México, que proíbe o financiamento com dinheiro público americano de programas que apoiam ou promovam o aborto em países terceiros.

Conflitos politicos e religiosos

Durante a presidência de Barack Obama, de quem Biden foi vice-presidente, os bispos tiveram vários conflitos com a Administração relacionadas com a liberdade religiosa. O famoso "Obamacare", o plano de saúde que foi uma das principais bandeiras daquele presidente e que, de resto, mereceu o apoio inicial dos bispos, incluía na sua redação final a obrigação de todos os empregadores de financiarem serviços contraceptivos e abortivos para os seus empregados. As igrejas propriamente ditas estavam excluídas, mas outras instituições religiosas, como escolas e hospitais confessionais, ou mesmo empregadores que se opõem pessoalmente a estas medidas, eram obrigados a aderir. Obama nunca cedeu e o caso acabou por ir parar ao Supremo Tribunal, num processo movido pelas Irmãzinhas dos Pobres, uma ordem feminina católica.

A administração de Donald Trump alargou as exceções possíveis, mas prevê-se que Biden volte atrás com essa decisão, levando o assunto novamente ao Supremo Tribunal, embora agora, com uma maioria sólida conservadora, seja natural que o assunto fique resolvido no sentido da liberdade religiosa.

Na sua mensagem o arcebispo Gomez insiste que "os bispos católicos não são agentes partidários na política nacional" e elogiou os apelos feitos por Biden para a unidade e para sarar as divisões que se acentuaram no país nas últimas décadas.

O arcebispo pede ainda ao presidente que entre em diálogo com a Igreja sobre assuntos como o aborto e as políticas da família o que, considera "faria muito para restaurar o equilíbrio social e responder às necessidades do nosso país".

Por outro lado, o arcebispo expressou a sua satisfação por ter a oportunidade de trabalhar com Biden que, "claramente compreende, de forma profunda e pessoal, a importância da fé e das instituições religiosas".

É habitual os bispos publicarem uma mensagem por ocasião da inauguração de um novo presidente, mas o tom adotado por Gomez não agradou a todos, sobretudo a alguns dos bispos mais liberais.

O cardeal Blaise Cupich, de Chicago, manifestou publicamente o seu desagrado, lamentando que os restantes bispos não foram consultados sobre o documento antes de este ser divulgado, o que considerou ser uma "falha institucional interna".

"Hoje, a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos emitiu uma declaração imprudente no dia da posse do presidente Biden. Além do fato de que aparentemente não há precedentes para fazê-lo, a declaração, crítica ao presidente Biden, foi uma surpresa para muitos bispos, que a receberam poucas horas antes de ser divulgada. A declaração foi elaborada sem o envolvimento da Comissão Administrativa, uma consulta colegiada que é a via normal para declarações que representem e tenham o devido endosso dos bispos estadunidenses. As falhas institucionais internas envolvidas devem ser enfrentadas, e eu espero contribuir com todos os esforços para esse fim, para que, inspirados pelo Evangelho, possamos construir a unidade da Igreja e, juntos, assumir o trabalho de cura da nossa nação neste momento de crise", disse o Cupich no Twitter.

Muitos fieis apoiaram a crítica do cardeal, como Becky O’Donnell, do Kansas, que escreveu: "Então nós temos um presidente católico que é muito público sobre a sua fé, participa da missa semanal, no primeiro dia atravessa o corredor e convida os republicanos a se unirem a ele na missa, faz referência frequente aos ensinamentos católicos, apela para a cura, e a Conferência dos Bispos dos EUA o ataca no primeiro dia. Argh".

O tom da mensagem de Gomez contrasta bastante com a do papa Francisco, que também enviou uma mensagem, mas evitou qualquer assunto polêmico ou posição de confronto.

Já o cardeal Tobin, que também é da ala liberal do episcopado católico, lamentou precisamente o tom da mensagem. "Mesmo as pessoas que por natureza seriam favoráveis ao presidente têm dificuldade em compreender como é que ele conjuga a sua posição sobre o aborto – que é tão importante para os católicos – com a fé que tem sido tão importante para ele ao longo da sua vida", escreveu.

Contudo, continua, "o que eu não compreendo é por que razão as pessoas usam uma linguagem tão dura e querem cortar com toda a comunicação com o presidente, por causa disto".

Ao longo da tarde, hora local, vários outros bispos emitiram os seus próprios comunicados, colocando-se do lado de Gomez ou dos seus opositores e a revista "America", uma publicação dos jesuítas americanos, cita um alto funcionário da Curia Romana que teria descrito a mensagem de Gomez como "muito lamentável" e espera que esta não provoque "maior divisão na Igreja dos Estados Unidos".


Rádio Renascença/Dom Total



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