Religião

26/01/2021 | domtotal.com

Posse de Joe Biden evidencia clima de tensão e ruptura na Igreja Católica nos EUA

Com presidente mais alinhado à Francisco, bispos precisam fazer opções

Cardeal Wilton Gregory, primeiro afro-americano a ascender ao cardinalato, conduz momento de oração pelas vítimas da Covid junto com Biden, Harris e cônjuges
Cardeal Wilton Gregory, primeiro afro-americano a ascender ao cardinalato, conduz momento de oração pelas vítimas da Covid junto com Biden, Harris e cônjuges (Patrick T. Fallon/AFP)

Thales Reis*

Quando John F. Kennedy – primeiro presidente católico dos EUA –, tomou posse do Salão Oval em 1961, existia um sentimento "anticatólico" latente na esfera política estadunidense. De maioria protestante, o país desconfiava de um católico na Casa Branca, e a fé professada por JFK virou arma de campanha dos adversários. Nos principais jornais norte-americanos, charges do então papa João XXIII, com malas e baús a postos, preparado para se mudar para os EUA caso Kennedy fosse eleito, estampavam as principais páginas.

Hoje, os tempos mudaram. A religião dos candidatos ao cargo de homem mais poderoso do mundo não é mais tão importante na corrida presidencial, e na esteira da tomada de posse de Joe Biden, que na última quarta-feira (20) se tornou o 46º presidente dos EUA, a ameaça ao catolicismo no país não vem de fatores externos, mas internos. Uma "guerra civil" ideológica dentro da poderosa Igreja Católica norte-americana – que já se desenrola há alguns anos, na verdade, nos bastidores da instituição – se tornou ainda mais evidente durante a corrida presidencial de 2020 e agora com a posse de Joe Biden.

Apenas alguns minutos depois do discurso inaugural de Biden como novo mandatário dos EUA, o Vaticano divulgou a tradicional mensagem diplomática de felicitações do papa Francisco – na qualidade de ser também um Chefe de Estado – ao mais novo Commander In Chief da principal potência mundial. Na carta, o pontífice afirmou rezar para que as decisões de Biden fossem "guiadas pela preocupação de construir uma sociedade marcada pela autêntica justiça e liberdade" e fez votos para que o novo presidente favorecesse "a paz e a reconciliação nos EUA e no mundo". O tom de unificação da mensagem do santo padre contrastou com a nota de confronto divulgada logo em seguida pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unido (USCCB).

Na mensagem, a instituição afirmou que estão dispostos a colaborar, como fazem com todas as administrações, mas sem renunciar a defender os valores fundamentais como a vida e a família, levando em consideração a posição pro-choice expressada pelo democrata em relação à interrupção da gestação. Reafirmaram que Biden se "comprometeu a seguir certas políticas que promoveriam os males morais e ameaçariam a vida e a dignidade humanas". Roma não gostou. Um alto funcionário do Vaticano teria dito ao jornalista vaticanista Gerard O'Connell que a Santa Sé não ficou feliz com a declaração da Conferência Episcopal. "É muito lamentável e provavelmente criará divisões ainda maiores dentro da Igreja nos Estados Unidos", informou.

A mensagem também causou surpresa e indignação em alguns prelados norte-americanos e evidenciou o clima de tensão e ruptura no qual vive a Igreja estadunidense. O cardeal Blase Joseph Cupich, arcebispo de Chicago, classificou a nota da USCCB como "imprudente" e "sem precedentes" ao criticar um presidente recém-empossado. A instituição é atualmente presidida pelo arcebispo de Los Angeles, dom José H. Gomez, que em 25 de abril de 2020 chegou a participar da versão telefônica de um comício de campanha de Donald Trump, acompanhado de outros nomes poderosos do catolicismo nos EUA, como os cardeais Timothy Dolan, de Nova York, e Sean O’Malley, de Boston. Na ocasião, Dolan afirmou que se considera um "grande amigo" de Trump, por quem ele expressou admiração mútua como "um grande cavalheiro".

Do outro lado desse espectro político-religioso, encontramos nomes como o arcebispo de Washington, D.C., o cardeal Wilton Gregory, primeiro afro-americano a ascender ao cardinalato, o também cardeal Cupich, de Chicago, e o bispo de San Diego, McElroy, além de tantos outros. Todos se opõem à parte do clero estadunidense que, ao longo dos últimos meses, estreitou alianças com Donald Trump e seu partido Republicano, sob a bandeira da defesa dos interesses da Igreja Católica americana: liberdade religiosa, isenções das igrejas da lei sobre o respeito aos direitos dos homossexuais no local de trabalho, financiamentos para escolas católicas e, por fim, claro, o aborto, que continua sendo a questão mais importante e sensível para o alinhamento político dos católicos nos EUA.

Sem conseguir apresentar uma frente única, e com os próprios católicos do país extremamente divididos entre os partidos Republicano e Democrata, a Igreja Católica norte-americana enfrente uma forte ameaça de cisma, e pode se autodestruir se não superar a divisão partidária que a corrói de dentro para fora. Em um momento onde a palavra de ordem nos EUA é "união", a Igreja precisa adotar uma única e consistente posição para ajudar o país a curar suas feridas, precisa estar envolvida no processo político, mas não ser partidária de nenhum candidato ou partido. Devemos lembrar, também, que a própria credibilidade da instituição não se encontra em seu melhor momento, por causa da crise dos abusos sexuais e do relatório sobre o caso Theodore McCarrick, tornado público pelo Vaticano em novembro do ano passado.

Neste momento de vulnerabilidade, as divisões na alta hierarquia da Igreja Católica nos EUA deixam a instituição em seu ponto mais fraco, exatamente quando a nação mais precisa da sua ajuda. O alvorecer da nova era Biden – que, vale ressaltar, possui alinhamento ideológico com o papa Francisco em diversas questões – promete ser um divisor de águas para a Igreja americana, fortalecendo ou enfraquecendo o seu poder de influência na sociedade e nos círculos políticos. Os bispos do país – principalmente aqueles mais conservadores – sabem, claro, que precisam ter um canal de diálogo aberto com a Casa Branca se desejam ter uma voz relevante nesta administração, mas para isso, devem suavizar os ataques ao novo presidente e superar os embates internos. Infelizmente, a mensagem da histórica quarta-feira, 20 de janeiro de 2021, não foi um bom começo.

*Thales Reis é jornalista, especialista no estudo das Escrituras Sagradas do Cristianismo pela Universidade de Harvard, em Diplomacia Pontifícia pelo Centro de Religião, Paz e Assuntos Internacionais da Universidade de Georgetown, dos EUA, e em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo. Têm expertise na cobertura de assuntos relacionados ao Vaticano e no estudo e análise das relações de poder estabelecidas pela Santa Sé com os diversos players do cenário internacional.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!