Brasil Política

26/01/2021 | domtotal.com

Líderes católicos e evangélicos decidem protocolar pedido de impeachment de Bolsonaro

As falhas do governo durante a crise do coronavírus estão entre os argumentos de pedido proposto por padres católicos, anglicanos, luteranos, metodistas e também pastores

'Uma parcela da igreja deu um apoio acrítico e incondicional ao Bolsonaro independentemente do discurso que ele defendia', diz teólogo
'Uma parcela da igreja deu um apoio acrítico e incondicional ao Bolsonaro independentemente do discurso que ele defendia', diz teólogo (Marcos Corrêa/PR)

Atualizada às 16h30

Líderes evangélicos e católicos vão aumentar a pressão pela abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no Congresso. Em um movimento que será apresentado como uma “frente de fé”, um grupo de religiosos formalizará nesta terça-feira, 26, na Câmara dos Deputados, um pedido de afastamento de Bolsonaro, sob o argumento de que ele agiu com negligência na condução da pandemia de Covid-19, agravando a crise. É a primeira vez que representantes desse segmento encaminham uma denúncia contra o presidente por crime de responsabilidade.

O pedido de impeachment é assinado por religiosos críticos ao governo. Na lista estão padres católicos, anglicanos, luteranos, metodistas e também pastores. Embora sem o apoio formal das igrejas, o grupo tem o respaldo de organizações como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, a Comissão Brasileira Justiça e Paz da Confederação Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) e a Aliança de Batistas do Brasil.

“Uma parcela da igreja deu um apoio acrítico e incondicional ao Bolsonaro independentemente do discurso que ele defendia. Queremos mostrar que a fé cristã precisa ser resgatada e que a igreja não é um bloco monolítico”, disse  o teólogo Tiago Santos, um dos autores do pedido de impeachment.

 As falhas do governo durante a crise do coronavírus, na esteira de idas e vindas sobre a importação de vacinas da China e da Índia, elevaram a temperatura política. Partidos de esquerda como PT, PDT, PSB, PSOL e PCdoB, além da Rede, também vão protocolar na Câmara, nesta quarta-feira, 27, um outro pedido de afastamento de Bolsonaro, desta vez com o mote “Pelo impeachment, pela vacina e pela renda emergencial”. As siglas adiaram a formalização da denúncia, antes prevista para esta terça-feira, justamente a pedido dos religiosos, que temiam confusão entre os dois movimentos.

“A palavra é ‘emergencial’. O que é emergencial? Não é duradouro, vitalício. Não é aposentadoria. Lamento muita gente passando necessidade, mas a nossa capacidade de endividamento está no limite”, afirmou Bolsonaro, nesta segunda-feira, 25, em conversa com apoiadores, no Palácio da Alvorada.

Em uma aliança que juntou partidos de esquerda à centro-direita, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também tomou a frente de um movimento que pode ser a prévia da nova articulação para tentar derrotar Bolsonaro em 2022, quando ele pretende disputar a reeleição.

A decisão de dar ou não o pontapé inicial no impeachment cabe ao presidente da Câmara, que também pode engavetar os pedidos – desde o início do mandato de Bolsonaro foram protocoladas 61 ações desse tipo contra ele, das quais 56 estão ativas.

O Palácio do Planalto faz campanha para emplacar o deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), líder do Centrão, na cadeira de Maia, com a expectativa de que, nesse cenário, uma denúncia contra ele não avançará no Congresso. Adversário de Lira, o deputado Baleia Rossi (MDB-SP), apoiado pelo presidente da Câmara, promete analisar “com equilíbrio” os pedidos de afastamento de Bolsonaro se vencer a disputa. A eleição que vai renovar as cúpulas da Câmara e do Senado está marcada para 1º de fevereiro.

ENTREVISTA COM MARIA DAS DORES CAMPOS MACHADO

De acordo com a socióloga Maria das Dores Campos Machado, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora do pentecostalismo, os grupos religiosos são compostos de diferentes perspectivas e há inúmeras lideranças com viés mais progressista, o que explica o pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro formulado por líderes evangélicos e católicos.

"A primeira coisa a ser dita é que a esfera religiosa reflete o que está acontecendo na sociedade como um todo. Os grupos religiosos são heterogêneos e têm diferentes perspectivas no seu interior", afirmou ao Estadão. A pesquisadora afirma ainda que o agravamento da crise do coronavírus pode inclusive afetar o apoio que o presidente recebe, desde 2018, das lideranças mais conservadoras.

O que significa um pedido de impeachment que tem como autores líderes evangélicos e católicos?

A primeira coisa a ser dita é que a esfera religiosa reflete o que está acontecendo na sociedade como um todo. Os grupos religiosos são heterogêneos e têm diferentes perspectivas no seu interior. O que a gente viu em 2018 foi um alinhamento de conservadores evangélicos, católicos e judeus em torno da candidatura do Bolsonaro e que vêm sustentando o presidente. Você tem padres e pastores que vão na porta do Palácio do Planalto cumprimentar o Bolsonaro ou fazer discursos a favor dele. Os grupos religiosos têm diferentes perspectivas. No caso específico desse movimento (pelo impeachment), você tem aí vozes dissidentes com relação aos conservadores.

Pode dar exemplos?

Não podemos esquecer que tanto o movimento evangélico quanto os católicos têm uma ala progressista que é minoritária mas que aparece em vários momentos da história brasileira. O PT foi criado com apoio de católicos e da ala progressista da CNBB. Há grupos como as Católicas pelo Direito de Decidir, as evangélicas que lutam pela igualdade de gênero, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, há a Teologia Negra, um grupo preocupado com racismo estrutural. Você tem feministas evangélicas, e você tem minorias que são vozes dissidentes. E provavelmente é desse campo que vem essa mobilização de impeachment de Bolsonaro. É reflexo de uma mobilização maior que está acontecendo na sociedade brasileira.

O agravamento da crise de covid-19 pode afetar o apoio que pastores evangélicos dão a Bolsonaro desde a eleição de 2018?

Acho que sim, porque são vidas que estão sendo perdidas e isso mexe com famílias e com diferentes lideranças que vão, de uma certa forma, sentir isso dentro de suas comunidades. Então ele corre o risco de perder o apoio nesse meio. Embora a gente saiba que há também lideranças fisiológicas e que só largam o poder no último minuto. Mas existe sim uma possibilidade de ele perder popularidade, como aconteceu com Trump nos EUA. Ele caiu de 82% do apoio evangélico dos Estados Unidos nas eleições de 2016 e isso foi para 76% em 2020. Isso pode acontecer aqui no Brasil.

Existe clima para a abertura hoje de um processo contra o presidente no Congresso?

Acho que é importante que isso seja colocado e que a sociedade civil tome o máximo de iniciativa nesse sentido porque o presidente tem sido extremamente relapso e inconsequente. E a gestão dele tem sido muito maléfica para a população mais pobre e com menos recursos. A situação de Manaus, Pará e que está chegando em Rondônia... Está havendo um espraiamento do número de mortes e sem nenhuma preparação. Acho que essa é uma questão extremamente importante e acho que todos os grupos da sociedade que podem se manifestar nesse sentido deveriam fazê-lo. E acho muito saudável que comece a aparecer essas cisões também por parte dos grupos religiosos e a manifestação deles no espaço público com relação a isso.


O Estado de São Paulo



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