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27/01/2021 | domtotal.com

Depois de Bahia branqueada, Globo entendeu recado

Globo finalmente entendeu que estava perdendo o bonde da história quanto à representatividade étnica em suas produções. Veja notas sobre programas da TV

Participantes do BBB21
Participantes do BBB21 Foto (Divulgação/Globo)

Alexis Parrot*

Gênesis: longe do Jardim do Éden

A nova novela da Record já começa com uma idiossincrasia. Se queria mesmo reinterpretar o Gênesis – primeiro livro da Bíblia, onde tudo começa – por que iniciar com uma citação dos Salmos?

Além disso, para os diretores (ou seriam os pastores?) do canal, antes de Deus criar dia e noite, céu, mares, terras, animais e o homem, já existiriam por aqui dinossauros – extintos após a queda do anjo Lúcifer e sua falange rebelde, originando o inferno ou algo que o valha. Parece enredo de escola de samba mas é assim, cheia de erros de cronologia, que se inicia a nova peça de cooptação ideológica de Edir 'nada a perder' Macedo, um CEO de empresa que gosta de ser chamado de bispo.

De Adão e Eva pouco sabemos como aparentavam, mas podemos imaginar alguns detalhes. Se o Éden ficava mesmo na Mesopotâmia como pregam historiadores da religião, traços árabes não estariam fora de questão. Como Adão foi feito do barro e Eva de sua costela, é lícito também imaginar que não deviam ter umbigo.

Mas detalhes como esses não importam para a Record (e, por extensão à holding do grupo, a Igreja Universal do Reino de Deus Ltda.). Enquanto a diversidade nos produtos da indústria cultural é cobrada justamente e em altos brados pelo ativismo político mundo afora, a emissora insiste em apresentar um Adão e Eva caucasianos e de olhos azuis – mais afeitos a corroborar uma ideia distorcida da pureza defendida pela tradição judaica.  

As "mensagens" camufladas na novela são como easter eggs ideológicos. Há um subtexto pouco sutil, homofóbico e antifeminista que se esconde por detrás da obediência literal a passagens do Antigo Testamento, porém, apenas àquelas que se encaixam no discurso pretendido. Pinçam apenas aquilo que interessa para citar ipsis litteris e bagunçam todo o resto – manifestação clara de má fé intelectual.   

Esteticamente, os pecados da novela são mais originais ainda. Os efeitos especiais poderiam ser um filtro do Tiktok e, apesar da história se passar no início dos tempos, o corte de cabelo de Adão não poderia ser mais anos 80.

Em comparação à produção recente da Record, Gênesis pode até não ser um Apocalipse, mas é o fim da picada.

De olho no retrovisor

Após o fim de uma história de vinte e sete anos nos canais fechados da Globo, o Manhattan Connection de Lucas Mendes e Caio Blinder migrou para a TV Cultura e estreou na semana passada com grande repercussão.

Comentarista fixo do Jornal da Cultura há quase uma década, o filósofo Luiz Felipe Pondé dá o pontapé inicial na próxima quinta a um novo programa, o Linhas Cruzadas, agora como apresentador. Junte a isso tudo a notícia de que o canal público de São Paulo tem nos planos um talk show diário para breve, já selecionando possíveis hosts para a atração.

Com tantas novidades na manga, a TV Cultura corre o risco de se tornar a emissora brasileira mais moderna de quinze anos atrás.

BBB 21 preto e gay

Com os protestos crescentes - que explodiram de vez em 2018, após a novela O segundo sol apresentar uma Bahia branqueada - a Globo finalmente entendeu que estava perdendo o bonde da história quanto à representatividade étnica em suas produções.

Apenas a vitória de Thelma e o fôlego de Babu na competição do BBB do ano passado foram capazes de fazer com que a ficha caísse, mudando radicalmente o perfil do elenco do programa para esta nova temporada.    

Ao contrário de verões passados quando, a título de cota, apenas dois ou três participantes negros disputavam o prêmio, dessa vez a história é outra. E a correção de rumo não se aplica só à questão racial; a diversidade parece ser mesmo o pilar sobre o qual Boninho baseou a escolha dos futuros emparedados, abraçando também com mais firmeza a comunidade LGBTQ: são nove negros e pelo menos quatro LGBTQ assumidos entre os concorrentes.    

Mas a criatividade – ou engajamento oportunista (?) – para por aí. Aprovada pelo público, repete-se a mistura entre celebridades e subcelebridades com desconhecidos – cópia do que Silvio Santos fez na Casa dos Artistas nos idos de 2002 – e o casting completo inclui cinco cantores, cinco influenciadores digitais e quatro goianos. 

E ainda há o Fiuk, um daqueles mistérios genéticos que a ciência deveria estudar. O cantor e ator de carreira imemorável herdou do pai apenas a aparência. Ainda que cópia xerox de Fabio Jr. na juventude, falta-lhe brilho e carisma – além de talento, diga-se. Deveria ter ido direto para A fazenda – onde estará certamente no ano que vem, caso o BBB não lhe seja benevolente.  

Frase da semana

De Diogo Mainardi (na estreia do Manhattan Connection na TV Cultura):

"A vantagem de ter um imbecil na presidência é que ele é transparente".

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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