Religião

28/01/2021 | domtotal.com

Vida religiosa e consagrada: dom para a Igreja e para o mundo

Apesar da crise na vida consagrada, votos ainda são testemunho de liberdade num mundo de fluidez

Missa pelos consagrados com o papa Francisco em 2 de fevereiro de 2020
Missa pelos consagrados com o papa Francisco em 2 de fevereiro de 2020 (Vatican Media)

Carlos Cesar, SJ*

Às vésperas do 25º Dia Mundial da Vida Religiosa e Consagrada a ser celebrado no dia 2 de fevereiro, coincidentemente ou não, numa conversa amistosa fui questionado sobre o sentido da vida religiosa e o que levava ainda um ou uma jovem nos dias de hoje a se consagrar através dos votos de pobreza, castidade e obediência.

Na visão desse meu interlocutor, 'não fazia mais tanto sentido não se casar, (castidade), não desfrutar dos bens (pobreza) e nem fazer o que se quer (obediência)'. Certamente, essa é uma visão limitada e reduzida do que significa cada um desses conselhos evangélicos. Em todo caso, nada melhor do que uma boa conversa para procurar explicar, contextualizar e testemunhar aquilo que cada um acredita e vive. A honestidade com o chamado de Deus tem que se dar em todos os contextos e ela passa por ser capaz de se questionar e de permitir ser questionado.

É comum encontrar pessoas que nos etiquetam por não entenderem a nossa consagração ou até pessoas que desconfiam e desqualificam a nossa opção de vida enxergando os votos mais como uma condenação do que como um valor. Muitos não fazem por mal. No contexto de nossa cultura atual a crise das instituições traz à tona mecanismos de desconfianças e suspeitas que são transferidos a quem faz parte de uma instituição como a Igreja, mais especificamente parte de uma ordem religiosa. Essa constatação é apenas um alerta de que temos que encontrar novas linguagens e novos modos de ser e estar e de comunicar a nossa fé e os nossos carismas. Se não fizermos isso correremos o risco de ficarmos presos a um saudosismo de outras épocas em que tudo isso estava dado por suposto, mas que já não nos corresponde mais.  O grande desafio é continuar buscando um caminho onde nós religiosos e religiosas possamos seguir tendo uma missão credível, uma palavra oportuna e profética a ser dita e um lugar a ocupar sem constrangimentos, não obstante as nossas muitas limitações e pecados. O fato é que continuaremos a caminhar na linha sempre tênue dos novos caminhos e da fidelidade inspiradora dos nossos institutos religiosos. O segredo é não ter medo e nem calar o Espírito.

Quanto à pergunta feita se a vida religiosa ainda tem sentido, um vigoroso sim precisa ser dado, amparado, sobretudo, a partir do testemunho de muitos homens e mulheres que seguem fazendo de suas vidas uma verdadeira oferenda a Deus e ao próximo. Doam a vida porque têm fé, porque se sentem chamados, porque acreditam e porque creem que o 'nós' tem mais força que o 'eu'.  Felizmente ainda há muita gente que acredita, espera, necessita, acolhe, incentiva e sustenta, dos mais diversos modos, a nossa consagração.

Pessoalmente, ao longo de minha caminhada vocacional tenho podido compartilhar com muitos amigos de dentro da ordem a qual eu faço parte, mas também com os de fora dela, as incertezas e preocupações que sempre aparecem. De igual modo, sinto-me livre em partilhar também o perene entusiasmo, a renovada paixão e a humilde consciência de que a vida religiosa tem sentido e tem muito a oferecer à Igreja e à sociedade e que, por isso, o meu futuro e a minha vida estão empenhados aí, pois para além dos desejos e esforços meramente pessoais, existe o amparo de Deus que chama, confirma e sustenta.

Há quem diga também que a vida religiosa e as vocações de um modo geral vivem um estado de crise. Isso é verdade e não é nenhuma novidade. Etimologicamente, a palavra crise não tem em si um significado negativo. Em sua origem grega ela indica um momento decisivo, difícil, de mudança súbita e remete à ação de distinguir, separar, eleger, julgar. A crise é, nesse sentido, uma oportunidade de discernimento, de escolha e decisão. Portanto, é compreensível e em certa medida até desejável, que a vida religiosa e as vocações em geral estejam em crise, pois a partir daí se abre uma grande oportunidade de mudança e de acolhida às novidades de Deus. Mais cedo ou mais tarde, através do Espirito e dos profetas de hoje, a vida religiosa será lançada a caminhar sem medo e sempre em frente pelos caminhos complicados do mundo de hoje, discernindo e escolhendo o melhor diante de Deus e dos filhos e filhas por ele amados.

Mas e sobre os motivos que levam um jovem a considerar a vida religiosa como uma opção plausível para seu futuro? As respostas podem ser muitas, a partir da experiência de cada um que opta por esse caminho. Mas o fato é que consagrar-se a Deus supõe uma escolha radical, já que é a vida de cada um que está em jogo e, consequentemente, há renúncias sérias e conscientes a serem feitas; é uma escolha possível, já que Deus não nos pede aquilo que não somos capazes de dar ou fazer, e, sobretudo, é uma escolha definitiva, que prova a cada um e ao mundo de que o para sempre segue sendo possível, mesmo num mundo de liquidez, instabilidade e de projetos fugazes.

Mas e os votos? Bom, ao mesmo tempo em que eles, se mal compreendidos, podem assustar ou afastar, são também esses mesmos votos que continuam sendo um importante diferencial para que alguém considere a vida religiosa como um caminho possível entre tantos outros caminhos, também bons. Seja como for, para os religiosos ou para quem se dispuser a vivê-los, os conselhos evangélicos são, antes de tudo, sinais de liberdade num mundo cada vez mais carente de raízes e de empatia. Sinal de liberdade diante das coisas (pobreza), diante das relações (castidade) e diante do próprio ego (obediência).

A vida religiosa e consagrada merece ser celebrada por tudo aquilo que ela representa na Igreja e no mundo. Ela ainda tem sentido? Sim. E continuará tendo! Ser fiel à vocação é atrever-se a ser feliz.

*Carlos Cesar, é jesuita, bacharel em Relações Internacionais pelo Centro Universitário de Brasilia (UniCEUB) com estudos na Universidad de La Republica (Montevideu). Estudou Filosofia na Faculdade Jesuita (FAJE) em Belo Horizonte. E-mail: carloscesarsj@outlook.com



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