Religião

29/01/2021 | domtotal.com

Caminhos do amadurecimento da fé

Algo de maturidade humana é necessário para viver a experiência do Deus cristão

Faz-se necessário trilharmos um itinerário de amadurecimento na fé, a fim de que possamos integrar todo o nosso ser na experiência de Deus e não cairmos na 'esquizofrenia espiritual' que faz tanto mal à Igreja e à nossa sociedade.
Faz-se necessário trilharmos um itinerário de amadurecimento na fé, a fim de que possamos integrar todo o nosso ser na experiência de Deus e não cairmos na 'esquizofrenia espiritual' que faz tanto mal à Igreja e à nossa sociedade. (Unsplash/Elaine Casap)

Rodrigo Ferreira da Costa, SDN* 

A experiência de Deus, que nasce do encontro amoroso com a pessoa de Jesus Cristo, implica na capacidade de se decidir livremente pela abertura ou pelo fechamento. Trata-se de um Deus-amor que não se impõe pela força, nem tampouco tolhe a liberdade humana. Tal experiência, entretanto, exige crescimento e amadurecimento. Assim como toda pessoa precisa enfrentar o lento e complexo desafio do amadurecimento físico, psíquico e afetivo, é preciso também crescer na fé, "até chegarmos, todos juntos, à unidade na fé e no conhecimento do Filho de Deus, ao estado de adultos, à estatura do Cristo em sua plenitude" (Ef 4,13).

A fé cristã não é um lançar-se no escuro, numa aventura ilusória e infantil, "nós não procuramos Deus tateando, nem precisamos esperar que Ele nos dirija a palavra, porque realmente 'Deus falou, já não é o grande desconhecido, mas mostrou-Se a Si mesmo'" (Papa Francisco, EG, 175). Neste sentido, faz-se necessário trilharmos um itinerário de amadurecimento na fé, a fim de que possamos integrar todo o nosso ser na experiência de Deus e não cairmos na "esquizofrenia espiritual" que faz tanto mal à Igreja e à nossa sociedade.

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Os caminhos do amadurecimento da fé passam indubitavelmente pelo processo humano de maturação, em outras palavras, algo de maturidade humana é necessário para viver a experiência do Deus cristão. É evidente que no processo humano de maturidade nunca estamos completos e acabados, somos eternos caminhantes nessa estrada. Entretanto, "o que se observa, na vida das Igrejas, é a presença de grande número de pessoas que parecem estar tão enredadas nos estágios infantis da vida humana que o encontro pessoal com o Deus de Jesus Cristo acaba sendo, lamentavelmente, obstaculizado ou até impedido" (Alfonso García Rubio).

Tal progresso na fé não se resume apenas por uma formação doutrinal, não é uma questão somente de conhecimento dos conteúdos da fé, mas de integração da espiritualidade em todas as dimensões da vida, porque o crescimento na fé "se dá através dos encontros com o Senhor no curso da vida. Estes encontros se guardam como um tesouro na memória e são nossa fé viva, em uma história de salvação pessoal. Isto é importante, o crescimento na fé se dá somente quando encontramos o Senhor" (Papa Francisco). Por isso, São Paulo propõe um caminho "da fé para fé" (Rm 1, 17). É, pois, regressando e buscando as raízes de nossa fé, iluminados muitas vezes pelo testemunho das pessoas que ajudaram a fazer com que a nossa fé germinasse e crescesse em nós, que trilhamos o itinerário de amadurecimento da fé. 

A cada momento da história somos desafiados a "dar razões da nossa esperança" (1Pd 3,15), a encontrar respostas para as novas perguntas que nos interpelam. Muitas vezes temos a tentação de querer colocar "remendo novo em roupa velha" ou de guardar "vinho novo em odres velhos", porém, "roupa nova exige remendo novo e vinho novo, odres novos" (Mt 9,16-17). É preciso coragem e ousadia para trilhar caminhos não pisados, pensar pensamentos não pensados,  abandonar as seguranças das margens e "avançar às águas profundas" (Lc 5, 4). Pois "o ser humano, chamado desde o início da criação à salvação, à comunhão com Deus é, simultaneamente, interpelado para se comprometer com as consequências que a aceitação desse amor e dessa salvação leva consigo, a saber, a responsabilidade pela própria existência, pela história humana e pela ecologia" (Alfonso García Rubio).

Dentre os vários caminhos de amadurecimento da fé podemos destacar a necessidade de superar a realidade de sombra que existe em nós, ou seja, somos todos pecadores e necessitados da graça redentora de Cristo. Reconhecer-se pecador é o primeiro passo para a conversão, para superar a autorreferencialidade e o fanatismo religioso. Como nos alerta o Evangelho: "Por que reparas no cisco no olho do teu irmão, e a trave no teu próprio olho não percebes?" (Mt 7,3). Somente quem se reconhece pecador e necessitado do perdão, pode agir com misericórdia para com os outros.

Outro aspecto a ser observado é a superação das relações infantis, isto é, um pouco de maturidade psicoafetiva é necessário à fé. Do contrário, a nossa relação com Deus poderá ficar presa ao nosso narcisismo, no medo pueril e pouco livre e gratuita.  Isso não significa dizer que a maturidade psicoafetiva leve por si mesma à fé adulta, porque a fé é dom gratuito de Deus e não simplesmente resultado de disposições humanas, porém, a fé encontra na maturidade psicoafetiva o substrato antropológico que possibilita a experiência adulta do Deus da revelação bíblica.

A maturidade da fé requer também comunidades minimamente saudáveis. Uma vez que a experiência cristã de Deus se concretiza em comunidade, precisamos cuidar para que esta seja também antropologicamente sadia. Pois o que se vê muitas vezes são grupos radicais nos quais os líderes impõem suas neuroses e traumas sobre os seus membros, tornando o ambiente violento e doentio. A comunidade como "lugar do perdão e da festa" precisa ser espaço de acolhida, fraternidade e partilha. Como nos exorta São Paulo: "como eleitos de Deus, santos e amados, vesti-vos com sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência; suportai-vos uns aos outros e, se um tiver motivo de queixa contra o outro, perdoai-vos mutuamente. Como o Senhor vos perdoou, fazei assim também vós" (Cl 3,12).  A existência, portanto, de comunidades eclesiais sadias, onde as diferenças são respeitadas e o amor é a lei maior, constitui o espaço vital indispensável para o processo de amadurecimento da fé.

Por fim, há que se alertar para a necessidade da superação da culpabilidade exacerbada que leva muitas pessoas ao não amadurecimento na fé. A predominância de uma pregação ou pastoral do medo e da culpabilização contribuiu, ao longo da história, para formar pessoas emocionalmente doentes ou até mesmo para o aparecimento e difusão do ateísmo, pois esse Deus que vigia e pune não tem o rosto amoroso do Deus de Jesus Cristo.

 Há que se recordar que é o amor incondicional de Deus que constitui o centro da experiência cristã de Deus, não é o pecado e a culpa, por que "onde aumentou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5,20). A consciência da nossa condição humana frágil e sujeita ao pecado não deve nos levar a mergulhar num "vale de lágrimas", pois já fomos amados e perdoados por primeiro. Desta forma, podemos afirmar que a maturidade da fé passa necessariamente pela superação da culpabilização exacerbada e a abertura confiante à graça redentora de Cristo que primeiro no amou e Se entregou por nós. Noutras palavras, é à luz e ao calor do amor de Deus que se faz o caminho do amadurecimento da fé.

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Atualmente é pároco da Paróquia de Santa Luzia ?" Arquidiocese de Teresina-Piauí.



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