Religião

29/01/2021 | domtotal.com

Ser simultaneamente criança e adulto na fé: eis o desafio diário de cada cristão

Jesus convida seus discípulos a contemplarem as crianças como parâmetro decisivo para o dinamismo vivencial da fé cristã adulta

O desafio diário de cada cristão é ser, simultaneamente, criança e adulto na fé
O desafio diário de cada cristão é ser, simultaneamente, criança e adulto na fé (Unsplash/Juliane Liebermann)

Edward Guimarães*

O desafio de toda ação evangelizadora libertadora é suscitar comunidades cristãs formadas por pessoas que se tornaram capazes de assumir juntas, em Jesus Cristo e pela força do Espírito Santo, o compromisso de amar e servir fraternalmente em contínuo processo de conversão a Deus, de superação de equívocos e erros, de aperfeiçoamento nas relações humanas. Trata-se, portanto, de um desafio colocado a pessoas adultas na fé. No entanto, no título desta reflexão asseveramos que o desafio diário de cada cristão é ser, simultaneamente, criança e adulto na fé. Que significa concretamente essa simultaneidade?

No Evangelho do Reino, escrito à luz do anúncio-testemunho dos primeiros discípulos e discípulas de Jesus, as crianças e os pobres, os socialmente vulneráveis, ocupam de forma determinante a centralidade qualitativa de interpelação e dinamização da vida cristã.

Leia também:

Jesus, de forma bastante desconcertante, convida seus discípulos e discípulas a contemplarem as crianças como parâmetro decisivo para o dinamismo vivencial da fé cristã adulta: "Naquela hora, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: 'Quem é o maior no Reino dos Céus?'. Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: 'Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis  no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança esse é o maior no Reino dos Céus. E quem acolher em meu nome uma criança como esta, estará acolhendo a mim mesmo." (Mt 18, 1-4). Além disso, Jesus coloca o cuidado com os pobres e com os vulneráveis da sociedade como critério decisivo de juízo para seus discípulos e discípulas: "Vinde benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois eu estava com fome, e me deram de comer; estava com sede, e me deram de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e fostes visitar-me" (Mt 25, 34-36).

A vida cristã é vivida em uma comunidade de fé, sempre aberta, na qual seus membros, os que foram batizados, são chamados a fecundar a todos pelo anúncio-testemunho de um novo jeito de viver e conviver, captado na vida de Jesus de Nazaré. Nesse sentido, a ação evangelizadora, por um lado, precisa provocar o surgimento de comunidades de fé com pessoas espiritualmente capazes de cultivar aquela postura serena, pura, aberta, dialógica, afetuosa, espontânea, solícita, solidária e, sobretudo, confiante das crianças. E, por outro, simultaneamente, comunidades de fé com pessoas capazes de tomar decisão e de assumi-las, em seu cotidiano, se deixando impulsionar pelo cultivo diário daquela postura inquieta de Jesus. Refiro-me àquela postura orante jesuânica de discernimento crítico-autocrítico e de busca da vontade de Deus, com agudo senso de urgência e corresponsabilidade, no compromisso ético, de participação política e cuidado econômico inclusivo, a partir da defesa da dignidade dos mais pobres, excluídos e vulneráveis, no seio da comunidade que se assume como Igreja e na sociedade em geral.

Trata-se o ser cristão de um ideal que pode ir se concretizando historicamente em uma caminhada sempre inconclusa que – como descreve o papa Francisco, de modo especial em suas encíclicas Evangelli Gaudium e Laudato Si' – pode ser trilhada por pessoas entusiasmadas pela pessoa Jesus de Nazaré e que, com alegria, se comprometem com um esmerado e atento cultivo da ecologia integral.

Os evangelhos foram escritos, primariamente, para transformar pela fé o olhar para a pessoa de Jesus de Nazaré: ao contemplar a vida deste homem e meditar sobre os ensinamentos, atitudes e gestos do Profeta crucificado-ressuscitado da Galileia, pela luz e força advindas do Espírito Santo, se perceba a presença do Deus-Emanuel, sempre estradeiro conosco em nossa história. A pessoa de Jesus se apresenta aos olhos da fé como um Caminho que, ao ser livremente trilhado, transforma o coração dos discípulos e discípulas ?" o centro pulsante de irradiação da energia interior ?" e os seus critérios de decisão ?" que alimentam a mente e o que são utilizados decisivamente ao se concretizar as opções de vida.

Deus, na experiência cristã, é aquele que chama, interpela, confia e dá os dons necessários para ser e conviver como seus filhos e filhas. O cristão é, antes de tudo, um vocacionado ao amor fraterno e ao cuidado inclusivo de uns com os outros e da casa comum que a todos alberga e, de forma interdependente, integra no complexo sistema vida.

O cristão é, sobretudo, aquele que espiritualmente se sente interpelado a enraizar a própria vida na vida de Jesus, passando a viver pautado pelos valores do Evangelho. Esta vida nova, enraizada em Cristo, é o que o capacita para assumir e vivenciar a atitude confiante das crianças e, como adulto, as implicações do ser cristão em seu contexto histórico existencial. Concretiza-se como uma transformação cotidiana no dinamismo da vida. Isso somente é possível coletivamente, por pessoas inseridas numa comunidade de fé, com pessoas comprometidas com o mesmo ideal de amar e servir.

A vida cristã é um desafio que pode ser traduzido como uma caminhada íngreme na qual se vai concretizando, passo a passo, por uma vida de fé criativa, firme, resiliente e adulta. Esta vida de fé, que deve ser acolhida com a confiança das crianças em seus cuidadores, compromete: irmana uns com os outros na práxis da justiça e da misericórdia do Reino de Deus, na defesa e no cuidado com a dignidade da vida, da vida de cada pessoa que vem a este mundo.

*Edward Guimarães é teólogo leigo. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Minas e mestre em Teologia pela FAJE. Professor de Teologia do Centro Loyola de Espiritualidade, Fé e Cultura. Professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, onde atua como secretário executivo do Observatório da Evangelização. Assessor das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), movimentos populares, pastorais sociais e membro do Conselho Pastoral Arquidiocesano (CPA). Membro da atual diretoria da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter).



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!